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Ilustração de abertura da história «Uma História Verdadeira».

28 de Março

Uma História Verdadeira

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Quem conta esta história é o nosso amigo Flávio.

"Eu e o Marcelino somos muito amigos. Temos quase a mesma idade, gostamos das mesmas coisas, jogamos sempre pela mesma equipa, conversamos muito. Na aula, desde o primeiro ano que somos companheiros.

Embora, como disse, o Marcelino tenha quase a mesma idade que eu, às vezes, parece muito mais velho. Explicaram-me, em minha casa, que isto tem a sua razão de ser. É que ele é o mais velho de sete irmãos e, como se imagina, numa família tão numerosa, as responsabilidades têm de ser repartidas pelos filhos mais crescidos. Por isso, o Marcelino, uma vez por outra, precisa de pedir dispensa ou porque ficou a tomar conta dos irmãos pequenos ou porque está um doente ou por outros motivos assim. Confessa estas coisas ao professor, com simplicidade, e o professor dá-lhe sempre razão. Bem se importa o Marcelino que riam, zombeteiros e idiotas, os da fila de trás, comandados pelo Janeca.

Como calculam, o Marcelino não é um menino rico. Os pais vivem com dificuldades e por isso o Marcelino anda, no dizer pedante do Janeca, 'imensamente mal vestido'. O blusão está-lhe curto, a camisa tem um ou outro ponto, a disfarçar princípio de rasgão, e as calças já cresceram tudo o que tinham a crescer... Os sapatos não destoam. Grandes e cambados, não impedem, no entanto, o Marcelino de correr. E que bem que corre com eles o Marcelino!

Pois, no outro dia, o meu amigo apareceu com sapatos novos. Dava-se logo por isso, tanto mais que as calças e o blusão eram os mesmos de sempre. Eu não fiz comentários, mas alguns colegas repararam e, entre eles, o Janeca que, depois de muito o mirar, lhe disse assim, brutalmente:

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– Esses sapatos são meus.

Houve rebuliço. O Marcelino, corando, explicou que aqueles sapatos tinham sido dados à mãe dele por uma senhora, que morava numa determinada rua. E indicou o nome da rua e o nome da senhora.

– É a minha mãe! – exclamou o Janeca, que se chama, de facto, Gilberto. – Bem razão tinha eu em dizer que os sapatos me pertenciam. Estavam-me muito apertados e nunca mais os quis. Ora vejam só quem ficou a ganhar...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

E ria-se, ria-se muito da sua descoberta.

– Com que então com os meus sapatos, seu felizardo! – continuava o Gilberto. – Estás cheio de sorte...

Talvez nunca mais se calasse, se o Marcelino, de dentes cerrados, não tivesse feito o que fez. Perante o espanto de toda a turma reunida à volta, o meu amigo desapertou os sapatos e atirou-os ao Janeca, que ficou com cara de parvo. Entretanto, a campainha começou a tocar para a aula.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– Porque é que estás descalço? – perguntou-lhe o professor.

Ninguém se riu. Ninguém tinha vontade de rir. Então eu, discretamente, passei-lhe os meus sapatos de ginástica.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

No dia seguinte, o Marcelino voltou à escola com os velhos sapatos bambos."

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Quem conta esta história é o nosso amigo Flávio.

"Eu e o Marcelino somos muito amigos. Temos quase a mesma idade, gostamos das mesmas coisas, jogamos sempre pela mesma equipa, conversamos muito. Na aula, desde o primeiro ano que somos companheiros.

Embora, como disse, o Marcelino tenha quase a mesma idade que eu, às vezes, parece muito mais velho. Explicaram-me, em minha casa, que isto tem a sua razão de ser. É que ele é o mais velho de sete irmãos e, como se imagina, numa família tão numerosa, as responsabilidades têm de ser repartidas pelos filhos mais crescidos. Por isso, o Marcelino, uma vez por outra, precisa de pedir dispensa ou porque ficou a tomar conta dos irmãos pequenos ou porque está um doente ou por outros motivos assim. Confessa estas coisas ao professor, com simplicidade, e o professor dá-lhe sempre razão. Bem se importa o Marcelino que riam, zombeteiros e idiotas, os da fila de trás, comandados pelo Janeca.

Como calculam, o Marcelino não é um menino rico. Os pais vivem com dificuldades e por isso o Marcelino anda, no dizer pedante do Janeca, 'imensamente mal vestido'. O blusão está-lhe curto, a camisa tem um ou outro ponto, a disfarçar princípio de rasgão, e as calças já cresceram tudo o que tinham a crescer... Os sapatos não destoam. Grandes e cambados, não impedem, no entanto, o Marcelino de correr. E que bem que corre com eles o Marcelino!

Pois, no outro dia, o meu amigo apareceu com sapatos novos. Dava-se logo por isso, tanto mais que as calças e o blusão eram os mesmos de sempre. Eu não fiz comentários, mas alguns colegas repararam e, entre eles, o Janeca que, depois de muito o mirar, lhe disse assim, brutalmente:

– Esses sapatos são meus.

Houve rebuliço. O Marcelino, corando, explicou que aqueles sapatos tinham sido dados à mãe dele por uma senhora, que morava numa determinada rua. E indicou o nome da rua e o nome da senhora.

– É a minha mãe! – exclamou o Janeca, que se chama, de facto, Gilberto. – Bem razão tinha eu em dizer que os sapatos me pertenciam. Estavam-me muito apertados e nunca mais os quis. Ora vejam só quem ficou a ganhar...

E ria-se, ria-se muito da sua descoberta.

– Com que então com os meus sapatos, seu felizardo! – continuava o Gilberto. – Estás cheio de sorte...

Talvez nunca mais se calasse, se o Marcelino, de dentes cerrados, não tivesse feito o que fez. Perante o espanto de toda a turma reunida à volta, o meu amigo desapertou os sapatos e atirou-os ao Janeca, que ficou com cara de parvo. Entretanto, a campainha começou a tocar para a aula.

– Porque é que estás descalço? – perguntou-lhe o professor.

Ninguém se riu. Ninguém tinha vontade de rir. Então eu, discretamente, passei-lhe os meus sapatos de ginástica.

No dia seguinte, o Marcelino voltou à escola com os velhos sapatos bambos."

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

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