• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «Viva o Natério».

28 de Junho

Viva o Natério

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Lá na aldeia todos sabiam que ele era ladrão, mas tinham-lhe medo.

Diziam que ele assaltava viajantes, noite alta. Também contavam de assaltos a casas dos povoados próximos, estivessem lá moradores ou não. E era cruel, rancoroso, arrebatado, perverso. Um tojo, um cardo de malvadez.

A gente pacífica da aldeia não descortinava maneira de ver-se livre do malfeitor. No tempo em que esta história aconteceu, não havia polícia senão nas cidades maiores. Os caminhos para lá chegar eram demorados e pouco seguros.

Por isso, sem autoridades que lhes valessem, os aldeãos viviam em perpétuo terror.

Até que, um dia, o Natério, um dez-réis de gente, mas muito vivaço e destemido, resolveu dar a volta à história. Naquele estado de pavor geral é que as coisas não podiam continuar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Antes de o ladrão ir ter à casa onde se acoitava, costumava passar por perto de um poço da aldeia. Quando lhe adivinhavam a sombra, as mulheres que vinham buscar água fugiam e até bilhas e celhas deixavam na borda.

Desta vez, o malfeitor encontrou um rapaz, que chorava baba e ranho, à beira do poço. Era o Natério.

Não que se impressionasse com as lágrimas, mas por curiosidade, o ladrão perguntou qual a razão da choradeira.

– Trazia uma pesada taça de prata, que a minha mãe tinha areado, a mando do senhor padre...

– Era pesada a taça, disseste tu? – interessou-se o maganão, de olhos a luzir.

O rapaz fez que sim e continuou o seu relato:

– Debrucei-me para o poço, à caça de uma lagartixa, e a taça caiu-me lá dentro. Uma desgraça! O que é que eu vou dizer à minha mãe? E ao senhor prior?

Como se temesse as respostas, o rapaz voltou ao berreiro.

– Deixa estar que eles escusam de saber – disse o ladrão, escarranchado no bordo do poço. – Eu trago-te a taça, não tarda.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Enfiou pelo poço abaixo, que era fundo e estava menos de meio.

– Não encontro a taça – dizia ele.

A voz ecoava na abóbada do poço. Era assustadora.

– Procure o senhor do seu lado direito, que ela caiu mais para esse lado.

O ladrão, que se segurava por uma corda presa à cintura, desceu mais um tanto, agarrado às paredes do poço. Valente era ele.

– Ainda não achei – dizia.

– Mas achámo-lo nós – gritou-lhe de cima o Natério.

Dos pinhais ao redor romperam mulheres e homens, à chamada do rapaz. Agarraram todos uma enorme pedra e puseram-na a tapar a boca do poço. O bandido gritou, mas de nada lhe valeu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Já outros da aldeia tinham ido à cidade chamar a guarda. Dias depois, foi removida a pedra e o ladrão saiu a praguejar da armadilha que lhe tinham pregado. Chegando ao cimo, calou-se. Tinha guarda de honra à espera, uma fieira de canos de espingarda apontada para ele.

Os guardas levaram-no e nunca mais se soube do brutamontes.

O poço ganhou nome. Passou a ser conhecido pelo poço do Natério. E se, um dia, andarem por terras monfortinhas, a caminho de Castelo Branco, talvez ainda haja quem saiba dizer onde fica.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original recuperada para Viva o Natério
Ilustração original recuperada

Lá na aldeia todos sabiam que ele era ladrão, mas tinham-lhe medo.

Diziam que ele assaltava viajantes, noite alta. Também contavam de assaltos a casas dos povoados próximos, estivessem lá moradores ou não. E era cruel, rancoroso, arrebatado, perverso. Um tojo, um cardo de malvadez.

A gente pacífica da aldeia não descortinava maneira de ver-se livre do malfeitor. No tempo em que esta história aconteceu, não havia polícia senão nas cidades maiores. Os caminhos para lá chegar eram demorados e pouco seguros.

Por isso, sem autoridades que lhes valessem, os aldeãos viviam em perpétuo terror.

Até que, um dia, o Natério, um dez-réis de gente, mas muito vivaço e destemido, resolveu dar a volta à história. Naquele estado de pavor geral é que as coisas não podiam continuar.

Antes de o ladrão ir ter à casa onde se acoitava, costumava passar por perto de um poço da aldeia. Quando lhe adivinhavam a sombra, as mulheres que vinham buscar água fugiam e até bilhas e celhas deixavam na borda.

Desta vez, o malfeitor encontrou um rapaz, que chorava baba e ranho, à beira do poço. Era o Natério.

Não que se impressionasse com as lágrimas, mas por curiosidade, o ladrão perguntou qual a razão da choradeira.

– Trazia uma pesada taça de prata, que a minha mãe tinha areado, a mando do senhor padre...

– Era pesada a taça, disseste tu? – interessou-se o maganão, de olhos a luzir.

O rapaz fez que sim e continuou o seu relato:

– Debrucei-me para o poço, à caça de uma lagartixa, e a taça caiu-me lá dentro. Uma desgraça! O que é que eu vou dizer à minha mãe? E ao senhor prior?

Como se temesse as respostas, o rapaz voltou ao berreiro.

– Deixa estar que eles escusam de saber – disse o ladrão, escarranchado no bordo do poço. – Eu trago-te a taça, não tarda.

Enfiou pelo poço abaixo, que era fundo e estava menos de meio.

– Não encontro a taça – dizia ele.

A voz ecoava na abóbada do poço. Era assustadora.

– Procure o senhor do seu lado direito, que ela caiu mais para esse lado.

O ladrão, que se segurava por uma corda presa à cintura, desceu mais um tanto, agarrado às paredes do poço. Valente era ele.

– Ainda não achei – dizia.

– Mas achámo-lo nós – gritou-lhe de cima o Natério.

Dos pinhais ao redor romperam mulheres e homens, à chamada do rapaz. Agarraram todos uma enorme pedra e puseram-na a tapar a boca do poço. O bandido gritou, mas de nada lhe valeu.

Já outros da aldeia tinham ido à cidade chamar a guarda. Dias depois, foi removida a pedra e o ladrão saiu a praguejar da armadilha que lhe tinham pregado. Chegando ao cimo, calou-se. Tinha guarda de honra à espera, uma fieira de canos de espingarda apontada para ele.

Os guardas levaram-no e nunca mais se soube do brutamontes.

O poço ganhou nome. Passou a ser conhecido pelo poço do Natério. E se, um dia, andarem por terras monfortinhas, a caminho de Castelo Branco, talvez ainda haja quem saiba dizer onde fica.

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Pendente
PDF original
Pendente