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Ilustração de abertura da história «Duas luas».

6 de Julho

Duas luas

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O senhor Túlio foi ao Brasil de avião. Ele que nunca tinha saído lá da sua aldeia, aventurar-se a uma viagem tamanha era de espantar. Mas o senhor Túlio tinha uma filha no Rio de Janeiro, filha essa que lhe dera uma neta, neta essa que ia a baptizar, baptizado esse a que o senhor Túlio nem por nada podia faltar.

Na grande cidade do Rio de Janeiro, tudo o espantou: o tamanho dos prédios, a largueza das avenidas, a extensão das praias, a bicheza de gente.

- É tudo maior do que na minha terra - dizia ele, constantemente. - Até a Lua daqui é mais grada do que a nossa.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A filha indignava-se:

- Ó pai, não ande sempre de boca aberta que parece mal e, por favor, não diga que esta Lua é maior do que a lá da aldeia, porque a Lua é só uma.

O senhor Túlio engolia e calava-se, mas, à cautela, pôs-se a medir aos palmos, de longe, a Lua Cheia sobre o Pão de Açúcar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

"Um palmo bem medido", memorizou ele.

Quando, com muita pena, teve de voltar para Portugal e regressou à aldeia, não se esqueceu do que matutara. Numa noite de Lua bem redonda, estendeu a palma da mão para o céu e mediu:

- Um palmo e nem mais um niquito.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ficou-se a pensar e concluiu:

- Ai que tu engordaste, magana, enquanto eu andei lá por fora!

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Duas luas
Ilustração original recuperada

O senhor Túlio foi ao Brasil de avião. Ele que nunca tinha saído lá da sua aldeia, aventurar-se a uma viagem tamanha era de espantar. Mas o senhor Túlio tinha uma filha no Rio de Janeiro, filha essa que lhe dera uma neta, neta essa que ia a baptizar, baptizado esse a que o senhor Túlio nem por nada podia faltar.

Na grande cidade do Rio de Janeiro, tudo o espantou: o tamanho dos prédios, a largueza das avenidas, a extensão das praias, a bicheza de gente.

- É tudo maior do que na minha terra - dizia ele, constantemente. - Até a Lua daqui é mais grada do que a nossa.

A filha indignava-se:

- Ó pai, não ande sempre de boca aberta que parece mal e, por favor, não diga que esta Lua é maior do que a lá da aldeia, porque a Lua é só uma.

O senhor Túlio engolia e calava-se, mas, à cautela, pôs-se a medir aos palmos, de longe, a Lua Cheia sobre o Pão de Açúcar.

"Um palmo bem medido", memorizou ele.

Quando, com muita pena, teve de voltar para Portugal e regressou à aldeia, não se esqueceu do que matutara. Numa noite de Lua bem redonda, estendeu a palma da mão para o céu e mediu:

- Um palmo e nem mais um niquito.

Ficou-se a pensar e concluiu:

- Ai que tu engordaste, magana, enquanto eu andei lá por fora!

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