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Ilustração de abertura da história «Dois vigaristas».

20 de Agosto

Dois vigaristas

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Vivia na rua mais pobre e mais sombria de uma cidade da Ásia um homem chamado Zahil, que era muito preguiçoso. Ela e a mulher, não menos amiga de pouco fazer do que o marido, nunca se tinham disposto a aprender uma profissão ou, a bem dizer, a única profissão que sabiam era a de pregar más partidas aos camponeses e aos lavradores ricos, que passavam pela cidade.

Tinham, realmente, fama de vigaristas e não menor proveito.

Sucedia, às vezes, que Zahil e Samam, assim se chamava a mulher, à falta de engenho ficavam com a barriga vazia.

Ora foi numa dessas ocasiões que nós os encontrámos, no princípio desta história. Dizia a mulher:

- Não podemos continuar assim, Zahil.

Ou tu inventas uma grande partida, que nos traga muito dinheiro, ou vamos começar a fazer como os outros, que chegam ao fim do dia e têm com que encher o caldo da panela.

- E que fazem os outros? - perguntou Zahil, bocejando.

- Ora que fazem?! Fartam-se de trabalhar, pois então!

- Ui!

Disso estás tu bem livre - e Zahil saltou da cama e saiu sem dizer ao que ia.

Voltou, passado tempo, com uma gaiola. Dentro da gaiola, no mesmo poleiro, vinham dois periquitos verdes, iguaizinhos. A mulher zangou-se:

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Então tu andas a gastar o último dinheiro que temos com luxos.

Zahil, com um ar misterioso, respondeu:

- E não é tudo. Vai ao mercado e compra umas galinhas gordas, arroz e especiarias. Com elas faz uma boa tachada, enquanto eu passo pelo largo da cidade. Quero convidar alguns amigos e conhecidos para jantarem connosco.

Samam achou que o marido estava doido e disse-lho. Então Zahil, rindo-se da maroteira que ia pregar, deu algumas instruções em segredo à mulher e saiu para a rua, com um dos periquitos no bolso do albornoz. O outro passaroco ficou sem companhia, a protestar, no poleiro da gaiola, o seu desamparo.

Na principal praça, onde se reuniam os mercadores mais ricos da cidade, para tratarem dos seus negócios, Zahil abordou um dos comerciantes e perguntou-lhe, sem cerimónia:

- Quer vir jantar a minha casa?

O interpelado, que mal conhecia Zahil, estranhou o convite, mas o finório não lhe deu sequer tempo para pensar e acrescentou:

- Se quiser, eu digo ao meu periquito para avisar a minha mulher que temos mais um conviva - e mostrou o passarinho, preso na mão.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Outros mercadores, que isto tinham ouvido, acercaram-se, curiosos e divertidos. Um deles, em tom de chalaça, quis saber se, realmente, o periquito era assim tão esperto.

- Imenso, senhor. Não fosse ele e estaria pobre. Muito me ajuda o meu periquito, principalmente a fazer recados - respondeu Zahil.

- Ah! Ah! Ah! - riram-se os que isto ouviram.

- Não acreditam? Pois convido-os a virem jantar comigo. A minha mulher já deve ter chegado a casa, de forma que eu vou dizer ao meu periquito para ir avisá-la de que levo alguns amigos para o nosso jantar. Gostam de galinha de caril com arroz?

Todos gostavam.

- Então, amigo, vai dizer à tua dona para preparar uma grande tachada de galinha com arroz. Quando chegarmos, quero tudo pronto. Vai! - e Zahil largou o periquito, que, vendo-se, tão de súbito, em liberdade, voou para onde muito bem quis.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Muito espantados ficaram os convidados, quando, ao entrarem em casa de Zahil, viram a mesa posta como para um banquete. Passava no ar um cheirinho a caril que regalava...

- Sentem-se, por favor, ilustres senhores - disse-lhes a mulher.

- Se não tivesse vindo o periquito, a anunciar a vossa chegada, creio bem que o jantar ainda estaria por fazer.

De facto, na gaiola, lá estava um periquito verde...

Depois do jantar, um dos convidados, que era um rico comerciante da província, gabou a refeição e a inteligência do periquito.

- Dou-lhe cem moedas por ele - propôs.

- Nem por sombras - replicou Zahil. - Só o trabalho que eu tive a educá-lo merece bem mil moedas.

- Aqui tem as mil moedas - atalhou o negociante.

E fez-se negócio.

Quando, no dia seguinte, o negociante chegou a casa, a sua primeira preocupação foi a de perguntar à mulher se o periquito lhe tinha dado o recado com o que ele queria para o almoço.

- Qual recado? Qual periquito? - assustou-se a mulher. - Os ares da cidade devem ter-te tirado o juízo.

- Tiraram mesmo - exclamou o pobre comerciante, dando socos na sua própria cabeça.

Tinha compreendido a maroteira.

- Seu vigarista, devolva-me já as minhas mil moedas ou mando-o prender - ameaçou o comerciante, entrando em casa de Zahil.

- O seu periquito era um pássaro vulgar, como qualquer outro, e a prova está que fugiu em vez de se desempenhar do recado que eu lhe ordenara.

- E que recado era esse? - perguntou, serenamente, Zahil.

- Era o de ir à minha frente dizer à minha mulher que eu queria carne guisada para o almoço.

- Sabia ele, porventura, onde era a vossa casa? Já lá tinha estado convosco? - inquiriu Zahil, sem perder a calma.

O comerciante ficou atrapalhado. Realmente, como podia o periquito saber onde ele morava se ninguém lho dissera.

E, pensando no seu esquecimento e pouca sorte, o comerciante saiu da casa de Zahil, muito acabrunhado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Esta história, que é um conto popular persa, parece aplaudir os vigaristas e preguiçosos que vivem da ingenuidade dos que não são vigaristas nem preguiçosos. Mas trata-se apenas de uma história, de um bocadinho da vida de um tal Zahil...

Se chegássemos ao fim da história da vida de Zahil, veriam como ela era triste.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Vivia na rua mais pobre e mais sombria de uma cidade da Ásia um homem chamado Zahil, que era muito preguiçoso. Ela e a mulher, não menos amiga de pouco fazer do que o marido, nunca se tinham disposto a aprender uma profissão ou, a bem dizer, a única profissão que sabiam era a de pregar más partidas aos camponeses e aos lavradores ricos, que passavam pela cidade.

Tinham, realmente, fama de vigaristas e não menor proveito.

Sucedia, às vezes, que Zahil e Samam, assim se chamava a mulher, à falta de engenho ficavam com a barriga vazia.

Ora foi numa dessas ocasiões que nós os encontrámos, no princípio desta história. Dizia a mulher:

- Não podemos continuar assim, Zahil.

Ou tu inventas uma grande partida, que nos traga muito dinheiro, ou vamos começar a fazer como os outros, que chegam ao fim do dia e têm com que encher o caldo da panela.

- E que fazem os outros? - perguntou Zahil, bocejando.

- Ora que fazem?! Fartam-se de trabalhar, pois então!

- Ui!

Disso estás tu bem livre - e Zahil saltou da cama e saiu sem dizer ao que ia.

Voltou, passado tempo, com uma gaiola. Dentro da gaiola, no mesmo poleiro, vinham dois periquitos verdes, iguaizinhos. A mulher zangou-se:

- Então tu andas a gastar o último dinheiro que temos com luxos.

Zahil, com um ar misterioso, respondeu:

- E não é tudo. Vai ao mercado e compra umas galinhas gordas, arroz e especiarias. Com elas faz uma boa tachada, enquanto eu passo pelo largo da cidade. Quero convidar alguns amigos e conhecidos para jantarem connosco.

Samam achou que o marido estava doido e disse-lho. Então Zahil, rindo-se da maroteira que ia pregar, deu algumas instruções em segredo à mulher e saiu para a rua, com um dos periquitos no bolso do albornoz. O outro passaroco ficou sem companhia, a protestar, no poleiro da gaiola, o seu desamparo.

Na principal praça, onde se reuniam os mercadores mais ricos da cidade, para tratarem dos seus negócios, Zahil abordou um dos comerciantes e perguntou-lhe, sem cerimónia:

- Quer vir jantar a minha casa?

O interpelado, que mal conhecia Zahil, estranhou o convite, mas o finório não lhe deu sequer tempo para pensar e acrescentou:

- Se quiser, eu digo ao meu periquito para avisar a minha mulher que temos mais um conviva - e mostrou o passarinho, preso na mão.

Outros mercadores, que isto tinham ouvido, acercaram-se, curiosos e divertidos. Um deles, em tom de chalaça, quis saber se, realmente, o periquito era assim tão esperto.

- Imenso, senhor. Não fosse ele e estaria pobre. Muito me ajuda o meu periquito, principalmente a fazer recados - respondeu Zahil.

- Ah! Ah! Ah! - riram-se os que isto ouviram.

- Não acreditam? Pois convido-os a virem jantar comigo. A minha mulher já deve ter chegado a casa, de forma que eu vou dizer ao meu periquito para ir avisá-la de que levo alguns amigos para o nosso jantar. Gostam de galinha de caril com arroz?

Todos gostavam.

- Então, amigo, vai dizer à tua dona para preparar uma grande tachada de galinha com arroz. Quando chegarmos, quero tudo pronto. Vai! - e Zahil largou o periquito, que, vendo-se, tão de súbito, em liberdade, voou para onde muito bem quis.

Muito espantados ficaram os convidados, quando, ao entrarem em casa de Zahil, viram a mesa posta como para um banquete. Passava no ar um cheirinho a caril que regalava...

- Sentem-se, por favor, ilustres senhores - disse-lhes a mulher.

- Se não tivesse vindo o periquito, a anunciar a vossa chegada, creio bem que o jantar ainda estaria por fazer.

De facto, na gaiola, lá estava um periquito verde...

Depois do jantar, um dos convidados, que era um rico comerciante da província, gabou a refeição e a inteligência do periquito.

- Dou-lhe cem moedas por ele - propôs.

- Nem por sombras - replicou Zahil. - Só o trabalho que eu tive a educá-lo merece bem mil moedas.

- Aqui tem as mil moedas - atalhou o negociante.

E fez-se negócio.

Quando, no dia seguinte, o negociante chegou a casa, a sua primeira preocupação foi a de perguntar à mulher se o periquito lhe tinha dado o recado com o que ele queria para o almoço.

- Qual recado? Qual periquito? - assustou-se a mulher. - Os ares da cidade devem ter-te tirado o juízo.

- Tiraram mesmo - exclamou o pobre comerciante, dando socos na sua própria cabeça.

Tinha compreendido a maroteira.

- Seu vigarista, devolva-me já as minhas mil moedas ou mando-o prender - ameaçou o comerciante, entrando em casa de Zahil.

- O seu periquito era um pássaro vulgar, como qualquer outro, e a prova está que fugiu em vez de se desempenhar do recado que eu lhe ordenara.

- E que recado era esse? - perguntou, serenamente, Zahil.

- Era o de ir à minha frente dizer à minha mulher que eu queria carne guisada para o almoço.

- Sabia ele, porventura, onde era a vossa casa? Já lá tinha estado convosco? - inquiriu Zahil, sem perder a calma.

O comerciante ficou atrapalhado. Realmente, como podia o periquito saber onde ele morava se ninguém lho dissera.

E, pensando no seu esquecimento e pouca sorte, o comerciante saiu da casa de Zahil, muito acabrunhado.

Esta história, que é um conto popular persa, parece aplaudir os vigaristas e preguiçosos que vivem da ingenuidade dos que não são vigaristas nem preguiçosos. Mas trata-se apenas de uma história, de um bocadinho da vida de um tal Zahil...

Se chegássemos ao fim da história da vida de Zahil, veriam como ela era triste.

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