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Ilustração de abertura da história «Um muro sem história».

4 de Junho

Um muro sem história

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Um muro em ruínas pediu-me que contasse a história dele.

Que se pode dizer de um muro coberto de musgo e hera, à beira de um caminho por onde já quase ninguém passa?

De um lado, o muro termina num meio arco de pedra, a lembrar que por ali abria e fechava porta ou portão.

Do outro lado, um cunhal de esquina ergue-se, todo inteiro, mas vai-se a ver e só umas tantas pedras soltas recordam a parede que, noutros tempos, ali se cruzara com o velho muro.

Sim, o muro tinha feito parte de uma casa, um casarão, por assim dizer, um palácio.

Quem o mandara construir não se contentava com pouco.

- Quero que a minha casa seja equivalente à casa de um rei - dizia ele.

Vieram operários da cidade ajudar à construção. Carros de bois trouxeram, custosamente, pedregulhos das montanhas longínquas.

Pedreiros partiram os pedregulhos em blocos e começaram a levantar as paredes.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O homem que queria levantar ali, no meio da planície, uma casa igual à do rei aparecia muitas vezes, para visitar as obras. Gritava com os operários, zangava-se com o encarregado, exigia pressa e perfeição.

Se ele mandara estender a estrada até àquele lugar, se ele mandara cavar um poço, donde rompia a água que iria regar os futuros jardins à volta da futura casa, só faltava estar a casa pronta, para poder inaugurá-la com uma grande festa, cheia de amigos, música e foguetes.

Mas as obras arrastavam-se.

Também seria culpa do homem, que umas vezes queria uma coisa, outras queria outra. Uma torre, à esquerda da entrada, devia, vendo bem, ficar melhor, à direita. Onde estava previsto o salão ia ficar a cozinha ou talvez fosse melhor desfazer as paredes dos quartos para alargar o salão... Levantava-se, deitava-se abaixo. O encarregado da obra andava atordoado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- O homem deve estar louco - dizia ele, em voz baixa. - Está a gastar uma fortuna e nunca mais vê a casa pronta.

Foi o que aconteceu. Com os pagamentos atrasados, os operários abandonaram o trabalho.

Tempos depois, silvas e mato tomaram conta das paredes. Muitos anos correram.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Chuvas, cheias, vendavais arrasaram o que restava da casa inacabada.

Resistiu o muro coberto de musgo e hera.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Conta a minha história - suplicava-me o muro.

Mas como é que eu posso contar a história de um muro? Os muros, as paredes, as ruínas não têm histórias nenhumas para contar. Ou têm?

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Um muro sem história
Ilustração original recuperada

Um muro em ruínas pediu-me que contasse a história dele.

Que se pode dizer de um muro coberto de musgo e hera, à beira de um caminho por onde já quase ninguém passa?

De um lado, o muro termina num meio arco de pedra, a lembrar que por ali abria e fechava porta ou portão.

Do outro lado, um cunhal de esquina ergue-se, todo inteiro, mas vai-se a ver e só umas tantas pedras soltas recordam a parede que, noutros tempos, ali se cruzara com o velho muro.

Sim, o muro tinha feito parte de uma casa, um casarão, por assim dizer, um palácio.

Quem o mandara construir não se contentava com pouco.

- Quero que a minha casa seja equivalente à casa de um rei - dizia ele.

Vieram operários da cidade ajudar à construção. Carros de bois trouxeram, custosamente, pedregulhos das montanhas longínquas.

Pedreiros partiram os pedregulhos em blocos e começaram a levantar as paredes.

O homem que queria levantar ali, no meio da planície, uma casa igual à do rei aparecia muitas vezes, para visitar as obras. Gritava com os operários, zangava-se com o encarregado, exigia pressa e perfeição.

Se ele mandara estender a estrada até àquele lugar, se ele mandara cavar um poço, donde rompia a água que iria regar os futuros jardins à volta da futura casa, só faltava estar a casa pronta, para poder inaugurá-la com uma grande festa, cheia de amigos, música e foguetes.

Mas as obras arrastavam-se.

Também seria culpa do homem, que umas vezes queria uma coisa, outras queria outra. Uma torre, à esquerda da entrada, devia, vendo bem, ficar melhor, à direita. Onde estava previsto o salão ia ficar a cozinha ou talvez fosse melhor desfazer as paredes dos quartos para alargar o salão... Levantava-se, deitava-se abaixo. O encarregado da obra andava atordoado.

- O homem deve estar louco - dizia ele, em voz baixa. - Está a gastar uma fortuna e nunca mais vê a casa pronta.

Foi o que aconteceu. Com os pagamentos atrasados, os operários abandonaram o trabalho.

Tempos depois, silvas e mato tomaram conta das paredes. Muitos anos correram.

Chuvas, cheias, vendavais arrasaram o que restava da casa inacabada.

Resistiu o muro coberto de musgo e hera.

- Conta a minha história - suplicava-me o muro.

Mas como é que eu posso contar a história de um muro? Os muros, as paredes, as ruínas não têm histórias nenhumas para contar. Ou têm?

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