18 de Maio
A dama do retrato
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
No velho castelo, aquele retrato da senhora de guarda-sol, mimoso vestido de roda, coletinho de menina e largo chapéu enfeitado, na parede sombria do castelo, aquele retrato destoava .
Precisava de luz, precisava de sol o retrato, ou de outro modo não se justificava nem o chapéu de rendas da dama nem o guarda-sol, a proteger-lhe o rostinho de marfim, com uma flor de sorriso.
Mas parece que ninguém tinha dado por isso. E a menina senhora dama, de mimoso vestido de roda, ali se ficara quase às escuras. Aproveitando os enfeites de um dos cantos da moldura, uma desrespeitadora aranha pôs-se a construir a sua teia. Subia, descia, tecia e quase roçava o ombro da senhora, a importuna.
- Tanto não - protestou a dama menina, no seu retrato, e com um gesto só cortou o fio à teia.
Caiu a aranha no chão. Coisa assim tão de espantar, nunca ela, ao longo da sua vida de aranha, jamais vira: um retrato a falar e a mexer-se, quem tal diria.
Foi fazer queixa à mãe das aranhas que morava num denso novelo de teias, rente ao tecto.
A velha aranha não se admirou com a notícia. Até conhecia histórias semelhantes, umas passadas com ela, outras contadas por aranhas amigas, de outros castelos e palácios ensombrados.
- A pobre senhora está farta de viver naquele quadro, é o que é! - explicou ela à aranha nova. - Talvez nós pudéssemos dar-lhe uma ajuda...
"Nós" eram elas todas, as milhares de aranhas daquele castelo.
Pois as milhares de aranhas, às ordens da velha aranha, juntaram-se à volta do quadro e começaram a tecer uma teia tão cerrada, tão cerrada, que por completo toldava o quadro da vista das pessoas, que distraidamente por ali passassem. Já não se via quadro nem moldura, mas só uma parede de teia.
O quadro, a senhora dama de chapéu de rendas teria ficado, coitada, aprisionada atrás daquele biombo?
Nas manhãs suaves desta Primavera soalheira, vê-se às vezes, a passear pelos campos, à roda do castelo, uma senhora de longo vestido a arrastar, guarda-sol luminoso e chapéu de rendas...
Donde terá ela vindo? Donde terá ela saído? As aranhas sabem, mas não dizem.
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
No velho castelo, aquele retrato da senhora de guarda-sol, mimoso vestido de roda, coletinho de menina e largo chapéu enfeitado, na parede sombria do castelo, aquele retrato destoava .
Precisava de luz, precisava de sol o retrato, ou de outro modo não se justificava nem o chapéu de rendas da dama nem o guarda-sol, a proteger-lhe o rostinho de marfim, com uma flor de sorriso.
Mas parece que ninguém tinha dado por isso. E a menina senhora dama, de mimoso vestido de roda, ali se ficara quase às escuras. Aproveitando os enfeites de um dos cantos da moldura, uma desrespeitadora aranha pôs-se a construir a sua teia. Subia, descia, tecia e quase roçava o ombro da senhora, a importuna.
- Tanto não - protestou a dama menina, no seu retrato, e com um gesto só cortou o fio à teia.
Caiu a aranha no chão. Coisa assim tão de espantar, nunca ela, ao longo da sua vida de aranha, jamais vira: um retrato a falar e a mexer-se, quem tal diria.
Foi fazer queixa à mãe das aranhas que morava num denso novelo de teias, rente ao tecto.
A velha aranha não se admirou com a notícia. Até conhecia histórias semelhantes, umas passadas com ela, outras contadas por aranhas amigas, de outros castelos e palácios ensombrados.
- A pobre senhora está farta de viver naquele quadro, é o que é! - explicou ela à aranha nova. - Talvez nós pudéssemos dar-lhe uma ajuda...
"Nós" eram elas todas, as milhares de aranhas daquele castelo.
Pois as milhares de aranhas, às ordens da velha aranha, juntaram-se à volta do quadro e começaram a tecer uma teia tão cerrada, tão cerrada, que por completo toldava o quadro da vista das pessoas, que distraidamente por ali passassem. Já não se via quadro nem moldura, mas só uma parede de teia.
O quadro, a senhora dama de chapéu de rendas teria ficado, coitada, aprisionada atrás daquele biombo?
Nas manhãs suaves desta Primavera soalheira, vê-se às vezes, a passear pelos campos, à roda do castelo, uma senhora de longo vestido a arrastar, guarda-sol luminoso e chapéu de rendas...
Donde terá ela vindo? Donde terá ela saído? As aranhas sabem, mas não dizem.
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