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Ilustração de abertura da história «O leopardo, a girafa e o elefante».

8 de Junho

O leopardo, a girafa e o elefante

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Passa-se na selva a história que vou contar. Nela entram três personagens principais, o leopardo, a girafa e o elefante, mas a mim apetece-me mais começar pelos macacos.

Empoleirados nas árvores, os macacos ocupam o dia a troçar da vizinhança, isto é, dos restantes bichos da selva.

- Do elefante é que não há nada a declarar - diz uma macaca velha, fazendo um trejeito malicioso.

Começam todos os macacos numa grande algazarra:

- É trombudo.

- Patudo.

- Orelhudo.

- É pesadão.

- Molengão.

- Paspalhão.

- Mas é bom, um bonzão - concluiu a macaca velha.

Nisto estão todos de acordo. O elefante pode não ser bonito, segundo as normas de beleza dos macacos, mas não molesta ninguém. Essa é que é essa.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Vê-lo a ele muito gordalhufo, ao lado da espirra-canivetes da girafa, dá-me cá uma vontade de rir... - e o chimpanzé que isto diz ri-se, mostrando os dentes amarelos.

- Protege-a, desde pequena.

Os pais da girafa foram apanhados numa cilada de caçadores e ele tomou-a à sua conta. Dizem que tem feito muito por ela - explica outro macaco.

Divertido com a conversa, um saguim intervém:

- Quem não deve gostar nada dessa amizade é o velho leopardo malhado e pelado.

Se não fosse o medo que ele tem ao elefante, já a girafa, a estas horas, era um monte de ossos para os chacais roerem...

Nestas e noutras conversas gasta a macacaria o seu tempo. Depois digam que são os papagaios os palradores...

Na verdade, há muito que o leopardo espiava a girafa e o elefante.

De uma vez que viu a girafa no riacho, junto à cascata, a tomar banho, enquanto o elefante, perto da margem, cabeceava de sono, o leopardo aproximou-se dele e falou assim:

- Ah, meu amigo! O seu bom coração quase pesa tanto como o seu corpo todo. A girafa deve-lhe tudo.

O meu amigo amparou-lhe os primeiros passos, abrigou-a, acarinhou-a e, graças a si, ela fez-se a linda girafa, que ambos contemplamos, enternecidos. Belo exemplo, meu amigo, para toda essa bicharia perversa.

Isto declamava, numa voz comovida, o leopardo. Para fazerem uma ideia, basta que vos diga que a cada vírgula corresponde um soluço. Farsante!

- Só é de lamentar que não saiba agradecer os seus sacrifícios com idêntica generosidade... - sussurrou o leopardo.

Neste passo da conversa, o elefante, que tudo ouvira sem manifestar grande interesse, levantou a tromba em ponto de interrogação:

- Que quer dizer?

Fale com mais clareza, criatura.

Deu dois passos em frente o leopardo e segredou:

- Andam para aí a murmurar...

E o leopardo tentou convencer o elefante, por meias palavras, de que a girafa, nas suas costas, o tratava por "paquiderme", palavra muito ofensiva entre os elefantes.

- Não acredito.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Acreditasse ou não, o elefante nunca mais voltou a correr ao lado da girafa. Certo era que ela também deixara de correr. Sem a companhia do seu amigo de sempre, que graça tinham as correrias?

Isto constou na selva e espicaçou a curiosidade dos macacos, de tal forma que resolveram mandar um emissário convocar os dois amigos desunidos, a fim de tirar mais informações.

- Vejo-os muito tristes e cada um para seu lado - disse o macaco emissário, assim que os juntou. - Que se passa?

A girafa, coitada dela, não sabia. Muito amuado, o elefante acabou por confessar:

- Calcula que, nas minhas costas, andam a chamar-me "paquiderme" - e olhou de lado para a girafa.

O macaco não ficou espantado:

- Bem sei. Do leopardo tudo se deve esperar...

- Do leopardo? - estranhou o elefante.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Pois claro. O leopardo, de há uns tempos para cá, tem vindo a espalhar que o nosso estimável amigo elefante é um "paquiderme" da pior espécie e que, por esse motivo, a girafa já cortou relações consigo - explicou o macaco.

- Eu nem sei o que é um "paquiderme" - disse a inocente girafa.

Estava desfeito o engano e esclarecidos os escondidos intentos do leopardo intriguista.

- Vou dar-lhe uma lição - exclamou o elefante, escavando com as patas na terra e chicoteando o ar com a robusta tromba . - Faça constar entre os macacos e a restante bicharada que, realmente, eu e a girafa nos desentendemos de vez e que cada um foi para seu lado.

Estava o leopardo a afiar as garras, quando ouviu o que na selva se contava.

- Desta não escapas, girafinha! - assobiou ele, de bigodes eriçados.

Ele é que não escapou, ai não, porque a cólera do elefante, animal paciente até onde se pode ser, não perdoa.

Lançado a muitos quilómetros de distância, o leopardo não ganhou para o susto nem para os curativos.

De aí em diante passou a andar sempre sozinho e nunca sai senão de noite, quando os elefantes dormem.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O leopardo, a girafa e o elefante
Ilustração original recuperada

Passa-se na selva a história que vou contar. Nela entram três personagens principais, o leopardo, a girafa e o elefante, mas a mim apetece-me mais começar pelos macacos.

Empoleirados nas árvores, os macacos ocupam o dia a troçar da vizinhança, isto é, dos restantes bichos da selva.

- Do elefante é que não há nada a declarar - diz uma macaca velha, fazendo um trejeito malicioso.

Começam todos os macacos numa grande algazarra:

- É trombudo.

- Patudo.

- Orelhudo.

- É pesadão.

- Molengão.

- Paspalhão.

- Mas é bom, um bonzão - concluiu a macaca velha.

Nisto estão todos de acordo. O elefante pode não ser bonito, segundo as normas de beleza dos macacos, mas não molesta ninguém. Essa é que é essa.

- Vê-lo a ele muito gordalhufo, ao lado da espirra-canivetes da girafa, dá-me cá uma vontade de rir... - e o chimpanzé que isto diz ri-se, mostrando os dentes amarelos.

- Protege-a, desde pequena.

Os pais da girafa foram apanhados numa cilada de caçadores e ele tomou-a à sua conta. Dizem que tem feito muito por ela - explica outro macaco.

Divertido com a conversa, um saguim intervém:

- Quem não deve gostar nada dessa amizade é o velho leopardo malhado e pelado.

Se não fosse o medo que ele tem ao elefante, já a girafa, a estas horas, era um monte de ossos para os chacais roerem...

Nestas e noutras conversas gasta a macacaria o seu tempo. Depois digam que são os papagaios os palradores...

Na verdade, há muito que o leopardo espiava a girafa e o elefante.

De uma vez que viu a girafa no riacho, junto à cascata, a tomar banho, enquanto o elefante, perto da margem, cabeceava de sono, o leopardo aproximou-se dele e falou assim:

- Ah, meu amigo! O seu bom coração quase pesa tanto como o seu corpo todo. A girafa deve-lhe tudo.

O meu amigo amparou-lhe os primeiros passos, abrigou-a, acarinhou-a e, graças a si, ela fez-se a linda girafa, que ambos contemplamos, enternecidos. Belo exemplo, meu amigo, para toda essa bicharia perversa.

Isto declamava, numa voz comovida, o leopardo. Para fazerem uma ideia, basta que vos diga que a cada vírgula corresponde um soluço. Farsante!

- Só é de lamentar que não saiba agradecer os seus sacrifícios com idêntica generosidade... - sussurrou o leopardo.

Neste passo da conversa, o elefante, que tudo ouvira sem manifestar grande interesse, levantou a tromba em ponto de interrogação:

- Que quer dizer?

Fale com mais clareza, criatura.

Deu dois passos em frente o leopardo e segredou:

- Andam para aí a murmurar...

E o leopardo tentou convencer o elefante, por meias palavras, de que a girafa, nas suas costas, o tratava por "paquiderme", palavra muito ofensiva entre os elefantes.

- Não acredito.

Acreditasse ou não, o elefante nunca mais voltou a correr ao lado da girafa. Certo era que ela também deixara de correr. Sem a companhia do seu amigo de sempre, que graça tinham as correrias?

Isto constou na selva e espicaçou a curiosidade dos macacos, de tal forma que resolveram mandar um emissário convocar os dois amigos desunidos, a fim de tirar mais informações.

- Vejo-os muito tristes e cada um para seu lado - disse o macaco emissário, assim que os juntou. - Que se passa?

A girafa, coitada dela, não sabia. Muito amuado, o elefante acabou por confessar:

- Calcula que, nas minhas costas, andam a chamar-me "paquiderme" - e olhou de lado para a girafa.

O macaco não ficou espantado:

- Bem sei. Do leopardo tudo se deve esperar...

- Do leopardo? - estranhou o elefante.

- Pois claro. O leopardo, de há uns tempos para cá, tem vindo a espalhar que o nosso estimável amigo elefante é um "paquiderme" da pior espécie e que, por esse motivo, a girafa já cortou relações consigo - explicou o macaco.

- Eu nem sei o que é um "paquiderme" - disse a inocente girafa.

Estava desfeito o engano e esclarecidos os escondidos intentos do leopardo intriguista.

- Vou dar-lhe uma lição - exclamou o elefante, escavando com as patas na terra e chicoteando o ar com a robusta tromba . - Faça constar entre os macacos e a restante bicharada que, realmente, eu e a girafa nos desentendemos de vez e que cada um foi para seu lado.

Estava o leopardo a afiar as garras, quando ouviu o que na selva se contava.

- Desta não escapas, girafinha! - assobiou ele, de bigodes eriçados.

Ele é que não escapou, ai não, porque a cólera do elefante, animal paciente até onde se pode ser, não perdoa.

Lançado a muitos quilómetros de distância, o leopardo não ganhou para o susto nem para os curativos.

De aí em diante passou a andar sempre sozinho e nunca sai senão de noite, quando os elefantes dormem.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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