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Ilustração de abertura da história «O sonho do rei».

6 de Março

O sonho do rei

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Há mais de dois milhares de anos que aconteceu esta história ou outra parecida com a que eu vou contar. Milhares de anos depois, vai-se lá saber.

O rei Nabucodonosor, imperador dos caldeus, senhor da Babilónia, conquistador do Líbano, dominador da Fenícia, protector da Judeia, cobria com o seu manto e mando meio mundo. Ou quase...

Os muitos escravos, que trouxera das suas expedições guerreiras, eram a sua ostentação , quando o cortejo real percorria as ruas e alamedas da Babilónia, ladeadas de lanças, ramos de palmeiras e aclamações. Escolhera-os um por um, de entre os mais jovens, nobres e bem parecidos. Vestidos com túnicas debruadas a ouro, pareciam príncipes. Mas eram escravos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um deles, proveniente da Judeia, chamava-se Daniel. Os companheiros devotavam-lhe uma grande amizade e respeitavam-no como o melhor de todos, porque ele era o mais inteligente e o mais generoso.

Aconteceu que, numa manhã tempestuosa, o rei acordou em cólera. Tinha tido um sonho esquisito e apavorante, que se desvanecera, à luz do dia. Do que tratava? Donde viera? Como findara? Do que tratava? Donde viera? Como findara? O rei tentava a todo o custo recordar-se, mas sem êxito.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Estava convencido que o sonho lhe trazia um aviso urgente. Mas qual? Por mais esforços que fizesse, o rei não conseguia lembrar-se.

Mandou chamar os sábios do reino e exigiu-lhes:

- Digam-me que sonho sonhei, na noite passada, e o que significa.

Por mais sábio que se seja, ninguém pode adivinhar os sonhos alheios. Foi isto, tal e qual, o que disseram os sábios.

Enfureceu-se o rei:

- Mando cortar-vos a cabeça se até amanhã, ao raiar do sol, não descobrirem a charada do meu sonho.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Os sábios saíram dos aposentos do rei, de cabeça baixa, como se já a oferecessem ao machado do carrasco.

Durante o dia, não se falou de outra coisa no palácio.

Daniel, condoído com os velhos sábios, pediu ao Deus da sua crença que lhe iluminasse o sono com um sonho igual ao do rei.

Na madrugada seguinte, Daniel, mal acordou, pediu para ser recebido por Nabucodonosor. Trazia-lhe o sonho para contar.

- Vós vistes no vosso sonho uma estátua colossal - começou Daniel.

- Sim, agora me recordo que era uma estátua de um tamanho nunca visto - reconheceu o rei, cheio de atenção.

Daniel prosseguiu:

- O colosso tinha a cabeça moldada em ouro maciço, os braços e o peito eram de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro e os pés...

- ... de barro! - exclamou o rei, dando uma pancada na testa. - Agora me lembro que atiraram uma pedra à estátua.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A pedra caiu nos pés de barro, que se partiram em cacos. A estátua vacilou e desmoronou-se no chão. E depois?

Daniel concluiu o sonho:

- Depois, o ouro, a prata, o ferro e o bronze despedaçaram-se e desfizeram-se em pó, que o vento varreu.

Nada valeu à gigantesca estátua, porque tinha pés de barro...

- O que é que me quis anunciar o sonho? - indagou, com voz trémula, Nabucodonosor.

- Grande e nobre rei, senhor de um império colossal, o sonho anunciou-te o que tu já pressentiste. Todo o poder tem pés de barro. Toda a grandeza é perecível . Toda a majestade há-de transformar-se em pó.

Nabucodonosor despediu com um gesto o escravo Daniel e escondeu a cabeça debaixo do manto, apavorado. Pela primeira vez na vida teve medo de ser rei.

Não conta a história se a lição lhe serviu para o resto do seu reinado, mas é de crer que sim.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O sonho do rei
Ilustração original recuperada

Há mais de dois milhares de anos que aconteceu esta história ou outra parecida com a que eu vou contar. Milhares de anos depois, vai-se lá saber.

O rei Nabucodonosor, imperador dos caldeus, senhor da Babilónia, conquistador do Líbano, dominador da Fenícia, protector da Judeia, cobria com o seu manto e mando meio mundo. Ou quase...

Os muitos escravos, que trouxera das suas expedições guerreiras, eram a sua ostentação , quando o cortejo real percorria as ruas e alamedas da Babilónia, ladeadas de lanças, ramos de palmeiras e aclamações. Escolhera-os um por um, de entre os mais jovens, nobres e bem parecidos. Vestidos com túnicas debruadas a ouro, pareciam príncipes. Mas eram escravos.

Um deles, proveniente da Judeia, chamava-se Daniel. Os companheiros devotavam-lhe uma grande amizade e respeitavam-no como o melhor de todos, porque ele era o mais inteligente e o mais generoso.

Aconteceu que, numa manhã tempestuosa, o rei acordou em cólera. Tinha tido um sonho esquisito e apavorante, que se desvanecera, à luz do dia. Do que tratava? Donde viera? Como findara? Do que tratava? Donde viera? Como findara? O rei tentava a todo o custo recordar-se, mas sem êxito.

Estava convencido que o sonho lhe trazia um aviso urgente. Mas qual? Por mais esforços que fizesse, o rei não conseguia lembrar-se.

Mandou chamar os sábios do reino e exigiu-lhes:

- Digam-me que sonho sonhei, na noite passada, e o que significa.

Por mais sábio que se seja, ninguém pode adivinhar os sonhos alheios. Foi isto, tal e qual, o que disseram os sábios.

Enfureceu-se o rei:

- Mando cortar-vos a cabeça se até amanhã, ao raiar do sol, não descobrirem a charada do meu sonho.

Os sábios saíram dos aposentos do rei, de cabeça baixa, como se já a oferecessem ao machado do carrasco.

Durante o dia, não se falou de outra coisa no palácio.

Daniel, condoído com os velhos sábios, pediu ao Deus da sua crença que lhe iluminasse o sono com um sonho igual ao do rei.

Na madrugada seguinte, Daniel, mal acordou, pediu para ser recebido por Nabucodonosor. Trazia-lhe o sonho para contar.

- Vós vistes no vosso sonho uma estátua colossal - começou Daniel.

- Sim, agora me recordo que era uma estátua de um tamanho nunca visto - reconheceu o rei, cheio de atenção.

Daniel prosseguiu:

- O colosso tinha a cabeça moldada em ouro maciço, os braços e o peito eram de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro e os pés...

- ... de barro! - exclamou o rei, dando uma pancada na testa. - Agora me lembro que atiraram uma pedra à estátua.

A pedra caiu nos pés de barro, que se partiram em cacos. A estátua vacilou e desmoronou-se no chão. E depois?

Daniel concluiu o sonho:

- Depois, o ouro, a prata, o ferro e o bronze despedaçaram-se e desfizeram-se em pó, que o vento varreu.

Nada valeu à gigantesca estátua, porque tinha pés de barro...

- O que é que me quis anunciar o sonho? - indagou, com voz trémula, Nabucodonosor.

- Grande e nobre rei, senhor de um império colossal, o sonho anunciou-te o que tu já pressentiste. Todo o poder tem pés de barro. Toda a grandeza é perecível . Toda a majestade há-de transformar-se em pó.

Nabucodonosor despediu com um gesto o escravo Daniel e escondeu a cabeça debaixo do manto, apavorado. Pela primeira vez na vida teve medo de ser rei.

Não conta a história se a lição lhe serviu para o resto do seu reinado, mas é de crer que sim.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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