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Ilustração de abertura da história «O rato modesto e o pardal optimista».

8 de Julho

O rato modesto e o pardal optimista

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez um rato que todos os dias ia comer a um restaurante. Bom. Onde ele comia era no contentor do lixo do restaurante, o que não é bem a mesma coisa...

Quem também lá aparecia quase sempre, à cata de acepipes, era um pardal saltitante e optimista .

Às vezes, um homem, pobre e velho, também se abastecia no caixote, à procura de folhas de couve e cascas de fruta, para alimentar dois coelhos de estimação, que não eram esquisitos de boca.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Assim que o homem chegava, o pardal voava e o rato fugia, mas não voavam nem fugiam para muito longe, porque o caixote, ao fim e ao cabo, chegava para todos.

E a história podia ficar por aqui, se nós não soubéssemos que o restaurante teve de fechar, por falta de clientes. Não os do contentor, já se vê...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- A casa vai mudar de ramo - informou o pardal, que sabia sempre as últimas.

- "Mudar de ramo"? Então as lojas também voam de árvore em árvore? - perguntou o rato, que sabia muito pouco.

- Não me faça rir, senhor rato - e o pardal riu-se. - Mudar de ramo quer dizer mudar de actividade.

Em vez de um restaurante, vão lá pôr uma loja de ferragens.

- Talvez também tenha um bom contentor - lembrou o rato.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Na loja de ferragens há martelos, serras, pregos, parafusos, chaves, fechaduras e... armadilhas para pardais e ratoeiras para ratos...

- Que horror!

- arrepiou-se o rato. - Assim vamos morrer de fome.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Eu não conto morrer de fome.

- Então o que é que vai fazer?

- Também vou mudar de ramo, isto é, vou voar para outra árvore, que fique perto de outro restaurante.

Quem nos pode dar uma ajuda é esse homem que aí vem, à procura de folhas e de cascas.

- O quê? Ele tem um restaurante? - estranhou o rato.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - O que ele tem é muita prática de contentores. Se formos atrás dele, havemos de encontrar um que nos agrade.

Assim fizeram.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um pelo ar e o outro pelo chão, seguiram disfarçadamente o homem. E muito se admiraram que a cidade fosse tão grande, os contentores tão abundantes e os restaurantes em tão grande número.

- E não vão todos, de um dia para o outro, transformar-se em lojas de ferragens? - perguntava o ingénuo do rato.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Até que o meu amigo se veja obrigado a comer limalha de ferro e rolos de arame, ainda há-de saborear muita paparoca gostosa. Não pense em desgraças e aproveite o que há, enquanto há.

Este pardal era, realmente, um optimista .

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O rato modesto e o pardal optimista
Ilustração original recuperada

Era uma vez um rato que todos os dias ia comer a um restaurante. Bom. Onde ele comia era no contentor do lixo do restaurante, o que não é bem a mesma coisa...

Quem também lá aparecia quase sempre, à cata de acepipes, era um pardal saltitante e optimista .

Às vezes, um homem, pobre e velho, também se abastecia no caixote, à procura de folhas de couve e cascas de fruta, para alimentar dois coelhos de estimação, que não eram esquisitos de boca.

Assim que o homem chegava, o pardal voava e o rato fugia, mas não voavam nem fugiam para muito longe, porque o caixote, ao fim e ao cabo, chegava para todos.

E a história podia ficar por aqui, se nós não soubéssemos que o restaurante teve de fechar, por falta de clientes. Não os do contentor, já se vê...

- A casa vai mudar de ramo - informou o pardal, que sabia sempre as últimas.

- "Mudar de ramo"? Então as lojas também voam de árvore em árvore? - perguntou o rato, que sabia muito pouco.

- Não me faça rir, senhor rato - e o pardal riu-se. - Mudar de ramo quer dizer mudar de actividade.

Em vez de um restaurante, vão lá pôr uma loja de ferragens.

- Talvez também tenha um bom contentor - lembrou o rato.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Na loja de ferragens há martelos, serras, pregos, parafusos, chaves, fechaduras e... armadilhas para pardais e ratoeiras para ratos...

- Que horror!

- arrepiou-se o rato. - Assim vamos morrer de fome.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Eu não conto morrer de fome.

- Então o que é que vai fazer?

- Também vou mudar de ramo, isto é, vou voar para outra árvore, que fique perto de outro restaurante.

Quem nos pode dar uma ajuda é esse homem que aí vem, à procura de folhas e de cascas.

- O quê? Ele tem um restaurante? - estranhou o rato.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - O que ele tem é muita prática de contentores. Se formos atrás dele, havemos de encontrar um que nos agrade.

Assim fizeram.

Um pelo ar e o outro pelo chão, seguiram disfarçadamente o homem. E muito se admiraram que a cidade fosse tão grande, os contentores tão abundantes e os restaurantes em tão grande número.

- E não vão todos, de um dia para o outro, transformar-se em lojas de ferragens? - perguntava o ingénuo do rato.

- Não me faça rir - e o pardal riu-se. - Até que o meu amigo se veja obrigado a comer limalha de ferro e rolos de arame, ainda há-de saborear muita paparoca gostosa. Não pense em desgraças e aproveite o que há, enquanto há.

Este pardal era, realmente, um optimista .

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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