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Ilustração de abertura da história «Didi dá que fazer».

8 de Maio

Didi dá que fazer

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Quem me contou esta história foi o Rogério, um rapazinho meu amigo, que morava no 2º direito do prédio onde eu moro. Deixou de ser meu vizinho há coisa de um ano, pouco mais ou menos. O pai dele foi colocado em Estrasburgo, que fica em França, perto da Alemanha, e, como é bom de ver, a família mudou-se também.

Quando se foi embora, o Rogério passou por minha casa para se despedir. Prometeu que me escreveria muitas vezes, mas já se sabe: fora um postal com vistas da cidade e um cartão de Boas-Festas, não voltei a ter notícias dele. E senti-lhe a falta! Sim, tive, sinceramente, saudades do Rogério e da Didi.

"Quem será esta Didi que aqui aparece de surpresa?", perguntam vocês. Didi é nome de gato, ou melhor, de gata, da gatinha do Rogério, uma simpática e atrevida bichana que, quase todos os dias, eu tinha de ir levar ao 2º direito. Entrava-me pela janela e saía ao colo, a princesa de olhos azuis e rabinho alçado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Moro no último andar de uma casa amansardada com vista para o telhado e para o rio. Os telhados, como sabes, são território exclusivo dos gatos. Por contrato antigo, os bichanos tomaram conta dos telhados das cidades e ali reinam e ditam leis.

Que ninguém se atreva a contestar-lhes o direito, porque senão pode haver guerra entre gatos e homens, o que seria uma verdadeira desgraça, principalmente para os homens.

Pois a Didi subia ao telhado pela escada de ferro, em caracol, a escada das traseiras, mas para descer passava sempre por minha casa.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Devia ter tonturas com a escada de caracol, nas curvas da descida, ou então simpatizava muito comigo. Nunca cheguei a saber.

Fosse por que fosse, de Verão ou de Inverno, tinha sempre a janela do meu quarto aberta, não se desse o caso de sua excelência querer entrar... Que frio eu apanhei em certos dias!

Todas as vezes que, com ela ao colo, tocava à campainha do 2º direito, Dona Didi agradecia-me com um ronrom muito expressivo.

- Aqui lhe trago a sua gatinha - dizia eu para a mãe do Rogério, que era quem abria a porta.

- Para que se esteve a incomodar...

Deixasse-a no patamar da escada e ela que viesse pelo seu pé.

- Não, mãezinha, que ela podia fugir para a rua - dizia, lá de dentro, o Rogério. - Com a escada de salvação não há perigo, porque está trancada em baixo, mas, pela escada da frente, punha-se na rua num instante. E os carros?

Eu, pelo meu lado, aprovava as cautelas do Rogério.

A mãe, embora não dissesse, também aprovava.

Ora, no outro dia, o Rogério voltou. Está de férias, em casa de uns tios, e demora-se um mês por cá, para matar saudades e rever amigos. Perguntei-lhe pela Didi e, neste ponto, é que entra a aventura, que ele me contou.

O prédio para onde foram viver, em Estrasburgo, pouco diferia do nosso: vários andares, vários inquilinos, escada principal, escada de serviço, etc. Quem, a princípio, estranhou mais foi a Didi, mas depressa achou meio de subir para o telhado, e aí estava ela onde e como queria...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Admito que tivesse sentido uma certa falta do vizinho do último andar... Lá se remediou à sua maneira. Talvez nem sequer já se lembrasse de mim, a ingrata!

Os hábitos dos gatos respeitam-se e não se discutem. No entanto, em certas ocasiões, é preciso pensar por eles, como vão ver.

Na cidade para onde o Rogério tinha ido nevava e neva sempre, durante o Inverno. Para o meu amigo, o espectáculo da neve a cair, em flocos que parecem penas brancas, era uma maravilhosa novidade. Para a Didi não seria menos. Mas havia o problema do telhado que ficava escorregadio e perigoso, sempre que nevava.

Por isso a Didi foi proibida de saltar para o telhado, o que ela não conseguiu compreender.

Um dia, escapou-se. Quando o Rogério voltou da escola, deram-lhe a notícia. A Didi tinha fugido para o telhado e não conseguia descer.

- Chamamos os bombeiros - decidiu o pai.

E se a Didi se assustava?

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

À vista de estranhos, podia desequilibrar-se e...

A tarde correu depressa, sem que se achasse uma solução.

A pobrezinha, no telhado, miava. Devia estar cheia de frio. Que fazer?

O meu amigo Rogério, sem dizer nada a ninguém, o que foi uma imprudência, subiu as escadas, abriu a muito custo uma clarabóia e pôs os pés no telhado, tentando não se desequilibrar. Deu um passo, dois passos... Estava escuro, muito escuro, e não havia meio de conseguir ver a Didi, que tinha o pêlo da cor da noite.

O Rogério chamou, primeiro baixinho, depois mais alto:

- Didi, sou eu. Vem cá, Didi.

Nem um ronrom, nem um miado, e o céu cada vez mais escuro. Ele a dar mais um passo resvaladiço e um peso inesperado a saltar-lhe para os ombros. Era a Didi, tiritante, que lhe dava marradinhas no pescoço e se queixava do frio, quase sem voz para um terno ronrom.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Tivemos de aquecê-la junto da lareira e de cobri-la com cobertores, porque a Didi não parava de espirrar - contou o Rogério.

E aqui acaba a aventura verdadeira, trazida pelo meu amigo, dos confins da Europa comunitária.

A Didi, cidadã europeia, um dia que regresse a Portugal, já tem muito que contar aos outros gatos do nosso telhado...

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Didi dá que fazer
Ilustração original recuperada

Quem me contou esta história foi o Rogério, um rapazinho meu amigo, que morava no 2º direito do prédio onde eu moro. Deixou de ser meu vizinho há coisa de um ano, pouco mais ou menos. O pai dele foi colocado em Estrasburgo, que fica em França, perto da Alemanha, e, como é bom de ver, a família mudou-se também.

Quando se foi embora, o Rogério passou por minha casa para se despedir. Prometeu que me escreveria muitas vezes, mas já se sabe: fora um postal com vistas da cidade e um cartão de Boas-Festas, não voltei a ter notícias dele. E senti-lhe a falta! Sim, tive, sinceramente, saudades do Rogério e da Didi.

"Quem será esta Didi que aqui aparece de surpresa?", perguntam vocês. Didi é nome de gato, ou melhor, de gata, da gatinha do Rogério, uma simpática e atrevida bichana que, quase todos os dias, eu tinha de ir levar ao 2º direito. Entrava-me pela janela e saía ao colo, a princesa de olhos azuis e rabinho alçado.

Moro no último andar de uma casa amansardada com vista para o telhado e para o rio. Os telhados, como sabes, são território exclusivo dos gatos. Por contrato antigo, os bichanos tomaram conta dos telhados das cidades e ali reinam e ditam leis.

Que ninguém se atreva a contestar-lhes o direito, porque senão pode haver guerra entre gatos e homens, o que seria uma verdadeira desgraça, principalmente para os homens.

Pois a Didi subia ao telhado pela escada de ferro, em caracol, a escada das traseiras, mas para descer passava sempre por minha casa.

Devia ter tonturas com a escada de caracol, nas curvas da descida, ou então simpatizava muito comigo. Nunca cheguei a saber.

Fosse por que fosse, de Verão ou de Inverno, tinha sempre a janela do meu quarto aberta, não se desse o caso de sua excelência querer entrar... Que frio eu apanhei em certos dias!

Todas as vezes que, com ela ao colo, tocava à campainha do 2º direito, Dona Didi agradecia-me com um ronrom muito expressivo.

- Aqui lhe trago a sua gatinha - dizia eu para a mãe do Rogério, que era quem abria a porta.

- Para que se esteve a incomodar...

Deixasse-a no patamar da escada e ela que viesse pelo seu pé.

- Não, mãezinha, que ela podia fugir para a rua - dizia, lá de dentro, o Rogério. - Com a escada de salvação não há perigo, porque está trancada em baixo, mas, pela escada da frente, punha-se na rua num instante. E os carros?

Eu, pelo meu lado, aprovava as cautelas do Rogério.

A mãe, embora não dissesse, também aprovava.

Ora, no outro dia, o Rogério voltou. Está de férias, em casa de uns tios, e demora-se um mês por cá, para matar saudades e rever amigos. Perguntei-lhe pela Didi e, neste ponto, é que entra a aventura, que ele me contou.

O prédio para onde foram viver, em Estrasburgo, pouco diferia do nosso: vários andares, vários inquilinos, escada principal, escada de serviço, etc. Quem, a princípio, estranhou mais foi a Didi, mas depressa achou meio de subir para o telhado, e aí estava ela onde e como queria...

Admito que tivesse sentido uma certa falta do vizinho do último andar... Lá se remediou à sua maneira. Talvez nem sequer já se lembrasse de mim, a ingrata!

Os hábitos dos gatos respeitam-se e não se discutem. No entanto, em certas ocasiões, é preciso pensar por eles, como vão ver.

Na cidade para onde o Rogério tinha ido nevava e neva sempre, durante o Inverno. Para o meu amigo, o espectáculo da neve a cair, em flocos que parecem penas brancas, era uma maravilhosa novidade. Para a Didi não seria menos. Mas havia o problema do telhado que ficava escorregadio e perigoso, sempre que nevava.

Por isso a Didi foi proibida de saltar para o telhado, o que ela não conseguiu compreender.

Um dia, escapou-se. Quando o Rogério voltou da escola, deram-lhe a notícia. A Didi tinha fugido para o telhado e não conseguia descer.

- Chamamos os bombeiros - decidiu o pai.

E se a Didi se assustava?

À vista de estranhos, podia desequilibrar-se e...

A tarde correu depressa, sem que se achasse uma solução.

A pobrezinha, no telhado, miava. Devia estar cheia de frio. Que fazer?

O meu amigo Rogério, sem dizer nada a ninguém, o que foi uma imprudência, subiu as escadas, abriu a muito custo uma clarabóia e pôs os pés no telhado, tentando não se desequilibrar. Deu um passo, dois passos... Estava escuro, muito escuro, e não havia meio de conseguir ver a Didi, que tinha o pêlo da cor da noite.

O Rogério chamou, primeiro baixinho, depois mais alto:

- Didi, sou eu. Vem cá, Didi.

Nem um ronrom, nem um miado, e o céu cada vez mais escuro. Ele a dar mais um passo resvaladiço e um peso inesperado a saltar-lhe para os ombros. Era a Didi, tiritante, que lhe dava marradinhas no pescoço e se queixava do frio, quase sem voz para um terno ronrom.

- Tivemos de aquecê-la junto da lareira e de cobri-la com cobertores, porque a Didi não parava de espirrar - contou o Rogério.

E aqui acaba a aventura verdadeira, trazida pelo meu amigo, dos confins da Europa comunitária.

A Didi, cidadã europeia, um dia que regresse a Portugal, já tem muito que contar aos outros gatos do nosso telhado...

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