• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «O Cão Farol».

10 de Agosto

O Cão Farol

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Q uem me contou esta história foi o senhor Tomé. Passo-lhe a palavra:

"O meu cão Farol era um portento. Um faro que só ele! Não há-de haver em todo o mundo e arredores um cão caçador que se lhe compare.

Felpa de coelho que ele cheirasse, num rasgo de urzes, era, daí a nada, mais um trangalhadanças preso ao meu cinto. Sim, eu é que dava o tiro, mas o mérito todo da caçada pertencia-lhe.

Às vezes, dava comigo a pensar se o caçador não seria ele... Bem vistas as coisas, o Farol é que me levava atrás, ele é que buscava, ele é que apanhava o rasto, ele é que corria, ele é que levantava a caça. E eu sempre atrás. Dar o tiro de remate não custava nada.

Quando eu via o coelho a fugir aos ziguezagues, gritava-lhe, a avisar:

– Pára, senão disparo.

Como nunca nenhum coelho parou ao meu mandado, tive sempre de cumprir o prometido. Sem falhar um.

O Farol trazia-mo, depois, na boca, a babar-se de riso, como quem me dá os parabéns pela pontaria, mas isso que importância tinha, comparado com o esforço dele? Fazia-lhe uma esfregada na peitaça, sinal e festa de agradecimento, que mais parecia pedido de desculpa por tirar-lhe o coelho dos dentes.

Estou convencido que, mesmo sem festas, o Farol me devolveria a caça. Ele era um mansarrão. Um companheirão. Um cão.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Envelheceu como eu envelheci. Já nos ia faltando genica para correr montados. Mas passei sempre as culpas para mim:

– Sabes, Farol, o teu dono está um pitosga. Não acerta nem numa perdiz no choco. Tremem-lhe as mãos. Tremem-lhe as pernas e já não troca as pantufas pelas botas de caçador.

Não era tanto assim, mas eu tinha de exagerar um bocado.

– Por este andar, amigo Farol, vais ter de arranjar outro dono que te leve à caça.

À maneira de resposta, o Farol poisava a cabeça nos meus joelhos, como se quisesse dizer que já não estava em idade de mudar de dono.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Na época da caça é que se enervava mais. Ouvia os outros latirem lá fora, mais os estampidos das caçadeiras.

Talvez ainda lhe chegasse às narinas o cheiro a medo, que vinha das luras, das moitas, do esconso das matas.

Nessas ocasiões, para entretê-lo, sabe o que é que eu fazia? Sombras chinesas, no muro do quintal:

– Olha o coelho, Farol. Busca! – gritava-lhe.

Ele saltava. A sombra robusta do cão caçador cobria a cabeça do coelho, que eu desenhara, à contraluz, com a habilidade das minhas mãos. Desde criança que eu não brincava a isto. Para o que me havia de dar, chegado a velho...

– Olha, agora, Farol, esta lebre. Corre!

E a lebre desaparecia, engolida pela sombra do Farol.

Dei-lhe as satisfações que podia. Só não estava na minha mão prolongar-lhe a vida..."

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O senhor Tomé, no fim do contar, enxugou uma lágrima. Depois, ainda disse, enquanto fixava, tristemente, o muro do quintal, caiado, muito branco, à luz do sol:

– De consolação fica-me a memória do belo cão que ele foi.

A cabeça bonita de um cão perdigueiro recortou-se, então, em sombras nítidas, na caliça do muro.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Q uem me contou esta história foi o senhor Tomé. Passo-lhe a palavra:

"O meu cão Farol era um portento. Um faro que só ele! Não há-de haver em todo o mundo e arredores um cão caçador que se lhe compare.

Felpa de coelho que ele cheirasse, num rasgo de urzes, era, daí a nada, mais um trangalhadanças preso ao meu cinto. Sim, eu é que dava o tiro, mas o mérito todo da caçada pertencia-lhe.

Às vezes, dava comigo a pensar se o caçador não seria ele... Bem vistas as coisas, o Farol é que me levava atrás, ele é que buscava, ele é que apanhava o rasto, ele é que corria, ele é que levantava a caça. E eu sempre atrás. Dar o tiro de remate não custava nada.

Quando eu via o coelho a fugir aos ziguezagues, gritava-lhe, a avisar:

– Pára, senão disparo.

Como nunca nenhum coelho parou ao meu mandado, tive sempre de cumprir o prometido. Sem falhar um.

O Farol trazia-mo, depois, na boca, a babar-se de riso, como quem me dá os parabéns pela pontaria, mas isso que importância tinha, comparado com o esforço dele? Fazia-lhe uma esfregada na peitaça, sinal e festa de agradecimento, que mais parecia pedido de desculpa por tirar-lhe o coelho dos dentes.

Estou convencido que, mesmo sem festas, o Farol me devolveria a caça. Ele era um mansarrão. Um companheirão. Um cão.

Envelheceu como eu envelheci. Já nos ia faltando genica para correr montados. Mas passei sempre as culpas para mim:

– Sabes, Farol, o teu dono está um pitosga. Não acerta nem numa perdiz no choco. Tremem-lhe as mãos. Tremem-lhe as pernas e já não troca as pantufas pelas botas de caçador.

Não era tanto assim, mas eu tinha de exagerar um bocado.

– Por este andar, amigo Farol, vais ter de arranjar outro dono que te leve à caça.

À maneira de resposta, o Farol poisava a cabeça nos meus joelhos, como se quisesse dizer que já não estava em idade de mudar de dono.

Na época da caça é que se enervava mais. Ouvia os outros latirem lá fora, mais os estampidos das caçadeiras.

Talvez ainda lhe chegasse às narinas o cheiro a medo, que vinha das luras, das moitas, do esconso das matas.

Nessas ocasiões, para entretê-lo, sabe o que é que eu fazia? Sombras chinesas, no muro do quintal:

– Olha o coelho, Farol. Busca! – gritava-lhe.

Ele saltava. A sombra robusta do cão caçador cobria a cabeça do coelho, que eu desenhara, à contraluz, com a habilidade das minhas mãos. Desde criança que eu não brincava a isto. Para o que me havia de dar, chegado a velho...

– Olha, agora, Farol, esta lebre. Corre!

E a lebre desaparecia, engolida pela sombra do Farol.

Dei-lhe as satisfações que podia. Só não estava na minha mão prolongar-lhe a vida..."

O senhor Tomé, no fim do contar, enxugou uma lágrima. Depois, ainda disse, enquanto fixava, tristemente, o muro do quintal, caiado, muito branco, à luz do sol:

– De consolação fica-me a memória do belo cão que ele foi.

A cabeça bonita de um cão perdigueiro recortou-se, então, em sombras nítidas, na caliça do muro.

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Pendente
PDF original
Pendente