• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «Sorte para o pintassilgo».

6 de Junho

Sorte para o pintassilgo

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez um velho lenhador. Andara a vida inteira a percorrer a floresta e, agora que as forças já lhe faltavam para empunhar o machado, passava os dias, tristemente, à porta do seu casebre.

Entre as lembranças mais antigas que lhe preenchiam a memória, recordava-se de uma história que o tinha encantado, na infância.

Nela se contava que havia, na floresta, anõezinhos tão pequenos que nem um palmo mediriam. Os anões ou gnomos, tanto faz, guardavam, num esconderijo, pedras de ouro puro, acumuladas, ao longo de séculos pelo trabalho incansável de várias gerações de mineiros anõezinhos.

O lenhador, que conhecia a floresta de lés a lés, nunca vira um gnomo nem, a bem dizer, acreditava que a história correspondesse à verdade.

- Invenções para entreter meninos. E velhos... - dizia ele de si para si, com um sorriso desencantado.

Mas não é que, um dia, descobriu mesmo um gnomo?

Um gnomo a dormir, de boca aberta, junto à raiz de um pinheiro da floresta, era uma descoberta fantástica.

O lenhador agarrou-o pela cintura como quem agarra um gafanhoto e gritou-lhe:

- Afinal, sempre é verdade. Agora, só falta saber o segredo do tesouro dos gnomos...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O homenzinho, preso entre o polegar e o indicador do homenzarrão, debatia-se e protestava que nunca tinha ouvido falar em tal tesouro.

- Se não me dizes, onde o esconderam, aperto-te a barriga, que nem tempo tens para dizer "Chega" - ameaçou o lenhador.

E era bem capaz...

A possibilidade imprevista de vir a ficar rico, riquíssimo, quase o enlouquecia.

- Diz-me onde está o tesouro ou esborracho-te - insistiu o lenhador.

O gnomo, não tendo outra alternativa, acabou por apontar uma árvore, confessando que, debaixo da raiz da árvore, numa loca , estava, agasalhado entre musgos, o maior tesouro do mundo.

- Já vamos saber se é como contas - disse o lenhador.

Mas entardecia.

Era Inverno, estação do ano em que, como se sabe, a noite cai cedo e depressa. O lenhador, contrariado por ter de guardar para o dia seguinte o que queria resolver naquele dia, fez uma cruz a canivete, no tronco da árvore indicada, e disse:

- Amanhã voltamos cá e, pelo seguro, tu hoje à noite vais ficar hospedado em minha casa.

Maneira de dizer...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Hospedado no casebre, isto é, prisioneiro na gaiola, donde despejou um pintassilgo. Sorte para o pintassilgo.

O lenhador, nessa noite, dormiu mal. Quanto ao gnomo, nunca saberemos se dormiu bem ou não, visto que, na manhã seguinte, o lenhador deu com a gaiola vazia.

- Mas o tesouro há-de estar onde ele apontou - animou-se o lenhador.

De enxadão ao ombro, avançou para a floresta.

- Cá está a árvore que eu marquei - exclamou.

Efectivamente, a árvore tinha uma cruz, no tronco, riscada a canivete.

Mas outras árvores perto e outras longe tinham uma cruz igual. Não havia uma única árvore da imensa floresta que não exibisse uma cruz, em cheio, no dorso do tronco.

Os gnomos, pela calada da noite, tinham trabalhado bem.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O lenhador, a sentir-se ainda mais velho e ainda mais cansado, deixou o enxadão encostado a uma das árvores, e voltou para casa, de cabeça baixa. Nada ganhara e até o pintassilgo da gaiola ele tinha perdido...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Sorte para o pintassilgo
Ilustração original recuperada

Era uma vez um velho lenhador. Andara a vida inteira a percorrer a floresta e, agora que as forças já lhe faltavam para empunhar o machado, passava os dias, tristemente, à porta do seu casebre.

Entre as lembranças mais antigas que lhe preenchiam a memória, recordava-se de uma história que o tinha encantado, na infância.

Nela se contava que havia, na floresta, anõezinhos tão pequenos que nem um palmo mediriam. Os anões ou gnomos, tanto faz, guardavam, num esconderijo, pedras de ouro puro, acumuladas, ao longo de séculos pelo trabalho incansável de várias gerações de mineiros anõezinhos.

O lenhador, que conhecia a floresta de lés a lés, nunca vira um gnomo nem, a bem dizer, acreditava que a história correspondesse à verdade.

- Invenções para entreter meninos. E velhos... - dizia ele de si para si, com um sorriso desencantado.

Mas não é que, um dia, descobriu mesmo um gnomo?

Um gnomo a dormir, de boca aberta, junto à raiz de um pinheiro da floresta, era uma descoberta fantástica.

O lenhador agarrou-o pela cintura como quem agarra um gafanhoto e gritou-lhe:

- Afinal, sempre é verdade. Agora, só falta saber o segredo do tesouro dos gnomos...

O homenzinho, preso entre o polegar e o indicador do homenzarrão, debatia-se e protestava que nunca tinha ouvido falar em tal tesouro.

- Se não me dizes, onde o esconderam, aperto-te a barriga, que nem tempo tens para dizer "Chega" - ameaçou o lenhador.

E era bem capaz...

A possibilidade imprevista de vir a ficar rico, riquíssimo, quase o enlouquecia.

- Diz-me onde está o tesouro ou esborracho-te - insistiu o lenhador.

O gnomo, não tendo outra alternativa, acabou por apontar uma árvore, confessando que, debaixo da raiz da árvore, numa loca , estava, agasalhado entre musgos, o maior tesouro do mundo.

- Já vamos saber se é como contas - disse o lenhador.

Mas entardecia.

Era Inverno, estação do ano em que, como se sabe, a noite cai cedo e depressa. O lenhador, contrariado por ter de guardar para o dia seguinte o que queria resolver naquele dia, fez uma cruz a canivete, no tronco da árvore indicada, e disse:

- Amanhã voltamos cá e, pelo seguro, tu hoje à noite vais ficar hospedado em minha casa.

Maneira de dizer...

Hospedado no casebre, isto é, prisioneiro na gaiola, donde despejou um pintassilgo. Sorte para o pintassilgo.

O lenhador, nessa noite, dormiu mal. Quanto ao gnomo, nunca saberemos se dormiu bem ou não, visto que, na manhã seguinte, o lenhador deu com a gaiola vazia.

- Mas o tesouro há-de estar onde ele apontou - animou-se o lenhador.

De enxadão ao ombro, avançou para a floresta.

- Cá está a árvore que eu marquei - exclamou.

Efectivamente, a árvore tinha uma cruz, no tronco, riscada a canivete.

Mas outras árvores perto e outras longe tinham uma cruz igual. Não havia uma única árvore da imensa floresta que não exibisse uma cruz, em cheio, no dorso do tronco.

Os gnomos, pela calada da noite, tinham trabalhado bem.

O lenhador, a sentir-se ainda mais velho e ainda mais cansado, deixou o enxadão encostado a uma das árvores, e voltou para casa, de cabeça baixa. Nada ganhara e até o pintassilgo da gaiola ele tinha perdido...

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Palavras da história

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Texto extraído das camadas HTML originais recuperadas. Imagens, PDF e áudio Flash são ficheiros locais do arquivo. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Ver no arquivo
PDF original
Pendente