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Ilustração de abertura da história «O Toino Distraído».

10 de Julho

O Toino Distraído

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O Toino era muito distraído.

A mãe, quando ele saía para a escola, cobria-o de recomendações:

– Cuidado ao atravessares a rua, Toino. Olha para a esquerda e olha para a direita, vê se não vem nenhum carro e só depois é que atravessas. E sempre nas passagens zebradas.

– Sim, mãe – dizia o Toino, mas a pensar noutra coisa.

– E toma cuidado onde pões os pés. E não tropeces. E mantém sempre os atacadores apertados.

– Sim, mãe – dizia o Toino.

– E não converses com desconhecidos. E cumprimenta sempre os conhecidos. E porta-te bem.

– Sim, mãe – dizia o Toino.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Se estivéssemos com atenção, quase que podíamos ver as falas da mãe entrarem em fila por um ouvido e saírem pelo outro, na mesma enfiada certinha. Aquilo em que o Toino estava a pensar é que já não se podia ver, porque a cabeça das pessoas não é tão transparente como um aquário. Nem convinha que fosse.

O Toino atravessava a rua, ao calhas. Guinchavam automóveis, em travagens assustadoras. Automobilistas barafustavam:

– Assim não vais longe, palerma.

Ele nem reparava. A olhar para o ar, escorregava em cascas de fruta (quando não era coisa pior...), tropeçava em caixas, à porta de lojas, e os atacadores mal apertados, num instante se desapertavam. Ele, indiferente.

– Bom dia – cumprimenta o Toino.

Por sinal que era um desconhecido. Em contrapartida, uma pessoa conhecida falava-lhe:

– Olá Toino, como estás?

E ele, nada.

Não era por má-criação. Era por distracção.

Só numa coisa correspondia à risca aos preceitos da mãe. O Toino não se portava mal. Não era um gandulo travesso que porfiasse em cometer ruindades. Lá isso, não. O Toino era bom rapaz. Muito distraído, mas bom rapazinho.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Mais pena me fez quando soube que tinha sido atropelado. Atravessou sem cautelas e um automóvel tropeçou nele. O Toino foi parar ao hospital.

Estive lá, ontem, a vê-lo. Todo ligado e engessado, o Toino vai ter muito tempo para pensar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Depois da visita, a mãe dele saiu comigo. Estava muito abalada, como se imagina. E um pouco intrigada, também.

A senhora, à porta do hospital, confidenciou-me:

– O meu filho, com o desastre, ficou meio azamboado. Calcule que, à despedida me recomendou: "A mãe tome cuidado onde tropece. Antes de atravessar a rua, cumprimente sempre para a direita e para a esquerda e veja se não vem nenhum desconhecido. Só atravesse nas passagens com atacadores apertados."

Efeito do choque. Mas há-de recompor-se. Estou mesmo convencido de que o Toino, ultrapassada esta balbúrdia de ideias em salada, vai ficar outro, capaz até de passar a ser ele a dar bons conselhos à mãe, quando ela descer à rua:

– Cuidado ao atravessares, mãe. Olha para a esquerda e para a direita, vê se não vem nenhum carro e só depois é que atravessas. Etc. Etc. E porta-te bem, mãe. Porta-te bem.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Acredito que a senhora vá cumprir às riscas as recomendações do filho.

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original recuperada para O Toino Distraído
Ilustração original recuperada

O Toino era muito distraído.

A mãe, quando ele saía para a escola, cobria-o de recomendações:

– Cuidado ao atravessares a rua, Toino. Olha para a esquerda e olha para a direita, vê se não vem nenhum carro e só depois é que atravessas. E sempre nas passagens zebradas.

– Sim, mãe – dizia o Toino, mas a pensar noutra coisa.

– E toma cuidado onde pões os pés. E não tropeces. E mantém sempre os atacadores apertados.

– Sim, mãe – dizia o Toino.

– E não converses com desconhecidos. E cumprimenta sempre os conhecidos. E porta-te bem.

– Sim, mãe – dizia o Toino.

Se estivéssemos com atenção, quase que podíamos ver as falas da mãe entrarem em fila por um ouvido e saírem pelo outro, na mesma enfiada certinha. Aquilo em que o Toino estava a pensar é que já não se podia ver, porque a cabeça das pessoas não é tão transparente como um aquário. Nem convinha que fosse.

O Toino atravessava a rua, ao calhas. Guinchavam automóveis, em travagens assustadoras. Automobilistas barafustavam:

– Assim não vais longe, palerma.

Ele nem reparava. A olhar para o ar, escorregava em cascas de fruta (quando não era coisa pior...), tropeçava em caixas, à porta de lojas, e os atacadores mal apertados, num instante se desapertavam. Ele, indiferente.

– Bom dia – cumprimenta o Toino.

Por sinal que era um desconhecido. Em contrapartida, uma pessoa conhecida falava-lhe:

– Olá Toino, como estás?

E ele, nada.

Não era por má-criação. Era por distracção.

Só numa coisa correspondia à risca aos preceitos da mãe. O Toino não se portava mal. Não era um gandulo travesso que porfiasse em cometer ruindades. Lá isso, não. O Toino era bom rapaz. Muito distraído, mas bom rapazinho.

Mais pena me fez quando soube que tinha sido atropelado. Atravessou sem cautelas e um automóvel tropeçou nele. O Toino foi parar ao hospital.

Estive lá, ontem, a vê-lo. Todo ligado e engessado, o Toino vai ter muito tempo para pensar.

Depois da visita, a mãe dele saiu comigo. Estava muito abalada, como se imagina. E um pouco intrigada, também.

A senhora, à porta do hospital, confidenciou-me:

– O meu filho, com o desastre, ficou meio azamboado. Calcule que, à despedida me recomendou: "A mãe tome cuidado onde tropece. Antes de atravessar a rua, cumprimente sempre para a direita e para a esquerda e veja se não vem nenhum desconhecido. Só atravesse nas passagens com atacadores apertados."

Efeito do choque. Mas há-de recompor-se. Estou mesmo convencido de que o Toino, ultrapassada esta balbúrdia de ideias em salada, vai ficar outro, capaz até de passar a ser ele a dar bons conselhos à mãe, quando ela descer à rua:

– Cuidado ao atravessares, mãe. Olha para a esquerda e para a direita, vê se não vem nenhum carro e só depois é que atravessas. Etc. Etc. E porta-te bem, mãe. Porta-te bem.

Acredito que a senhora vá cumprir às riscas as recomendações do filho.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

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