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Ilustração de abertura da história «Gigante procura casa».

6 de Agosto

Gigante procura casa

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez um gigante que andava à procura de casa. Tarefa difícil.

Os gigantes, antigamente, moravam em castelos e, segundo contam histórias desses tempos, a sombra que a sua imensa altura projectava sobre os povoados aterrorizava as gentes. Dantes.

Este não era má pessoa. À primeira vista não parecia, quem o olhasse de baixo.

Mas, passada a primeira impressão, percebia-se que era um bom gigante.

Também tivera um castelo à sua medida. Dificuldades várias tinham levado o castelo à ruína. Chovia lá dentro, mesmo quando não chovia cá fora.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Problemas de canalizações ou do que fosse, o facto é que a morada dos antepassados do bom gigante foi vendida por tuta-e-meia e, depois de grandes obras de restauro, transformada numa estalagem de juventude.

Mas, como o bom gigante já não era novo, teve de ficar à porta.

Dormir ao relento é muito desconfortável, qualquer que seja o tamanho de quem se veja obrigado a tal experiência. Por isso o gigante pôs-se a procurar casa.

Como se começou por dizer, a tarefa era difícil. Hoje, ninguém constrói casas para gigantes.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Três assoalhadas, quatro assoalhadas ou pequenas moradias com um quintalinho, ainda se arranja. Mas um gigante precisa de mais espaço.

- Nem que andasse sempre de gatas conseguia viver em casas assim - lamentava-se o gigante.

Chegou a morar, um mês, numa casa, só por causa do corredor, que era muito comprido.

Para dormir, estendia-se no corredor, mas não podia dobrar as pernas. Uma grande contrariedade para quem, como era o caso dele e é o meu, gosta de dormir de lado, com as pernas encolhidas.

Alugou depois uma vivenda, que tinha garagem. Dormia na garagem e dispensava a casa.

Mas como a porta automática da garagem se abria, por qualquer movimento mais sacudido que fizesse durante o sono, apanhou um resfriamento e, muito constipado e desiludido, teve de desistir desta solução.

Mas porque é que ele não mandava construir uma casa à sua altura, como quem faz um fato no alfaiate, por medida? Isto qualquer um pode perguntar.

Ele que responda.

- Não tenho dinheiro que chegue - explicava, muito pesaroso. - Uma casa para um gigante não é uma casa qualquer. Exige muito tijolo, muito cimento, muito azulejo. Se eu não fosse tão comprido...

Um médico, que ele consultou, disse-lhe, meio a sério, meio a brincar:

- Isso resolve-se.

Corta-se um bocado. O difícil é a escolha. Ou as pernas ou a cabeça.

O gigante saiu do consultório, a correr. Nem pagou. Bem feito para o médico não se fazer de engraçado.

Ao fim de muitas voltas, alugou um armazém abandonado, à beira de um cais. Não tinha muitas comodidades, mas era avantajado como lhe convinha.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A renda também era avantajada, o que já não lhe convinha tanto.

Para poder pagar o aluguer do armazém, teve de procurar trabalho. Vá que vá que conseguiu arranjar emprego, sem grandes demoras. E perto de casa.

O bom gigante trabalha, agora, nos carregamentos e descarregamentos dos barcos acostados ao cais.

Faz as vezes de guindaste e dá muito boa conta do serviço. Um bocado cansativo, mas ele não se queixa.

A vida, hoje em dia, não está fácil para ninguém. Nem para os gigantes.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Gigante procura casa
Ilustração original recuperada

Era uma vez um gigante que andava à procura de casa. Tarefa difícil.

Os gigantes, antigamente, moravam em castelos e, segundo contam histórias desses tempos, a sombra que a sua imensa altura projectava sobre os povoados aterrorizava as gentes. Dantes.

Este não era má pessoa. À primeira vista não parecia, quem o olhasse de baixo.

Mas, passada a primeira impressão, percebia-se que era um bom gigante.

Também tivera um castelo à sua medida. Dificuldades várias tinham levado o castelo à ruína. Chovia lá dentro, mesmo quando não chovia cá fora.

Problemas de canalizações ou do que fosse, o facto é que a morada dos antepassados do bom gigante foi vendida por tuta-e-meia e, depois de grandes obras de restauro, transformada numa estalagem de juventude.

Mas, como o bom gigante já não era novo, teve de ficar à porta.

Dormir ao relento é muito desconfortável, qualquer que seja o tamanho de quem se veja obrigado a tal experiência. Por isso o gigante pôs-se a procurar casa.

Como se começou por dizer, a tarefa era difícil. Hoje, ninguém constrói casas para gigantes.

Três assoalhadas, quatro assoalhadas ou pequenas moradias com um quintalinho, ainda se arranja. Mas um gigante precisa de mais espaço.

- Nem que andasse sempre de gatas conseguia viver em casas assim - lamentava-se o gigante.

Chegou a morar, um mês, numa casa, só por causa do corredor, que era muito comprido.

Para dormir, estendia-se no corredor, mas não podia dobrar as pernas. Uma grande contrariedade para quem, como era o caso dele e é o meu, gosta de dormir de lado, com as pernas encolhidas.

Alugou depois uma vivenda, que tinha garagem. Dormia na garagem e dispensava a casa.

Mas como a porta automática da garagem se abria, por qualquer movimento mais sacudido que fizesse durante o sono, apanhou um resfriamento e, muito constipado e desiludido, teve de desistir desta solução.

Mas porque é que ele não mandava construir uma casa à sua altura, como quem faz um fato no alfaiate, por medida? Isto qualquer um pode perguntar.

Ele que responda.

- Não tenho dinheiro que chegue - explicava, muito pesaroso. - Uma casa para um gigante não é uma casa qualquer. Exige muito tijolo, muito cimento, muito azulejo. Se eu não fosse tão comprido...

Um médico, que ele consultou, disse-lhe, meio a sério, meio a brincar:

- Isso resolve-se.

Corta-se um bocado. O difícil é a escolha. Ou as pernas ou a cabeça.

O gigante saiu do consultório, a correr. Nem pagou. Bem feito para o médico não se fazer de engraçado.

Ao fim de muitas voltas, alugou um armazém abandonado, à beira de um cais. Não tinha muitas comodidades, mas era avantajado como lhe convinha.

A renda também era avantajada, o que já não lhe convinha tanto.

Para poder pagar o aluguer do armazém, teve de procurar trabalho. Vá que vá que conseguiu arranjar emprego, sem grandes demoras. E perto de casa.

O bom gigante trabalha, agora, nos carregamentos e descarregamentos dos barcos acostados ao cais.

Faz as vezes de guindaste e dá muito boa conta do serviço. Um bocado cansativo, mas ele não se queixa.

A vida, hoje em dia, não está fácil para ninguém. Nem para os gigantes.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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