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Ilustração de abertura da história «Zé do telhado».

8 de Agosto

Zé do telhado

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O Zé do Telhado é o meu gato preferido. E suponho que, para ele, também sou a pessoa preferida. Pois é: somos dois bons amigos.

Além de amigos, somos vizinhos. Ele mora uns metros acima da minha casa, no telhado do prédio, onde ocupo o último andar. Tem lugar privativo junto à chaminé que é o sítio mais quente.

Na Primavera, no Verão e no Outono, o telhado é para ele casa, jardim, passeio, miradoiro.

No Inverno, pede-me hospedagem. E, sempre que chove, vem fazer-me uma visitinha, como quem não quer a coisa. Tenho sempre um pratinho de fiambre para o receber.

Entra-me pela janela da trapeira .

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quando a janela não está aberta, tem maneira de chamar a atenção, raspando as unhas nos vidros da clarabóia, o que provoca um ruído fininho de arrepiar. Vou logo abrir-lhe a janela.

Ele anda na sua vida e eu na minha, mas gosta de saber-me em casa.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Nos dias em que sua excelência prefere o telhado, vai não vai passa rente à trapeira e, muito descaradamente, espreita para dentro. Se me vê, debruçado à secretária, a trabalhar, o Zé do Telhado descansa e segue telhas adiante.

Há dias, houve um grande desastre. Exactamente o que imaginam: o Zé do Telhado caiu do telhado ao pátio.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Altura de três andares, sem asa-delta. Nem pára-quedas. Um baque e tanto.

Andavam a arranjar as antenas de televisão. Rolos de fio, ferramentas e confusão a mais, em território de gato pouco dado a novidades. Ainda por cima vinham pôr um prato de antena parabólica, junto à chaminé. Que afronta!

O Zé do Telhado sobressaltou-se, indignou-se, desequilibrou-se e... foi parar ao rés-do-chão.

Dizem que os gatos têm sete bofes ou sete vidas. Mas só têm quatro patas. O Zé do Telhado partiu duas.

O veterinário onde o levei cuidou dele com todo o esmero e o Zé pouco se queixou.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Queixou-se, depois, já em minha casa, quando se viu com as patas presas a duas talas com ligaduras e proibido de saltar para o telhado. Janelas todas fechadas.

Mia, desesperado, pela casa toda. Gatos e mais gatos espreitam pelos vidros da janela da trapeira , à procura dele. Hão-de estranhar-lhe a falta.

Estamos em pleno Verão e eu não posso abrir as janelas. O calor é sufocante deste terceiro andar batido pelo sol e eu suo em bica. Mais vou suar até o Zé do Telhado ficar bom.

- Lá para o meio do Outono, tiro-lhe as talas - promete-me o veterinário.

Mas se ainda estamos em Agosto...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Zé do telhado
Ilustração original recuperada

O Zé do Telhado é o meu gato preferido. E suponho que, para ele, também sou a pessoa preferida. Pois é: somos dois bons amigos.

Além de amigos, somos vizinhos. Ele mora uns metros acima da minha casa, no telhado do prédio, onde ocupo o último andar. Tem lugar privativo junto à chaminé que é o sítio mais quente.

Na Primavera, no Verão e no Outono, o telhado é para ele casa, jardim, passeio, miradoiro.

No Inverno, pede-me hospedagem. E, sempre que chove, vem fazer-me uma visitinha, como quem não quer a coisa. Tenho sempre um pratinho de fiambre para o receber.

Entra-me pela janela da trapeira .

Quando a janela não está aberta, tem maneira de chamar a atenção, raspando as unhas nos vidros da clarabóia, o que provoca um ruído fininho de arrepiar. Vou logo abrir-lhe a janela.

Ele anda na sua vida e eu na minha, mas gosta de saber-me em casa.

Nos dias em que sua excelência prefere o telhado, vai não vai passa rente à trapeira e, muito descaradamente, espreita para dentro. Se me vê, debruçado à secretária, a trabalhar, o Zé do Telhado descansa e segue telhas adiante.

Há dias, houve um grande desastre. Exactamente o que imaginam: o Zé do Telhado caiu do telhado ao pátio.

Altura de três andares, sem asa-delta. Nem pára-quedas. Um baque e tanto.

Andavam a arranjar as antenas de televisão. Rolos de fio, ferramentas e confusão a mais, em território de gato pouco dado a novidades. Ainda por cima vinham pôr um prato de antena parabólica, junto à chaminé. Que afronta!

O Zé do Telhado sobressaltou-se, indignou-se, desequilibrou-se e... foi parar ao rés-do-chão.

Dizem que os gatos têm sete bofes ou sete vidas. Mas só têm quatro patas. O Zé do Telhado partiu duas.

O veterinário onde o levei cuidou dele com todo o esmero e o Zé pouco se queixou.

Queixou-se, depois, já em minha casa, quando se viu com as patas presas a duas talas com ligaduras e proibido de saltar para o telhado. Janelas todas fechadas.

Mia, desesperado, pela casa toda. Gatos e mais gatos espreitam pelos vidros da janela da trapeira , à procura dele. Hão-de estranhar-lhe a falta.

Estamos em pleno Verão e eu não posso abrir as janelas. O calor é sufocante deste terceiro andar batido pelo sol e eu suo em bica. Mais vou suar até o Zé do Telhado ficar bom.

- Lá para o meio do Outono, tiro-lhe as talas - promete-me o veterinário.

Mas se ainda estamos em Agosto...

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