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Ilustração de abertura da história «Aqui não volto».

25 de Junho

Aqui não volto

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Quando entrei no hotel, estava uma senhora muito gorda à entrada, que me olhou com curiosidade. Devolvi-lhe o olhar, enquanto tirava a mala do carro, e esbocei um sorriso de cumprimento. Talvez nos conhecêssemos de algum lugar.

A senhora devolveu-me o sorriso e ficámos quites.

Junto à recepção, estavam dois senhores muito gordos à conversa. Suspenderam as falas, quando me viram entrar. Cumprimentei-os, eles cumprimentaram-me e também ficámos quites, isto é, empatados nos cumprimentos.

A caminho do quarto que tinha reservado, passei por diversos senhores e senhoras, todos bastante nutridos , que incidiam sobre mim pesados olhares de interrogação. Comecei a não sentir-me à vontade. Que desconforto. O que é que eu teria que chamasse tanto à atenção?

Ao passar por um espelho de um dos salões do hotel, mirei-me, para me certificar se estava compostinho. Podia por distracção estar desabotoado ou trazer uma serpentina presa a um sapato...

Isto da serpentina tem razão de ser.

Uma vez, terei pisado uma pastilha elástica que se agarrou ao resto de uma serpentina, deixada no passeio (estava-se em período carnavalesco) e eu entrei numa cerimónia muito grave e distinta com um resto de serpentina atrás de mim.

Quando, pelos olhares de reprovação à minha volta, dei por mim, tentei desembaraçar-me da longa e comprometedora fita de papel presa a um dos pés, mas com tanto azar que perdi o equilíbrio, logo na ocasião em que se dirigia a mim, para cumprimentar-me, o presidente da cerimónia.

Caí-lhe nos braços, para grande surpresa do senhor, que não esperava tal efusão da minha parte e, quando ele se virou, vi que, sem querer, lhe tinha prendido a pastilha elástica e a serpentina às costas. Que desastre. Nem me quero lembrar, que me arrepio todo.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Desta feita não havia nenhuma serpentina que chamasse a atenção sobre mim.

Então, do que seria?

A caminho do almoço, voltei a passar por senhoras e senhores, alguns gordíssimos, metidos em fatos de treino do tamanho extra, e outros apenas gordos, mas que ao lado dos mais volumosos quase pareciam elegantes.

Todos me observavam de alto a baixo, com uma indiscrição quase afrontosa.

Comecei a sentir-me incomodado.

No restaurante do hotel, era o único comensal. Mesas todas vazias, cada uma com uma jarrinha florida ao meio, e quatro cadeiras de espaldar alto à volta.

Ao ocupar uma delas, sob a vigilância dos criados perfilados, perguntei ao chefe, que acorrera a empurrar-me a cadeira:

- Cheguei cedo demais para o almoço?

- Não. Nada. Perfeitamente - enquanto me estendia o menu.

- Então cheguei tarde?

- Não. Nada.

Perfeitamente - repetiu, puxando de um bloco de notas, para assentar a encomenda.

Eu é que não desistia:

- E os outros hóspedes?

- Comem na piscina - esclareceu o chefe de mesa, com um sorrizinho de condescendência.

Estranhei.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quem se mete na água, seja em piscina, seja no mar, só deve fazê-lo depois de feita a digestão. É uma regra de ouro.

Como não tencionava ir nadar, comi bem e fartamente. Caldeirada, cabrito assado e bolo de bolacha. Desculpem se arrotei.

Felizmente que a comida não me pesa.

Digiro bem, desgasto muito e continuo tão magro como na minha adolescência. Na escola chamavam-me o "Chico Fininho", menos por ser Francisco de nome do que seco de carnes.

Para desmoer, fui dar um passeio até à piscina do hotel. O espectáculo que se me deparou, nunca o esquecerei.

A piscina até era grandinha, mas transbordava, inundando o relvado à volta. Pudera. Cheia de gordos, gordinhos e gordíssimos que tentavam nadar, sem se empurrarem uns aos outros... A piscina era um festival de barrigas.

As senhoras e os senhores pararam de esbracejar, quando me viram. Senti-me nu, eu que era o único mais vestido de todos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

E fugi, fugi, em direcção à recepção, para perguntar ao recepcionista, razoavelmente gordinho, o que se passava.

- Há algum congresso no hotel de pesos pesados?

Finalmente, fui esclarecido.

O hotel, na época baixa, a menos frequentada por turistas, promovia uns programas de emagrecimento, para quem necessitasse de derreter uns quilos.

Constava o programa de exercícios físicos, rigorosa dieta, saladinhas e sumos de fruta e repouso e concursos semanais, com prémios de bolinhos secos e bolachas dietéticas, para os que mais se tivessem esforçado e adelgaçado.

Agora, eu compreendia o olhar que me deitavam.

Era de inveja, de profunda e desabrida inveja, por saberem que o "Chico Fininho" não tinha de sujeitar-se a estas torturas da fome.

Aterrorizado, pedi a conta e saí do hotel nesse mesmo dia.

Tenho de começar a ponderar melhor o que e quanto e quando como. À cautela. É que, ontem, precisei de atrasar um furo à fivela do meu cinto.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Devo estar a ganhar barriga. Ou terá sido mau olhado, lançado pelos hóspedes do hotel?

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Aqui não volto
Ilustração original recuperada

Quando entrei no hotel, estava uma senhora muito gorda à entrada, que me olhou com curiosidade. Devolvi-lhe o olhar, enquanto tirava a mala do carro, e esbocei um sorriso de cumprimento. Talvez nos conhecêssemos de algum lugar.

A senhora devolveu-me o sorriso e ficámos quites.

Junto à recepção, estavam dois senhores muito gordos à conversa. Suspenderam as falas, quando me viram entrar. Cumprimentei-os, eles cumprimentaram-me e também ficámos quites, isto é, empatados nos cumprimentos.

A caminho do quarto que tinha reservado, passei por diversos senhores e senhoras, todos bastante nutridos , que incidiam sobre mim pesados olhares de interrogação. Comecei a não sentir-me à vontade. Que desconforto. O que é que eu teria que chamasse tanto à atenção?

Ao passar por um espelho de um dos salões do hotel, mirei-me, para me certificar se estava compostinho. Podia por distracção estar desabotoado ou trazer uma serpentina presa a um sapato...

Isto da serpentina tem razão de ser.

Uma vez, terei pisado uma pastilha elástica que se agarrou ao resto de uma serpentina, deixada no passeio (estava-se em período carnavalesco) e eu entrei numa cerimónia muito grave e distinta com um resto de serpentina atrás de mim.

Quando, pelos olhares de reprovação à minha volta, dei por mim, tentei desembaraçar-me da longa e comprometedora fita de papel presa a um dos pés, mas com tanto azar que perdi o equilíbrio, logo na ocasião em que se dirigia a mim, para cumprimentar-me, o presidente da cerimónia.

Caí-lhe nos braços, para grande surpresa do senhor, que não esperava tal efusão da minha parte e, quando ele se virou, vi que, sem querer, lhe tinha prendido a pastilha elástica e a serpentina às costas. Que desastre. Nem me quero lembrar, que me arrepio todo.

Desta feita não havia nenhuma serpentina que chamasse a atenção sobre mim.

Então, do que seria?

A caminho do almoço, voltei a passar por senhoras e senhores, alguns gordíssimos, metidos em fatos de treino do tamanho extra, e outros apenas gordos, mas que ao lado dos mais volumosos quase pareciam elegantes.

Todos me observavam de alto a baixo, com uma indiscrição quase afrontosa.

Comecei a sentir-me incomodado.

No restaurante do hotel, era o único comensal. Mesas todas vazias, cada uma com uma jarrinha florida ao meio, e quatro cadeiras de espaldar alto à volta.

Ao ocupar uma delas, sob a vigilância dos criados perfilados, perguntei ao chefe, que acorrera a empurrar-me a cadeira:

- Cheguei cedo demais para o almoço?

- Não. Nada. Perfeitamente - enquanto me estendia o menu.

- Então cheguei tarde?

- Não. Nada.

Perfeitamente - repetiu, puxando de um bloco de notas, para assentar a encomenda.

Eu é que não desistia:

- E os outros hóspedes?

- Comem na piscina - esclareceu o chefe de mesa, com um sorrizinho de condescendência.

Estranhei.

Quem se mete na água, seja em piscina, seja no mar, só deve fazê-lo depois de feita a digestão. É uma regra de ouro.

Como não tencionava ir nadar, comi bem e fartamente. Caldeirada, cabrito assado e bolo de bolacha. Desculpem se arrotei.

Felizmente que a comida não me pesa.

Digiro bem, desgasto muito e continuo tão magro como na minha adolescência. Na escola chamavam-me o "Chico Fininho", menos por ser Francisco de nome do que seco de carnes.

Para desmoer, fui dar um passeio até à piscina do hotel. O espectáculo que se me deparou, nunca o esquecerei.

A piscina até era grandinha, mas transbordava, inundando o relvado à volta. Pudera. Cheia de gordos, gordinhos e gordíssimos que tentavam nadar, sem se empurrarem uns aos outros... A piscina era um festival de barrigas.

As senhoras e os senhores pararam de esbracejar, quando me viram. Senti-me nu, eu que era o único mais vestido de todos.

E fugi, fugi, em direcção à recepção, para perguntar ao recepcionista, razoavelmente gordinho, o que se passava.

- Há algum congresso no hotel de pesos pesados?

Finalmente, fui esclarecido.

O hotel, na época baixa, a menos frequentada por turistas, promovia uns programas de emagrecimento, para quem necessitasse de derreter uns quilos.

Constava o programa de exercícios físicos, rigorosa dieta, saladinhas e sumos de fruta e repouso e concursos semanais, com prémios de bolinhos secos e bolachas dietéticas, para os que mais se tivessem esforçado e adelgaçado.

Agora, eu compreendia o olhar que me deitavam.

Era de inveja, de profunda e desabrida inveja, por saberem que o "Chico Fininho" não tinha de sujeitar-se a estas torturas da fome.

Aterrorizado, pedi a conta e saí do hotel nesse mesmo dia.

Tenho de começar a ponderar melhor o que e quanto e quando como. À cautela. É que, ontem, precisei de atrasar um furo à fivela do meu cinto.

Devo estar a ganhar barriga. Ou terá sido mau olhado, lançado pelos hóspedes do hotel?

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