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Ilustração de abertura da história «Dois grãos de areia».

23 de Junho

Dois grãos de areia

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Dois grãos de areia encontraram-se, numa praia. Vinham de sítios diferentes. Um andara pelo mar, revolvido do fundo, ao sabor de ondas e marés. O outro provinha de uma pedreira, esbarrondada por chuvas e vendavais. Não tinham a mesma experiência de vida.

O grão do mar, encostado ao grão de terra, pôs-se a recordar:

- Milhares de anos até vir aqui ter... O que eu passei!

- E eu? - suspirava o outro grãozinho. - Se te contasse, nem acreditavas...

- Merecemos descanso - concluiu o grão do mar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- E, a propósito, o colega podia chegar-se um pouco mais para lá? Estamos tão apertados.

- Não é culpa minha. Empurram-me outros grãos. São muitos.

- É o inconveniente destas praias. Muito povoadas de grãos de areia - lamentou-se o do mar. - Quem me dera um espaço só para mim!

O destino fez-lhe a vontade.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

As sandálias de um menino arrebataram-no. Nem tempo teve de se despedir do companheiro de ocasião...

- Tens as sandálias cheias de areia - disse a mãe do menino ao menino, à porta de casa. - Sacode-as bem.

Ele assim fez e o grão de areia saiu disparado para um cova de rua.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Veio a roda de um carro e cuspi-o para o parapeito de uma janela. Veio o espanador e atirou-o para um quintal.

A pétala de uma flor acolheu-o. Uma tesoura cortou a flor. A flor foi para uma jarra. A pétala esmoreceu e caiu no chão. O grãozinho escorregou, rolou e foi parar a um canto de pó. Estava, finalmente, sozinho.

E do outro grão, que nascera numa pedreira, também querem saber? Então, eu conto.

Uma gaivota a espanejar-se na areia levou-o na asa. A sobrevoar um rochedo, a gaivota sacudiu-o e o grãozinho caiu para dentro de um mexilhão, que estava de casca aberta. Ondas altas partiram a casca do mexilhão.

O grãozinho rolou e conheceu os fundos do mar. Veio um peixe e engoliu-o. Veio uma rede e pescou o peixe. Veio uma faca e abriu o peixe. Veio a água da torneira e lavou as areias das entranhas do peixe, que correram cano abaixo, até serem despejadas no mar.

"Outra vez?", estranhou o grãozinho. Mas, por pouco tempo.

Uma ondinha atirou-o para uma enseada . Como não era praia que ele conhecesse, nem procurou pelo colega, com quem há muito tempo tinha estado à conversa.

Alguém poisou o relógio sobre a superfície da areia. O peso inesperado sobressaltou milhares de grãos, que acorreram ao tic-tac.

Um deles, por acaso ou curiosidade, insinuou-se por um buraquinho e entrou dentro do maquinismo. Era o nosso grão, o que quase dera a volta ao mundo.

- Este relógio não anda a trabalhar bem - disse, tempos depois, não sei quem. - Tenho de levá-lo ao relojoeiro.

E levou.

O relojoeiro abriu a caixa do relógio e, de lupa assestada no olho esquerdo, debruçou-se para os rodízios, que pulsavam nervosamente.

- Tem um grão de areia na alma, a travar o mecanismo.

Isto disse o relojoeiro, como se fosse um cirurgião e o relógio um doente. Com uma pinça desalojou o grãozinho.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O relógio voltou a marcar ajuizadamente o tempo.

O grão de areia rolou. Pisado por muitos pés, andou aos baldões. Era um grão de areia resistente, que já experimentara muita vida. Até, uma vez, quase parara o tempo...

Foi ter a um canto de pó.

- Olá, colega - saudou-o uma voz. - Se não me engano, já nos conhecemos, ou não?

Era o outro grão do princípio desta história. Há coisas que até custam a crer...

- Por onde é que andou?

- Por aí, um pouco ao acaso - respondeu o grãozinho recém-chegado.

- Eu também - respondeu o mais velho no lugar. - Mas já descansei. Tão sozinho que estava, já me sentia mal.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ainda bem que veio.

Ficaram a contar um ao outro as respectivas aventuras. Como nós já as conhecemos, podemos ficar por aqui.

É que se não acabamos, mais dia menos dia, os dois grãos vão separar-se outra vez e voltar a correr mundo.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Dois grãos de areia
Ilustração original recuperada

Dois grãos de areia encontraram-se, numa praia. Vinham de sítios diferentes. Um andara pelo mar, revolvido do fundo, ao sabor de ondas e marés. O outro provinha de uma pedreira, esbarrondada por chuvas e vendavais. Não tinham a mesma experiência de vida.

O grão do mar, encostado ao grão de terra, pôs-se a recordar:

- Milhares de anos até vir aqui ter... O que eu passei!

- E eu? - suspirava o outro grãozinho. - Se te contasse, nem acreditavas...

- Merecemos descanso - concluiu o grão do mar.

- E, a propósito, o colega podia chegar-se um pouco mais para lá? Estamos tão apertados.

- Não é culpa minha. Empurram-me outros grãos. São muitos.

- É o inconveniente destas praias. Muito povoadas de grãos de areia - lamentou-se o do mar. - Quem me dera um espaço só para mim!

O destino fez-lhe a vontade.

As sandálias de um menino arrebataram-no. Nem tempo teve de se despedir do companheiro de ocasião...

- Tens as sandálias cheias de areia - disse a mãe do menino ao menino, à porta de casa. - Sacode-as bem.

Ele assim fez e o grão de areia saiu disparado para um cova de rua.

Veio a roda de um carro e cuspi-o para o parapeito de uma janela. Veio o espanador e atirou-o para um quintal.

A pétala de uma flor acolheu-o. Uma tesoura cortou a flor. A flor foi para uma jarra. A pétala esmoreceu e caiu no chão. O grãozinho escorregou, rolou e foi parar a um canto de pó. Estava, finalmente, sozinho.

E do outro grão, que nascera numa pedreira, também querem saber? Então, eu conto.

Uma gaivota a espanejar-se na areia levou-o na asa. A sobrevoar um rochedo, a gaivota sacudiu-o e o grãozinho caiu para dentro de um mexilhão, que estava de casca aberta. Ondas altas partiram a casca do mexilhão.

O grãozinho rolou e conheceu os fundos do mar. Veio um peixe e engoliu-o. Veio uma rede e pescou o peixe. Veio uma faca e abriu o peixe. Veio a água da torneira e lavou as areias das entranhas do peixe, que correram cano abaixo, até serem despejadas no mar.

"Outra vez?", estranhou o grãozinho. Mas, por pouco tempo.

Uma ondinha atirou-o para uma enseada . Como não era praia que ele conhecesse, nem procurou pelo colega, com quem há muito tempo tinha estado à conversa.

Alguém poisou o relógio sobre a superfície da areia. O peso inesperado sobressaltou milhares de grãos, que acorreram ao tic-tac.

Um deles, por acaso ou curiosidade, insinuou-se por um buraquinho e entrou dentro do maquinismo. Era o nosso grão, o que quase dera a volta ao mundo.

- Este relógio não anda a trabalhar bem - disse, tempos depois, não sei quem. - Tenho de levá-lo ao relojoeiro.

E levou.

O relojoeiro abriu a caixa do relógio e, de lupa assestada no olho esquerdo, debruçou-se para os rodízios, que pulsavam nervosamente.

- Tem um grão de areia na alma, a travar o mecanismo.

Isto disse o relojoeiro, como se fosse um cirurgião e o relógio um doente. Com uma pinça desalojou o grãozinho.

O relógio voltou a marcar ajuizadamente o tempo.

O grão de areia rolou. Pisado por muitos pés, andou aos baldões. Era um grão de areia resistente, que já experimentara muita vida. Até, uma vez, quase parara o tempo...

Foi ter a um canto de pó.

- Olá, colega - saudou-o uma voz. - Se não me engano, já nos conhecemos, ou não?

Era o outro grão do princípio desta história. Há coisas que até custam a crer...

- Por onde é que andou?

- Por aí, um pouco ao acaso - respondeu o grãozinho recém-chegado.

- Eu também - respondeu o mais velho no lugar. - Mas já descansei. Tão sozinho que estava, já me sentia mal.

Ainda bem que veio.

Ficaram a contar um ao outro as respectivas aventuras. Como nós já as conhecemos, podemos ficar por aqui.

É que se não acabamos, mais dia menos dia, os dois grãos vão separar-se outra vez e voltar a correr mundo.

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