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Ilustração de abertura da história «Os Sapatos Novos do Senhor Túlio».

16 de Abril

Os Sapatos Novos do Senhor Túlio

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O senhor Túlio perdeu os sapatos novos que tinha comprado, na Feira de Almeirim. Mas o que é grave é que os perdeu depois de os ter calçado. E ainda mais grave é que os perdeu sem ter substitutos à mão. Isto é, ao pé. E ainda muitíssimo mais grave é que, depois que os perdeu, teve de voltar descalço para casa.

Isto conta-se bem. Contar não custa. Passar por esta trapalhada terá custado ao senhor Túlio muito mais.

Para começar custou-lhe o preço de uns bons sapatos de carneira. Contente por tê-los comprado e farto dos sapatos velhos, há que tempos a precisar de dobradas meias solas, deitou-os para a boca de um contentor do lixo. Deste gesto, mais tarde, muito se arrependeria.

Montado nos sapatos novos, foi à vida.

Cirandou por aqui e por ali, que uma feira tem sempre muito que ver, mas o raio dos butes, que a princípio lhe pareciam tão macios, começaram a morder-lhe os pés.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

À beira de um riacho, aliviou-se dos malditos, que lhe apertavam os joanetes, tirou as peúgas, arregaçou as calças, e foi refrescar os pés na aguinha corrente. Outros e outras, talvez aflitos como ele do afogo da carneira nova, tinham feito o mesmo.

Depois, cada um, velho ou novo, sentado na relva, secou-se ao sol, feliz e a acenar com os dedos dos pés desencontrados, como que a fazer gaifonas à água do riacho. Bem bom.

Na altura de calçar-se, deu por que os sapatos afinal lhe estavam folgados. Teriam engelhado os pés ou crescido os sapatos?

O senhor Túlio não sabia explicar a situação.

– Oiça lá, ó parceiro: quem lhe mandou calçar os meus sapatos? – disse-lhe um sujeito de grandes calcantes descalços, junto dele.

O senhor Túlio pediu desculpa do engano e devolveu o seu ao seu dono. Mas os dele, onde parariam? Não pararam, andaram. Calçados por pés enganados, sem ser por mal, os sapatos tinham abalado de vez.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Restava-lhe esperar que da confusão das trocas sobrasse para ele algum par, nem que muito usado. Mas não sobrou. Nem umas sandálias de plástico.

– Está visto que o tipo que os levou tinha quatro patas, o grande burro.

Ao senhor Túlio as indignações nunca duram muito. Como contei, no princípio, voltou para casa descalço. Mas a rir-se:

– Dantes, nem tamancos tinha. Eu era garoto e andava no pó, nas pedras e na lama, sempre de pés nus. Ganhei casco para a vida, foi o que foi. Mas, vai daí, depois, com o bom tratamento do calçado, os pés amoleceram. Pois que reaprendam e saibam quanto custou, para que não se esqueçam.

De tudo o senhor Túlio tira proveito da lição e até os seus próprios pés ele gosta de ensinar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

O senhor Túlio perdeu os sapatos novos que tinha comprado, na Feira de Almeirim. Mas o que é grave é que os perdeu depois de os ter calçado. E ainda mais grave é que os perdeu sem ter substitutos à mão. Isto é, ao pé. E ainda muitíssimo mais grave é que, depois que os perdeu, teve de voltar descalço para casa.

Isto conta-se bem. Contar não custa. Passar por esta trapalhada terá custado ao senhor Túlio muito mais.

Para começar custou-lhe o preço de uns bons sapatos de carneira. Contente por tê-los comprado e farto dos sapatos velhos, há que tempos a precisar de dobradas meias solas, deitou-os para a boca de um contentor do lixo. Deste gesto, mais tarde, muito se arrependeria.

Montado nos sapatos novos, foi à vida.

Cirandou por aqui e por ali, que uma feira tem sempre muito que ver, mas o raio dos butes, que a princípio lhe pareciam tão macios, começaram a morder-lhe os pés.

À beira de um riacho, aliviou-se dos malditos, que lhe apertavam os joanetes, tirou as peúgas, arregaçou as calças, e foi refrescar os pés na aguinha corrente. Outros e outras, talvez aflitos como ele do afogo da carneira nova, tinham feito o mesmo.

Depois, cada um, velho ou novo, sentado na relva, secou-se ao sol, feliz e a acenar com os dedos dos pés desencontrados, como que a fazer gaifonas à água do riacho. Bem bom.

Na altura de calçar-se, deu por que os sapatos afinal lhe estavam folgados. Teriam engelhado os pés ou crescido os sapatos?

O senhor Túlio não sabia explicar a situação.

– Oiça lá, ó parceiro: quem lhe mandou calçar os meus sapatos? – disse-lhe um sujeito de grandes calcantes descalços, junto dele.

O senhor Túlio pediu desculpa do engano e devolveu o seu ao seu dono. Mas os dele, onde parariam? Não pararam, andaram. Calçados por pés enganados, sem ser por mal, os sapatos tinham abalado de vez.

Restava-lhe esperar que da confusão das trocas sobrasse para ele algum par, nem que muito usado. Mas não sobrou. Nem umas sandálias de plástico.

– Está visto que o tipo que os levou tinha quatro patas, o grande burro.

Ao senhor Túlio as indignações nunca duram muito. Como contei, no princípio, voltou para casa descalço. Mas a rir-se:

– Dantes, nem tamancos tinha. Eu era garoto e andava no pó, nas pedras e na lama, sempre de pés nus. Ganhei casco para a vida, foi o que foi. Mas, vai daí, depois, com o bom tratamento do calçado, os pés amoleceram. Pois que reaprendam e saibam quanto custou, para que não se esqueçam.

De tudo o senhor Túlio tira proveito da lição e até os seus próprios pés ele gosta de ensinar.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

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