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Ilustração de abertura da história «Quem sabe é o jardineiro».

5 de Junho

Quem sabe é o jardineiro

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez um rei que tinha, à roda do palácio, onde vivia, um enorme pomar muito bem tratado. Imensos jardineiros cuidavam desse pomar, que era a vaidade do rei.

Árvores de fruto de todas as espécies, algumas vindas de terras distantes, transformavam, na Primavera, o pomar num jardim magnífico, onde sobressaíam o cor-de-rosa, o azul, o branco e o amarelo das flores, sobre o verde fresco das folhas.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

E, quando os frutos começavam a ganhar forma, o perfume que inundava o pomar quase entontecia.

Estava, um dia, o rei a mostrar o pomar a uns primos, príncipes de reinos vizinhos, quando viu, caídos de um pessegueiro uns tantos frutos meio apodrecidos.

Mandou logo chamar o chefe dos jardineiros e perguntou-lhe, muito irritado:

- Explique-me este desleixo. Quem é o responsável?

- Foram os pássaros, Majestade, que bicaram os frutos mais apetitosos - explicou o jardineiro.

- Pássaros? - exclamou o rei.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Como se atrevem a entrar nos meus domínios e a bicar as minhas riquezas?

- Os pássaros têm asas e não conhecem muros - respondeu o jardineiro.

- Pois vou eu ensiná-los - indignou-se o rei. - Que podem os pássaros contra mim?

E o rei foi para o palácio, onde ditou um decreto para ser espalhado pelo reino, em que mandava matar todos os pássaros, passarinhos e passarocos, sem escapar um. As ordens do rei tinham de se cumprir. Foi uma mortandade .

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

No ano seguinte, realmente, já não havia pássaros atrevidos a bicar nos frutos do pomar real. Mas, em contrapartida, uma praga aflitiva de lagartas e insectos destruiu as colheitas, minou os frutos, empobreceu o reino.

- Como se explica isto? - perguntou o rei ao jardineiro.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Depois de guerrearmos os pássaros, temos agora de guerrear os mosquitos e as lagartas. Como se dá batalha às lagartas?

Sorrindo, o velho jardineiro respondeu:

- Para guerrear as lagartas, temos de nos aliar aos pássaros. São eles que as comem, mais às larvas e a todos os bichinhos miúdos da natureza.

- Podias ter explicado isso mais cedo - comentou o rei, fazendo-se esquecido.

Logo ali mandou anular o decreto, que tinha apagado as asas dos céus do reino. Os pássaros já podiam, de novo, voar livremente. E poisar onde lhes apetecesse.

Assim é que estava certo.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Quem sabe é o jardineiro
Ilustração original recuperada

Era uma vez um rei que tinha, à roda do palácio, onde vivia, um enorme pomar muito bem tratado. Imensos jardineiros cuidavam desse pomar, que era a vaidade do rei.

Árvores de fruto de todas as espécies, algumas vindas de terras distantes, transformavam, na Primavera, o pomar num jardim magnífico, onde sobressaíam o cor-de-rosa, o azul, o branco e o amarelo das flores, sobre o verde fresco das folhas.

E, quando os frutos começavam a ganhar forma, o perfume que inundava o pomar quase entontecia.

Estava, um dia, o rei a mostrar o pomar a uns primos, príncipes de reinos vizinhos, quando viu, caídos de um pessegueiro uns tantos frutos meio apodrecidos.

Mandou logo chamar o chefe dos jardineiros e perguntou-lhe, muito irritado:

- Explique-me este desleixo. Quem é o responsável?

- Foram os pássaros, Majestade, que bicaram os frutos mais apetitosos - explicou o jardineiro.

- Pássaros? - exclamou o rei.

- Como se atrevem a entrar nos meus domínios e a bicar as minhas riquezas?

- Os pássaros têm asas e não conhecem muros - respondeu o jardineiro.

- Pois vou eu ensiná-los - indignou-se o rei. - Que podem os pássaros contra mim?

E o rei foi para o palácio, onde ditou um decreto para ser espalhado pelo reino, em que mandava matar todos os pássaros, passarinhos e passarocos, sem escapar um. As ordens do rei tinham de se cumprir. Foi uma mortandade .

No ano seguinte, realmente, já não havia pássaros atrevidos a bicar nos frutos do pomar real. Mas, em contrapartida, uma praga aflitiva de lagartas e insectos destruiu as colheitas, minou os frutos, empobreceu o reino.

- Como se explica isto? - perguntou o rei ao jardineiro.

- Depois de guerrearmos os pássaros, temos agora de guerrear os mosquitos e as lagartas. Como se dá batalha às lagartas?

Sorrindo, o velho jardineiro respondeu:

- Para guerrear as lagartas, temos de nos aliar aos pássaros. São eles que as comem, mais às larvas e a todos os bichinhos miúdos da natureza.

- Podias ter explicado isso mais cedo - comentou o rei, fazendo-se esquecido.

Logo ali mandou anular o decreto, que tinha apagado as asas dos céus do reino. Os pássaros já podiam, de novo, voar livremente. E poisar onde lhes apetecesse.

Assim é que estava certo.

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