• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «Chuva de algures».

20 de Junho

Chuva de algures

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa, mas persistente.

Isto passa-se num planeta algures - parece que se chama mesmo Algures - lá para os fundos do universo.

Aqui (ou ali?) só vivem sapos e rãs, únicos seres vivos do planeta, onde chove continuamente e sempre às cores.

Tanto pode a chuva ser verde-alface como violeta-desmaiado ou azul-marinho ou amarelo dourado. É um planeta muito colorido e festivo e, já se vê, sempre alagado.

Os sapos e as rãs não querem outra coisa, embora lhes seja indiferente a cor da chuva, desde que molhe.

Os sapos e as rãs são bichos de gostos pouco requintados.

Pois, como ia dizendo, estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa quando, sem quê nem porquê, parou de chover. Escorregou a última gota rosada de chuva sobre a pele esverdeada acastanhada do sapo, que elegemos como herói da nossa história, e o chuveiro emperrou.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O sapo Tubi interrogou com inquietação o céu, que se manteve cinzento e impassível. Nunca tal tinha acontecido.

Podia a época ser de aguaceiros, mas contínuos, sem descanso. Agora, um intervalo na chuva, por mínimo que fosse, era inconcebível.

Saltando e chapinhando de poça em poça, as rãs e os sapos reuniram-se para analisar em conjunto o estranho fenómeno.

- Sinto a pele cada vez mais seca - queixava-se uma rã mais alarmista.

- Por este andar vamos nadar em seco - queixava-se outra rã não menos alarmista.

Tudo um exagero.

O planeta Algures, somados os rios, lagos e charcos, tinha água de reserva para muitas e muitas gerações. Mas a inesperada ausência de chuva não deixava de causar inquietação.

No meio da coaxante assembleia, o sapo Tubi acusou-se:

- Fui eu o culpado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Houve um grande espanto e um grande silêncio, que o sapo Tubi aproveitou para prosseguir a sua confissão pública:

- Se eu não tivesse dito: "Estou farto desta maldita chuva às cores" nada disto tinha acontecido.

Protestaram sapos e rãs:

- A chuva não anda ao nosso mando.

Chove azul, amarelo, verde e encarnado, há que séculos, porque sim. Ninguém manda nas nuvens. Elas é que, azuladas, amareladas, esverdeadas ou encarniçadas, acumulam e carregam a água que desaba sobre a nossa terra. Um insignificante pensamento de um sapo não as faz mudar de prática. Isso não entra na cabeça de ninguém.

Mas o sapo Tubi não saía da sua:

- Eu disse em voz alta, muito alta. As nuvens melindraram-se, ressentiram-se.

Fosse do que fosse, não havia meio de a chuva voltar ao planeta Algures. O caso estava complicado.

Podia até imaginar-se que, ao fim de muitas gerações, a persistência da seca acabasse com a vida no planeta. As perspectivas de futuro, a longo prazo, eram calamitosas .

As rãs já não saltavam com o mesmo vigor nem os sapos coaxavam o seu grunhido de uma única sílaba "Cró! Cró!", noite fora. Andavam todos muito desalentados.

Até que o Tubi, fixando tristemente o céu cinzento, se saiu com esta:

- Quem dera que chovesse, nem que fosse sem cores.

De imediato, uma gota de água transparente caiu no focinho do sapo. Ele lançou a serpentina da língua cá para fora e provou-a. Não sabia a nada, mas era gostosa. Água pura.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Depois da primeira gota, muitas outras se lhe seguiram. Voltava a chover no planeta Algures e logo da primeira vez, depois da seca, a abada era de respeito. As cores variadas da chuva de outrora é que não voltaram mais.

Quando os sapos e as rãs contam esta história ou lenda aos filhos eles riem-se.

O riso estica-lhes a pele húmida e luzidia, que ao sol ganha a reverberação das cores do arco-íris. Recordações, talvez, do tempo em que a chuva era às cores.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa, mas persistente.

Isto passa-se num planeta algures - parece que se chama mesmo Algures - lá para os fundos do universo.

Aqui (ou ali?) só vivem sapos e rãs, únicos seres vivos do planeta, onde chove continuamente e sempre às cores.

Tanto pode a chuva ser verde-alface como violeta-desmaiado ou azul-marinho ou amarelo dourado. É um planeta muito colorido e festivo e, já se vê, sempre alagado.

Os sapos e as rãs não querem outra coisa, embora lhes seja indiferente a cor da chuva, desde que molhe.

Os sapos e as rãs são bichos de gostos pouco requintados.

Pois, como ia dizendo, estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa quando, sem quê nem porquê, parou de chover. Escorregou a última gota rosada de chuva sobre a pele esverdeada acastanhada do sapo, que elegemos como herói da nossa história, e o chuveiro emperrou.

O sapo Tubi interrogou com inquietação o céu, que se manteve cinzento e impassível. Nunca tal tinha acontecido.

Podia a época ser de aguaceiros, mas contínuos, sem descanso. Agora, um intervalo na chuva, por mínimo que fosse, era inconcebível.

Saltando e chapinhando de poça em poça, as rãs e os sapos reuniram-se para analisar em conjunto o estranho fenómeno.

- Sinto a pele cada vez mais seca - queixava-se uma rã mais alarmista.

- Por este andar vamos nadar em seco - queixava-se outra rã não menos alarmista.

Tudo um exagero.

O planeta Algures, somados os rios, lagos e charcos, tinha água de reserva para muitas e muitas gerações. Mas a inesperada ausência de chuva não deixava de causar inquietação.

No meio da coaxante assembleia, o sapo Tubi acusou-se:

- Fui eu o culpado.

Houve um grande espanto e um grande silêncio, que o sapo Tubi aproveitou para prosseguir a sua confissão pública:

- Se eu não tivesse dito: "Estou farto desta maldita chuva às cores" nada disto tinha acontecido.

Protestaram sapos e rãs:

- A chuva não anda ao nosso mando.

Chove azul, amarelo, verde e encarnado, há que séculos, porque sim. Ninguém manda nas nuvens. Elas é que, azuladas, amareladas, esverdeadas ou encarniçadas, acumulam e carregam a água que desaba sobre a nossa terra. Um insignificante pensamento de um sapo não as faz mudar de prática. Isso não entra na cabeça de ninguém.

Mas o sapo Tubi não saía da sua:

- Eu disse em voz alta, muito alta. As nuvens melindraram-se, ressentiram-se.

Fosse do que fosse, não havia meio de a chuva voltar ao planeta Algures. O caso estava complicado.

Podia até imaginar-se que, ao fim de muitas gerações, a persistência da seca acabasse com a vida no planeta. As perspectivas de futuro, a longo prazo, eram calamitosas .

As rãs já não saltavam com o mesmo vigor nem os sapos coaxavam o seu grunhido de uma única sílaba "Cró! Cró!", noite fora. Andavam todos muito desalentados.

Até que o Tubi, fixando tristemente o céu cinzento, se saiu com esta:

- Quem dera que chovesse, nem que fosse sem cores.

De imediato, uma gota de água transparente caiu no focinho do sapo. Ele lançou a serpentina da língua cá para fora e provou-a. Não sabia a nada, mas era gostosa. Água pura.

Depois da primeira gota, muitas outras se lhe seguiram. Voltava a chover no planeta Algures e logo da primeira vez, depois da seca, a abada era de respeito. As cores variadas da chuva de outrora é que não voltaram mais.

Quando os sapos e as rãs contam esta história ou lenda aos filhos eles riem-se.

O riso estica-lhes a pele húmida e luzidia, que ao sol ganha a reverberação das cores do arco-íris. Recordações, talvez, do tempo em que a chuva era às cores.

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Palavras da história

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Texto extraído das camadas HTML originais recuperadas. Imagens, PDF e áudio Flash são ficheiros locais do arquivo. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Ver no arquivo
PDF original
Pendente