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Ilustração de abertura da história «Porco é que não».

21 de Abril

Porco é que não

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

- Eu não sou porco - disse o porco, em voz forte e categórica .

- Então o que é? - perguntou o jornalista, aquele jornalista de microfone na mão, que anda sempre à cata de notícias e entrevistas sensacionais.

- Antes de mais sou um mamífero - precisou o porco.

- Isso já se sabia.

Não tem novidade - comentou o jornalista.

- Sou um mamífero artiodáctilo. Quer ver?

E o porco mostrou a patinha ao jornalista, um mimoso chispe de unha limpa:

- Artiodáctilo quer dizer de número par de dedos. Artros, em grego, par. Dactylos, dedo.

Era um porco sábio, estudioso das línguas mortas.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

E acrescentou:

- O senhor, por exemplo, não é artiodáctilo. Já viu?

O jornalista que, há muito, sabia contar pelos dedos, teve de reconhecer que entre ele e o porco havia diferenças. Mas insistiu:

- O javali também é artiodáctilo e não é porco.

- Um porcalhão esse meu primo!

Nunca se lava - indignou-se o porco.

- Então como é que você quer que o chamem?

O porco respirou fundo e disse do alto da sua importância:

- Há quem me trate por cerdo. Também me chamam chico...

- Chamam-no Chico? - admirou-se o jornalista.

- Não.

Chamam-me chico - emendou o porco. - Nas palavras cruzadas, dão-me o nome de tó. Estas duas letras dão sempre jeito.

O jornalista, que se tinha esquecido do gravador e do microfone, ia escrevendo, num bloco de notas, as declarações do chico tó.

- Qual prefere? - perguntou ele.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Com todo o rigor, a minha preferência vai para suíno, embora, mais familiarmente, possam tratar-me por reco ou até cochino.

- E bácoro? - perguntou o jornalista.

O porco fez uma careta.

- E gruim? - voltou à carga o jornalista.

Outra careta do porco.

- Acho pouco digno - respondeu ele.

- Então eu vou encimar a notícia acerca da nossa entrevista com o seguinte título: "SUÍNO DIZ QUE NÃO É PORCO". Acha bem?

O porco, perdão, o suíno grunhiu, cheio de importância, a sua aprovação.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

E a notícia veio nas páginas do jornal com o devido destaque. Serviram elas, dias depois, para embrulhar uns chouriços.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

- Eu não sou porco - disse o porco, em voz forte e categórica .

- Então o que é? - perguntou o jornalista, aquele jornalista de microfone na mão, que anda sempre à cata de notícias e entrevistas sensacionais.

- Antes de mais sou um mamífero - precisou o porco.

- Isso já se sabia.

Não tem novidade - comentou o jornalista.

- Sou um mamífero artiodáctilo. Quer ver?

E o porco mostrou a patinha ao jornalista, um mimoso chispe de unha limpa:

- Artiodáctilo quer dizer de número par de dedos. Artros, em grego, par. Dactylos, dedo.

Era um porco sábio, estudioso das línguas mortas.

E acrescentou:

- O senhor, por exemplo, não é artiodáctilo. Já viu?

O jornalista que, há muito, sabia contar pelos dedos, teve de reconhecer que entre ele e o porco havia diferenças. Mas insistiu:

- O javali também é artiodáctilo e não é porco.

- Um porcalhão esse meu primo!

Nunca se lava - indignou-se o porco.

- Então como é que você quer que o chamem?

O porco respirou fundo e disse do alto da sua importância:

- Há quem me trate por cerdo. Também me chamam chico...

- Chamam-no Chico? - admirou-se o jornalista.

- Não.

Chamam-me chico - emendou o porco. - Nas palavras cruzadas, dão-me o nome de tó. Estas duas letras dão sempre jeito.

O jornalista, que se tinha esquecido do gravador e do microfone, ia escrevendo, num bloco de notas, as declarações do chico tó.

- Qual prefere? - perguntou ele.

- Com todo o rigor, a minha preferência vai para suíno, embora, mais familiarmente, possam tratar-me por reco ou até cochino.

- E bácoro? - perguntou o jornalista.

O porco fez uma careta.

- E gruim? - voltou à carga o jornalista.

Outra careta do porco.

- Acho pouco digno - respondeu ele.

- Então eu vou encimar a notícia acerca da nossa entrevista com o seguinte título: "SUÍNO DIZ QUE NÃO É PORCO". Acha bem?

O porco, perdão, o suíno grunhiu, cheio de importância, a sua aprovação.

E a notícia veio nas páginas do jornal com o devido destaque. Serviram elas, dias depois, para embrulhar uns chouriços.

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