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Ilustração de abertura da história «No tempo dos mosqueteiros».

7 de Abril

No tempo dos mosqueteiros

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Confidenciava o Joca ao avô:

- Gostava de ter vivido no tempo dos homens das espadas...

Isto dito depois de ambos terem visto um filme daqueles de espadachins de bigodes eriçados, capa ao vento e chapéus emplumados. Fervia a espadeirada por pátios, corredores, salões, escadarias de palácios intermináveis.

A meio dos duelos, gritavam: "À fé de quem sou que vos hei-de trespassar, tratante !" E, enquanto não davam conta dos vilões bandidos, os mosqueteiros decepavam velas, fendiam cadeirões, estilhaçavam jarras, rasgavam cortinados. O Joca saltava da cadeira, entusiasmado. Quem lhe dera ser um deles!

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Já o avô não partilhava da mesma opinião:

- Se vivesses nesse tempo, havia coisas com que não podias contar. Olha, por exemplo, automóveis...

- Bá. Não me importava. Andava a cavalo.

- Pois. Talvez sim - reconheceu o avô. - Mas havia outros inconvenientes...

- Quais?

O avô estendeu os dedos da mão esquerda e pôs-se a enumerar:

- Naquele tempo, não havia playstations nem cinema nem televisão nem telemóveis e, sobretudo, os cuidados de saúde deixavam muito a desejar.

Se alguém tinha febre, recomendavam-lhe que se metesse dentro de uma tina de água gelada, para fazer baixar a temperatura.

O Joca arrepiou-se.

- Por tudo e por nada, a ordem do médico era: "Sangrem-no!"

O Joca ainda mais se arrepiou.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- É que tu tens de perceber que, naquela época, ainda não tinham sido descobertos os remédios, hoje correntes.

- E já havia doenças? - perguntou o Joca.

O avô sorriu:

- As mesmas que há agora e mais ainda, mas estava-se, completamente, às escuras sobre as causas que provocavam essas doenças.

Não havia antibióticos. Não havia vacinas. A propósito: tu sabes quem foi Pasteur?

O Joca não sabia. Se vocês também não sabem, deixem-me que seja eu a fazer as vezes do avô do Joca. Ora tomem atenção.

Luís Pasteur foi um notável cientista francês, que revolucionou a Medicina, a partir dos meados do século dezanove, isto é, desde há cerca de cento e cinquenta anos.

Neste passo, o Joca terá dito:

- Já sei, avô. Foi ele que "inventou" os micróbios.

Talvez fosse melhor que o Joca tivesse ficado calado... De facto, microrganismos invisíveis a olho nu sempre existiram. O que o Pasteur provou foi que estes minúsculos seres em suspensão no ar eram responsáveis pelo aparecimento e transmissão das mais diversas doenças.

Hoje, qualquer pessoa fala de micróbios, bacilos, bactérias. Dantes, à falta de microscópios potentes que os comprovassem, só deles se tinha conhecimento pelos seus efeitos.

No Sul de França grassara uma doença que punha em risco as culturas dos bichos-da-seda. Os fabricantes de seda de Lyon punham as mãos à cabeça, já se vendo na ruína.

Chamado a investigar a causa, Pasteur isolou as bactérias portadoras da enfermidade , impediu o contágio e salvou a indústria.

Outras epidemias animais foram por ele estudadas e combatidas, graças a um método experimental que consistia em tornar inofensivo o bacilo que provocava a doença.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Era como se conseguisse, quimicamente, tirar-lhe a violência e a perigosidade e torná-lo pacífico, a ponto de combater e eliminar os bacilos violentos que atacavam o organismo.

- O bandido tornava-se mosqueteiro do rei - comparava o Joca, desta feita com muito acerto.

Uma vez, Pasteur foi chamado de urgência, em socorro de uma criança que tinha sido mordida por um cão raivoso. O seu destino seria uma morte atroz.

Pasteur nunca tinha experimentado a vacina contra a raiva em seres humanos, mas não hesitou. E o menino salvou-se.

Tempos perigosos esses...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Afinal, já não queria viver no tempo dos mosqueteiros - suspirou o Joca, depois de ouvir os esclarecimentos do avô.

Não nos custa a ter a mesma opinião.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para No tempo dos mosqueteiros
Ilustração original recuperada

Confidenciava o Joca ao avô:

- Gostava de ter vivido no tempo dos homens das espadas...

Isto dito depois de ambos terem visto um filme daqueles de espadachins de bigodes eriçados, capa ao vento e chapéus emplumados. Fervia a espadeirada por pátios, corredores, salões, escadarias de palácios intermináveis.

A meio dos duelos, gritavam: "À fé de quem sou que vos hei-de trespassar, tratante !" E, enquanto não davam conta dos vilões bandidos, os mosqueteiros decepavam velas, fendiam cadeirões, estilhaçavam jarras, rasgavam cortinados. O Joca saltava da cadeira, entusiasmado. Quem lhe dera ser um deles!

Já o avô não partilhava da mesma opinião:

- Se vivesses nesse tempo, havia coisas com que não podias contar. Olha, por exemplo, automóveis...

- Bá. Não me importava. Andava a cavalo.

- Pois. Talvez sim - reconheceu o avô. - Mas havia outros inconvenientes...

- Quais?

O avô estendeu os dedos da mão esquerda e pôs-se a enumerar:

- Naquele tempo, não havia playstations nem cinema nem televisão nem telemóveis e, sobretudo, os cuidados de saúde deixavam muito a desejar.

Se alguém tinha febre, recomendavam-lhe que se metesse dentro de uma tina de água gelada, para fazer baixar a temperatura.

O Joca arrepiou-se.

- Por tudo e por nada, a ordem do médico era: "Sangrem-no!"

O Joca ainda mais se arrepiou.

- É que tu tens de perceber que, naquela época, ainda não tinham sido descobertos os remédios, hoje correntes.

- E já havia doenças? - perguntou o Joca.

O avô sorriu:

- As mesmas que há agora e mais ainda, mas estava-se, completamente, às escuras sobre as causas que provocavam essas doenças.

Não havia antibióticos. Não havia vacinas. A propósito: tu sabes quem foi Pasteur?

O Joca não sabia. Se vocês também não sabem, deixem-me que seja eu a fazer as vezes do avô do Joca. Ora tomem atenção.

Luís Pasteur foi um notável cientista francês, que revolucionou a Medicina, a partir dos meados do século dezanove, isto é, desde há cerca de cento e cinquenta anos.

Neste passo, o Joca terá dito:

- Já sei, avô. Foi ele que "inventou" os micróbios.

Talvez fosse melhor que o Joca tivesse ficado calado... De facto, microrganismos invisíveis a olho nu sempre existiram. O que o Pasteur provou foi que estes minúsculos seres em suspensão no ar eram responsáveis pelo aparecimento e transmissão das mais diversas doenças.

Hoje, qualquer pessoa fala de micróbios, bacilos, bactérias. Dantes, à falta de microscópios potentes que os comprovassem, só deles se tinha conhecimento pelos seus efeitos.

No Sul de França grassara uma doença que punha em risco as culturas dos bichos-da-seda. Os fabricantes de seda de Lyon punham as mãos à cabeça, já se vendo na ruína.

Chamado a investigar a causa, Pasteur isolou as bactérias portadoras da enfermidade , impediu o contágio e salvou a indústria.

Outras epidemias animais foram por ele estudadas e combatidas, graças a um método experimental que consistia em tornar inofensivo o bacilo que provocava a doença.

Era como se conseguisse, quimicamente, tirar-lhe a violência e a perigosidade e torná-lo pacífico, a ponto de combater e eliminar os bacilos violentos que atacavam o organismo.

- O bandido tornava-se mosqueteiro do rei - comparava o Joca, desta feita com muito acerto.

Uma vez, Pasteur foi chamado de urgência, em socorro de uma criança que tinha sido mordida por um cão raivoso. O seu destino seria uma morte atroz.

Pasteur nunca tinha experimentado a vacina contra a raiva em seres humanos, mas não hesitou. E o menino salvou-se.

Tempos perigosos esses...

- Afinal, já não queria viver no tempo dos mosqueteiros - suspirou o Joca, depois de ouvir os esclarecimentos do avô.

Não nos custa a ter a mesma opinião.

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