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Ilustração de abertura da história «As mazonas da Gata Borralheira».

14 de Abril

As mazonas da Gata Borralheira

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Não sei se foram convidados para o casamento da Gata Borralheira com o Príncipe, o tal que andou com um sapatinho na mão, à procura de pé que lhe servisse.

Esta história já conhecem bem. Eu, que até estive no casamento, não vou, agora, contá-la, porque não adiantava nada ao que já sabem.

Em contrapartida, posso contar o que aconteceu às duas mazonas, de cabeleiras desgrenhadas, que faziam a vida negra à pobre da Gata Borralheira.

Também as vi no casamento, mais compostas, aperaltadas , embora não conseguissem disfarçar a feiura e a inveja que sentiam por não ocuparem, elas, o lugar ao lado do Príncipe. Umas safadas incorrigíveis.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

No banquete, vingaram-se e comeram que nem umas desalmadas.

Claro que, no dia seguinte, estavam doentes, com dores no estômago e outros problemas que não merece a pena pormenorizar. Saiba-se que, além do resto, lhes tinha aparecido uma borbulhagem nos cotovelos ossudos e pontiagudos. Quanto mais os coçavam, mais comichão tinham.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Dor de cotovelo - diagnosticava o médico, chamado a vê-las. - É uma maleita rebelde, que custa muito a curar. Talvez com o tempo...

Pomadas e banhos nos cotovelos pouco alívio traziam. A doença delas não era da pele, mas abaixo da pele e da carga de ossos...

Nascia no sítio onde o coração palpita, mais depressa ou mais devagar, conforme o peso e a velocidade dos sentimentos.

Sentimentos? Onde é que elas os tinham? Nem coração.

Quando o médico, auscultando-as, deu por que as duas manas não tinham coração, percebeu tudo.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Elas são feitas de matéria maldosa e retorcida. Sem coração que as aqueça, a tendência é para piorarem - sentenciou o médico.

Mas onde é que se arranja um coração? E logo dois, dois corações disponíveis, tenros, ternos... Não é fácil.

O médico veio ter comigo:

- O senhor que escreve e inventa coisas e, ainda para mais, conhece bem o caso, é que podia ajudá-las.

De facto, se bem que eu não seja especialista do coração, tenho umas luzes. Não é para me gabar, mas passaram-me pelas mãos casos complicados, que, melhor ou pior, consegui resolver.

Heróis com coração demasiado outros com o coração ao pé da boca...

Do que me sobrou daqui e dali, amoldei dois pequenos corações vivazes, a transpirar meiguice. Preciosos maquinismos de relojoaria, batem certinhos, quando se lhes dá corda.

Colocá-los no peito das duas megeras foi o que menos custou.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Elas melhoraram a olhos vistos. A comichão nos cotovelos passou-lhes logo. Já sorriem, já perguntam pelos outros com verdadeiro interesse, já se enternecem, já se comovem.

A Gata Borralheira, muito boazinha, foi vê-las, um dia destes, mal regressou da viagem da lua-de-mel.

Elas lacrimejaram umas desculpas sentidas e ambas se ofereceram para madrinhas do primeiro filho que nascer da Gata Borralheira. A sério.

E estão mais felizes, mais luminosas. Até conseguem estar bonitas.

Não podemos é esquecer-nos de, todos os dias, dar-lhes corda ao coração.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para As mazonas da Gata Borralheira
Ilustração original recuperada

Não sei se foram convidados para o casamento da Gata Borralheira com o Príncipe, o tal que andou com um sapatinho na mão, à procura de pé que lhe servisse.

Esta história já conhecem bem. Eu, que até estive no casamento, não vou, agora, contá-la, porque não adiantava nada ao que já sabem.

Em contrapartida, posso contar o que aconteceu às duas mazonas, de cabeleiras desgrenhadas, que faziam a vida negra à pobre da Gata Borralheira.

Também as vi no casamento, mais compostas, aperaltadas , embora não conseguissem disfarçar a feiura e a inveja que sentiam por não ocuparem, elas, o lugar ao lado do Príncipe. Umas safadas incorrigíveis.

No banquete, vingaram-se e comeram que nem umas desalmadas.

Claro que, no dia seguinte, estavam doentes, com dores no estômago e outros problemas que não merece a pena pormenorizar. Saiba-se que, além do resto, lhes tinha aparecido uma borbulhagem nos cotovelos ossudos e pontiagudos. Quanto mais os coçavam, mais comichão tinham.

- Dor de cotovelo - diagnosticava o médico, chamado a vê-las. - É uma maleita rebelde, que custa muito a curar. Talvez com o tempo...

Pomadas e banhos nos cotovelos pouco alívio traziam. A doença delas não era da pele, mas abaixo da pele e da carga de ossos...

Nascia no sítio onde o coração palpita, mais depressa ou mais devagar, conforme o peso e a velocidade dos sentimentos.

Sentimentos? Onde é que elas os tinham? Nem coração.

Quando o médico, auscultando-as, deu por que as duas manas não tinham coração, percebeu tudo.

- Elas são feitas de matéria maldosa e retorcida. Sem coração que as aqueça, a tendência é para piorarem - sentenciou o médico.

Mas onde é que se arranja um coração? E logo dois, dois corações disponíveis, tenros, ternos... Não é fácil.

O médico veio ter comigo:

- O senhor que escreve e inventa coisas e, ainda para mais, conhece bem o caso, é que podia ajudá-las.

De facto, se bem que eu não seja especialista do coração, tenho umas luzes. Não é para me gabar, mas passaram-me pelas mãos casos complicados, que, melhor ou pior, consegui resolver.

Heróis com coração demasiado outros com o coração ao pé da boca...

Do que me sobrou daqui e dali, amoldei dois pequenos corações vivazes, a transpirar meiguice. Preciosos maquinismos de relojoaria, batem certinhos, quando se lhes dá corda.

Colocá-los no peito das duas megeras foi o que menos custou.

Elas melhoraram a olhos vistos. A comichão nos cotovelos passou-lhes logo. Já sorriem, já perguntam pelos outros com verdadeiro interesse, já se enternecem, já se comovem.

A Gata Borralheira, muito boazinha, foi vê-las, um dia destes, mal regressou da viagem da lua-de-mel.

Elas lacrimejaram umas desculpas sentidas e ambas se ofereceram para madrinhas do primeiro filho que nascer da Gata Borralheira. A sério.

E estão mais felizes, mais luminosas. Até conseguem estar bonitas.

Não podemos é esquecer-nos de, todos os dias, dar-lhes corda ao coração.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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