5 de Abril
A Tina aflita
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
A Tina não tem tino . Coisas que se dizem e se espalham, sem quê nem porquê. Serão verdade? Serão mentira? Eu cá não respondo.
Sucedeu, uma vez, que a Tina, acabada de chegar da escola, ainda afogueada da corrida, recebeu da mãe esta incumbência :
- Vai, se fazes favor, buscar a tua irmã a casa da avó.
- Levo o carrinho? - perguntou a Tina, que gostava de guiar cadeirinhas de bebé.
A mãe disse que sim e a Tina desarvorou, empurrando o carrinho, que ia leve, muito leve, como se imagina.
Não era grande a distância. A Tina pôs-se num instante em casa da avó.
Pegou na irmãzinha, que palrava e ria, contente com a viagem que a esperava e voltou pelo mesmo caminho.
Ao passar por um jardim, umas amigas da Tina desafiaram-na para o jogo do apanha. Convite irresistível.
A Tina colocou a cadeirinha com a bebé à sombra de uma grande piteira e foi brincar. Até que se fartou.
Suada e cansada, voltou ao sítio onde deixara a bebé. Sentiu um baque no coração. A irmã? Onde estava a irmã?
Nem bebé nem cadeira de bebé. Muito aflita, pôs-se a chamar:
- Filipa! Filipa! - como se a bebé soubesse responder-lhe.
Olhou em volta e viu, lá adiante, uma senhora apressada, a empurrar uma cadeirinha. Levava-lhe a irmã, a grande ladra. Patifa.
Correu, correu e quando chegou perto da senhora, agarrou-lhe a aba do casaco e gritou:
- A minha irmã. Dê-me a minha irmã.
A senhora também gritou, a desembaraçar-se daquela miúda desgrenhada, que não se despegava dela.
Na cadeira de bebé, um garotinho de olhos espantados a tudo assistia. Quando percebeu o engano, a Tina fugiu, sem saber como pedir desculpa.
Percorreu o jardim de ponta a ponta. Chorava. Por situações destas ninguém queira passar.
Um guarda apercebeu-se do desespero da mocinha e quis inteirar-se da causa.
- Roubaram-me a irmã - contou a Tina, desfeita em lágrimas.
- Donde? - perguntou o guarda.
A Tina indicou. Voltaram para junto da piteira e, efectivamente, do carrinho e da bebé nem rastos.
- Mas há outra piteira igual, mais adiante - apontou o guarda.
Foram ver. Lá estava a Filipa, tranquilamente a dormir, na cadeirinha.
Afinal, a Tina tinha confundido as piteiras, ambas grandes, ambas da mesma cor, ambas com asas de dragão. A cadeirinha nunca tinha saído do mesmo sítio. Ninguém raptara a bebé.
A Tina abraçou-se à irmã, a chorar. A bebé sentiu-se apertada e também chorou. Até o senhor guarda se comoveu.
Por mais anos que viva, por mais tino que ganhe, a Tina nunca mais vai esquecer-se do que naquela tarde lhe aconteceu.
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
A Tina não tem tino . Coisas que se dizem e se espalham, sem quê nem porquê. Serão verdade? Serão mentira? Eu cá não respondo.
Sucedeu, uma vez, que a Tina, acabada de chegar da escola, ainda afogueada da corrida, recebeu da mãe esta incumbência :
- Vai, se fazes favor, buscar a tua irmã a casa da avó.
- Levo o carrinho? - perguntou a Tina, que gostava de guiar cadeirinhas de bebé.
A mãe disse que sim e a Tina desarvorou, empurrando o carrinho, que ia leve, muito leve, como se imagina.
Não era grande a distância. A Tina pôs-se num instante em casa da avó.
Pegou na irmãzinha, que palrava e ria, contente com a viagem que a esperava e voltou pelo mesmo caminho.
Ao passar por um jardim, umas amigas da Tina desafiaram-na para o jogo do apanha. Convite irresistível.
A Tina colocou a cadeirinha com a bebé à sombra de uma grande piteira e foi brincar. Até que se fartou.
Suada e cansada, voltou ao sítio onde deixara a bebé. Sentiu um baque no coração. A irmã? Onde estava a irmã?
Nem bebé nem cadeira de bebé. Muito aflita, pôs-se a chamar:
- Filipa! Filipa! - como se a bebé soubesse responder-lhe.
Olhou em volta e viu, lá adiante, uma senhora apressada, a empurrar uma cadeirinha. Levava-lhe a irmã, a grande ladra. Patifa.
Correu, correu e quando chegou perto da senhora, agarrou-lhe a aba do casaco e gritou:
- A minha irmã. Dê-me a minha irmã.
A senhora também gritou, a desembaraçar-se daquela miúda desgrenhada, que não se despegava dela.
Na cadeira de bebé, um garotinho de olhos espantados a tudo assistia. Quando percebeu o engano, a Tina fugiu, sem saber como pedir desculpa.
Percorreu o jardim de ponta a ponta. Chorava. Por situações destas ninguém queira passar.
Um guarda apercebeu-se do desespero da mocinha e quis inteirar-se da causa.
- Roubaram-me a irmã - contou a Tina, desfeita em lágrimas.
- Donde? - perguntou o guarda.
A Tina indicou. Voltaram para junto da piteira e, efectivamente, do carrinho e da bebé nem rastos.
- Mas há outra piteira igual, mais adiante - apontou o guarda.
Foram ver. Lá estava a Filipa, tranquilamente a dormir, na cadeirinha.
Afinal, a Tina tinha confundido as piteiras, ambas grandes, ambas da mesma cor, ambas com asas de dragão. A cadeirinha nunca tinha saído do mesmo sítio. Ninguém raptara a bebé.
A Tina abraçou-se à irmã, a chorar. A bebé sentiu-se apertada e também chorou. Até o senhor guarda se comoveu.
Por mais anos que viva, por mais tino que ganhe, a Tina nunca mais vai esquecer-se do que naquela tarde lhe aconteceu.
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