23 de Julho
Lindinho e Feião
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
A minha tia tem telemóvel, mas só para falar para o meu primo. É um telemóvel de sentido único.
– Lindinho, estás na piscina? Não vás para a água senão com o estômago vazio.
Ou:
– Lindinho, estás na praia? Não andes ao sol senão com chapéu.
Ou:
– Lindinho, estás na esplanada? Não te empanturres em gelados senão não jantas.
Tudo recomendações sensatas, a que o meu primo Arlindo ou Lindinho presta a atenção devida. O Arlindo sempre foi um rapazinho atilado e obediente, o que só lhe fica bem.
Tem um único defeito, que nem sei se defeito será. É muito esquecido.
À conta deste senão, perdeu, há dias, o telemóvel. Deixou-o na areia da praia.
Um velho pescador, desses que já não pescam, mas nunca se desapegam do mar, descobriu o telemóvel, no preciso instante em que ele se pôs a tocar. Automaticamente, atendeu e ouviu:
– Lindinho, estás na praia? Toma cuidado e não andes ao sol senão com chapéu...
O pescador, a quem nunca ninguém o tratara por lindinho, levou a mão à testa descoberta e curtida de muitos sóis e fez um ar de grande espanto.
– Lindinho, estás a ouvir-me? – prosseguia a minha tia. – Não vás para a água senão com o estômago vazio.
Com esta é que o velho pescador não contava. Tinha mesmo de responder:
– Ó minha senhora, não têm conta as vezes que eu me fiz ao mar de estômago vazio...
– Quem está aí? – estranhou a minha tia. – Não é o Lindinho?
– Lindinho, minha senhora, só se fosse para a minha mãe, que Deus lá tenha em descanso.
– Então com quem é que eu estou a falar?
– Com o Zé da Felismina, também conhecido por Feião pela minha gente do bairro dos pescadores.
Alarmou-se a minha tia:
– E o meu filho? Onde pára o meu Lindinho?
O Zé pescador tranquilizou-a e palavras depois tudo estava esclarecido. Ele próprio se encarregou de ir levar o telemóvel do meu primo à casa de férias dos meus tios.
Este desencontro de vozes deu, afinal, oportunidade a que Lindinho e Feião se encontrassem e conhecessem.
O velho pescador conta ao meu primo peripécias da sua antiga vida de homem do mar e anda, agora, a ensiná-lo a pregar o isco ao anzol e a lançar a linha. O meu primo Arlindo até já pescou um robalito.
Assim se desenvolveu uma grande amizade.
Os telemóveis são, realmente, uma grande invenção.
António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.
A minha tia tem telemóvel, mas só para falar para o meu primo. É um telemóvel de sentido único.
– Lindinho, estás na piscina? Não vás para a água senão com o estômago vazio.
Ou:
– Lindinho, estás na praia? Não andes ao sol senão com chapéu.
Ou:
– Lindinho, estás na esplanada? Não te empanturres em gelados senão não jantas.
Tudo recomendações sensatas, a que o meu primo Arlindo ou Lindinho presta a atenção devida. O Arlindo sempre foi um rapazinho atilado e obediente, o que só lhe fica bem.
Tem um único defeito, que nem sei se defeito será. É muito esquecido.
À conta deste senão, perdeu, há dias, o telemóvel. Deixou-o na areia da praia.
Um velho pescador, desses que já não pescam, mas nunca se desapegam do mar, descobriu o telemóvel, no preciso instante em que ele se pôs a tocar. Automaticamente, atendeu e ouviu:
– Lindinho, estás na praia? Toma cuidado e não andes ao sol senão com chapéu...
O pescador, a quem nunca ninguém o tratara por lindinho, levou a mão à testa descoberta e curtida de muitos sóis e fez um ar de grande espanto.
– Lindinho, estás a ouvir-me? – prosseguia a minha tia. – Não vás para a água senão com o estômago vazio.
Com esta é que o velho pescador não contava. Tinha mesmo de responder:
– Ó minha senhora, não têm conta as vezes que eu me fiz ao mar de estômago vazio...
– Quem está aí? – estranhou a minha tia. – Não é o Lindinho?
– Lindinho, minha senhora, só se fosse para a minha mãe, que Deus lá tenha em descanso.
– Então com quem é que eu estou a falar?
– Com o Zé da Felismina, também conhecido por Feião pela minha gente do bairro dos pescadores.
Alarmou-se a minha tia:
– E o meu filho? Onde pára o meu Lindinho?
O Zé pescador tranquilizou-a e palavras depois tudo estava esclarecido. Ele próprio se encarregou de ir levar o telemóvel do meu primo à casa de férias dos meus tios.
Este desencontro de vozes deu, afinal, oportunidade a que Lindinho e Feião se encontrassem e conhecessem.
O velho pescador conta ao meu primo peripécias da sua antiga vida de homem do mar e anda, agora, a ensiná-lo a pregar o isco ao anzol e a lançar a linha. O meu primo Arlindo até já pescou um robalito.
Assim se desenvolveu uma grande amizade.
Os telemóveis são, realmente, uma grande invenção.
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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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Brincar
Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.
Recuperação
Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.
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