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Ilustração de abertura da história «O castelo de areia».

30 de Julho

O castelo de areia

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma praia muito carregada de gente. Toldos e barracas de lona tapavam a vista do mar. Chapéus-de-sol, em cacho, uns sobre os outros, tapavam a vista do céu.

Para que um banhista, mesmo magrinho, conseguisse estender a toalha de banho sobre a areia, tinha de pedir "Com licença, com licença" aos vizinhos, para que se chegassem um pouco mais para o lado.

Então, toda a praia se movia, à esquerda e à direita, como uma onda e as pessoas, sucessivamente, diziam "Com licença, com licença", a pedirem espaço ao vizinho do lado, até nos dois extremos da praia os últimos banhistas gritarem: "Não apertem mais!" E estes últimos banhistas acabavam por ter de ficar em pé, de encontro à muralha.

- Quero fazer um castelo de areia - disse o menino, que tinha trazido para a praia um balde novo e uma pá e um ancinho.

- Só quando o teu pai for tomar banho - disse a mãe.

- Para que lado é que é a água? - perguntou o pai.

- Acho que é para ali - apontou a mãe.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Foi donde veio ainda agora aquele senhor, que está a limpar-se.

O pai, para ter a certeza, foi perguntar ao tal senhor:

- O mar estava bom?

- Não sei - respondeu o senhor, que esfregava furiosamente a cabeça com uma toalha. - Não encontrei mar nenhum.

Para me refrescar, tive de ir tomar duche a um balneário.

- Se fosse a ti não saía de ao pé de nós - disse a mãe do menino. - Vais e, depois nunca mais nos encontras, no meio de tanta gente.

- Então quando é que eu faço o castelo de areia? - perguntou o menino, já amuado.

- Descansa que eu vou já tomar banho - disse o pai.

- Para voltar, oriento-me pela cor do nosso chapéu-de-sol.

- Há milhares de chapéus-de-sol iguais - disse a mãe, mas o marido dela e pai do menino já ia longe.

Ia, todo satisfeito, a caminho do mar, embora só muito mais tarde viesse a descobrir, quando chegou à estrada, que se tinha enganado.

O menino pôs-se a construir o castelo de areia, cheio de entusiasmo. Depois de ter erguido o torreão e a primeira cintura de ameias, lembrou-se de pedir à mãe:

- Quero um gelado.

A mãe escusou-se, explicando-lhe que se ela fosse procurar a barraca dos gelados, ia ser muito difícil depois dar de novo com o sítio onde estavam.

Mas o menino insistiu tanto, que ela acedeu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

No bocado de areia deixado livre pela mãe, o menino acrescentou ao castelo uma segunda cintura de muralhas e um fosso todo à volta. Estava um trabalho perfeito e já com uma certa dimensão.

Passou que tempos.

- Estou cheio de fome - gritou o menino, sem tirar os olhos da sua construção, que já tinha preenchido todo o espaço disponível.

Um par de namorados, que estava estendido ao lado, condoeu-se daquele menino, que se perdera dos pais, e foi procurar o cabo-do-mar, para dar-lhe conta da ocorrência.

Os namorados partiram de mão dada, tendo a mãe da rapariga recomendado que não se demorassem.

Pois sim. A verdade é que se demoraram, tanto que a mãe da rapariga, muito enervada, resolveu ir à cata deles, pela praia fora.

A obra crescia a olhos vistos.

Era um imponente amuralhado com várias cercas e fossas, torres anexas e trincheiras defensivas, esculpidas com primor pelos dedos hábeis do menino, esquecido de tudo o mais à sua volta.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Preenchia uma importante extensão de terreno, que até parecia impossível que, no aperto de tanta gente, ainda houvesse um quadrado de areia disponível para um menino brincar tão à vontade.

Declinava o sol, quando o pai regressou, tiritando. Logo a seguir apareceu a mãe, com um gelado todo derretido.

Abraçaram-se, como se já tivessem perdido a esperança de voltarem a encontrar-se.

- Este dia correu muito mal - concordaram os pais.

Só o menino não era da mesma opinião.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O castelo de areia
Ilustração original recuperada

Era uma praia muito carregada de gente. Toldos e barracas de lona tapavam a vista do mar. Chapéus-de-sol, em cacho, uns sobre os outros, tapavam a vista do céu.

Para que um banhista, mesmo magrinho, conseguisse estender a toalha de banho sobre a areia, tinha de pedir "Com licença, com licença" aos vizinhos, para que se chegassem um pouco mais para o lado.

Então, toda a praia se movia, à esquerda e à direita, como uma onda e as pessoas, sucessivamente, diziam "Com licença, com licença", a pedirem espaço ao vizinho do lado, até nos dois extremos da praia os últimos banhistas gritarem: "Não apertem mais!" E estes últimos banhistas acabavam por ter de ficar em pé, de encontro à muralha.

- Quero fazer um castelo de areia - disse o menino, que tinha trazido para a praia um balde novo e uma pá e um ancinho.

- Só quando o teu pai for tomar banho - disse a mãe.

- Para que lado é que é a água? - perguntou o pai.

- Acho que é para ali - apontou a mãe.

- Foi donde veio ainda agora aquele senhor, que está a limpar-se.

O pai, para ter a certeza, foi perguntar ao tal senhor:

- O mar estava bom?

- Não sei - respondeu o senhor, que esfregava furiosamente a cabeça com uma toalha. - Não encontrei mar nenhum.

Para me refrescar, tive de ir tomar duche a um balneário.

- Se fosse a ti não saía de ao pé de nós - disse a mãe do menino. - Vais e, depois nunca mais nos encontras, no meio de tanta gente.

- Então quando é que eu faço o castelo de areia? - perguntou o menino, já amuado.

- Descansa que eu vou já tomar banho - disse o pai.

- Para voltar, oriento-me pela cor do nosso chapéu-de-sol.

- Há milhares de chapéus-de-sol iguais - disse a mãe, mas o marido dela e pai do menino já ia longe.

Ia, todo satisfeito, a caminho do mar, embora só muito mais tarde viesse a descobrir, quando chegou à estrada, que se tinha enganado.

O menino pôs-se a construir o castelo de areia, cheio de entusiasmo. Depois de ter erguido o torreão e a primeira cintura de ameias, lembrou-se de pedir à mãe:

- Quero um gelado.

A mãe escusou-se, explicando-lhe que se ela fosse procurar a barraca dos gelados, ia ser muito difícil depois dar de novo com o sítio onde estavam.

Mas o menino insistiu tanto, que ela acedeu.

No bocado de areia deixado livre pela mãe, o menino acrescentou ao castelo uma segunda cintura de muralhas e um fosso todo à volta. Estava um trabalho perfeito e já com uma certa dimensão.

Passou que tempos.

- Estou cheio de fome - gritou o menino, sem tirar os olhos da sua construção, que já tinha preenchido todo o espaço disponível.

Um par de namorados, que estava estendido ao lado, condoeu-se daquele menino, que se perdera dos pais, e foi procurar o cabo-do-mar, para dar-lhe conta da ocorrência.

Os namorados partiram de mão dada, tendo a mãe da rapariga recomendado que não se demorassem.

Pois sim. A verdade é que se demoraram, tanto que a mãe da rapariga, muito enervada, resolveu ir à cata deles, pela praia fora.

A obra crescia a olhos vistos.

Era um imponente amuralhado com várias cercas e fossas, torres anexas e trincheiras defensivas, esculpidas com primor pelos dedos hábeis do menino, esquecido de tudo o mais à sua volta.

Preenchia uma importante extensão de terreno, que até parecia impossível que, no aperto de tanta gente, ainda houvesse um quadrado de areia disponível para um menino brincar tão à vontade.

Declinava o sol, quando o pai regressou, tiritando. Logo a seguir apareceu a mãe, com um gelado todo derretido.

Abraçaram-se, como se já tivessem perdido a esperança de voltarem a encontrar-se.

- Este dia correu muito mal - concordaram os pais.

Só o menino não era da mesma opinião.

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