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Ilustração de abertura da história «O queixo queixoso».

5 de Março

O queixo queixoso

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Queixou-se o queixo de que era pouco para o tamanho do nariz.

- Ele lá à frente, o presunçoso , e eu cá atrás, quase a ser engolido pelo pescoço.

- Corta-se o nariz - riu-se a boca, uma desbocada.

Os olhos reprovaram. O nariz, a bem dizer, pertencia-lhes.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Direccionava-lhes o olhar, era um prolongamento muito conveniente da testa e, no vértice das sobrancelhas espessas, ficava bem a quilha de um nariz como proa de navio. Indispensável e quanto maior melhor. Até porque, faltando o nariz, onde é que se apoiavam os óculos?

- O queixo, se acha que é pouco que puxe por ele.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Puxe e repuxe, pode ser que cresça - dizia a boca, sempre a rir-se.

Ele bem tentava, mas a natureza não correspondia. Era um queixo curto, que se havia de fazer! E mais curto se sentia, dado o tamanho do nariz.

- Se fosse ao contrário era pior.

Um narizinho minúsculo e uma queixada redonda e grossa que nem um joelho isso é que era horrível - dizia a boca, que não parava de falar.

A mão deu-lhe uma palmada, para que se calasse. Não se aturava. Nem podia uma pessoa pensar à vontade.

Cofiando o pequeno queixo, a pensativa mão teve uma ideia. Fez uma festa à volta do rosto, a medir a extensão do seu projecto. O rosto respondeu-lhe com o áspero ruído de uma barba por escanhoar . Como lixa.

- Entendo - disse a boca. - Vais deixar crescer a barba.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Assim aconteceu. A barba densamente cresceu como um tufo de cedro, a tapar um muro baixo. Já ninguém podia dizer que o queixo era pequeno, em comparação com o nariz. Disfarçado pela barba, era um queixo de todo o respeito.

E o queixo deixou de queixar-se.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O queixo queixoso
Ilustração original recuperada

Queixou-se o queixo de que era pouco para o tamanho do nariz.

- Ele lá à frente, o presunçoso , e eu cá atrás, quase a ser engolido pelo pescoço.

- Corta-se o nariz - riu-se a boca, uma desbocada.

Os olhos reprovaram. O nariz, a bem dizer, pertencia-lhes.

Direccionava-lhes o olhar, era um prolongamento muito conveniente da testa e, no vértice das sobrancelhas espessas, ficava bem a quilha de um nariz como proa de navio. Indispensável e quanto maior melhor. Até porque, faltando o nariz, onde é que se apoiavam os óculos?

- O queixo, se acha que é pouco que puxe por ele.

Puxe e repuxe, pode ser que cresça - dizia a boca, sempre a rir-se.

Ele bem tentava, mas a natureza não correspondia. Era um queixo curto, que se havia de fazer! E mais curto se sentia, dado o tamanho do nariz.

- Se fosse ao contrário era pior.

Um narizinho minúsculo e uma queixada redonda e grossa que nem um joelho isso é que era horrível - dizia a boca, que não parava de falar.

A mão deu-lhe uma palmada, para que se calasse. Não se aturava. Nem podia uma pessoa pensar à vontade.

Cofiando o pequeno queixo, a pensativa mão teve uma ideia. Fez uma festa à volta do rosto, a medir a extensão do seu projecto. O rosto respondeu-lhe com o áspero ruído de uma barba por escanhoar . Como lixa.

- Entendo - disse a boca. - Vais deixar crescer a barba.

Assim aconteceu. A barba densamente cresceu como um tufo de cedro, a tapar um muro baixo. Já ninguém podia dizer que o queixo era pequeno, em comparação com o nariz. Disfarçado pela barba, era um queixo de todo o respeito.

E o queixo deixou de queixar-se.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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