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Ilustração de abertura da história «O romeiro, o vento e o sol».

4 de Março

O romeiro, o vento e o sol

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Consegue-se às boas, mansamente, o que não se consegue a mal, à força, de repelão. A melodia de uma flauta abre mais janelas do que uma trovoada.

Vou exemplificar.

O Senhor Vento e o Senhor Sol, lá do seu miradoiro, observam o que se passa cá em baixo. Os dois dispensam binóculos.

Estavam eles entretidos, na sua quadrilhice de varanda, quando viram um romeiro, daqueles que percorrem a pé os caminhos que vão dar à galega Compostela.

Ia de chapeirão e larga capa, que o cobria até aos pés.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Nodoso cajado de ajudar às subidas, um saquitel ao ombro e a cabaça à cintura, para o vinho que aquece, eis o quadro completo do devoto de São Tiago, o Apóstolo, com catedral famosa na cidade de Compostela.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Aquele, ali, todo embiocado , que nem se percebe quem será, se é velho, se é novo, se é loiro, se moreno, está a irritar-me - disse o Senhor Vento, muito dado a caprichos.

- Aposto que é novo e moreno - disse o Senhor Sol, por desfastio .

- Pois eu acho o contrário. O homem é velho e branco de cabelo, que já foi loiro - apostou o Senhor Vento. Mas já vamos ver isso. Eu sopro com toda a força e descubro-o.

- Aposto que não resulta - contrapôs o Senhor Sol, divertido com o passatempo.

Levantou-se uma ventania de dobrar as árvores. O romeiro fincou-se ao cajado, puxou o chapéu para a cara e apertou a capa. Por mais que o Senhor Vento soprasse não houve meio de derrotar o viandante .

- Primeira aposta perdida - riu-se o Senhor Sol.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ele a rir e seus raios a brilharem com mais alegria e calor. O Senhor Sol arredou umas nuvenzitas e concentrou toda a sua atenção sobre o romeiro, que seguia estrada fora, no passo firme de quem não pode faltar ao encontro. Santiago esperava-o. Mas andar à torreira do sol cansa. O romeiro começou por abrir a capa, depois dispensou-a e dobrada pô-la ao ombro.

O Senhor Sol não o largava.

À beira de uma fonte, o caminheiro parou. Desfez-se do chapeirão, que poisou com a capa e o cajado no rebordo do fontanário, despiu a camisa e, de tronco nu, refrescou rosto e corpo, na água que corria. Deliciado.

Era loiro e jovem.

- Desta vez não ganhou ninguém - concluiu o Senhor Vento.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Ganhou ele - disse o Senhor Sol, apontando o moço, que passava um lenço a escorrer água pela cara e pelos ombros. - E, embora tenha apostado que ele era moreno, eu acho que também já ganhei o dia.

E, com todos os seus costumados vagares, o Sol começou a preparar as cores do entardecer.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O romeiro, o vento e o sol
Ilustração original recuperada

Consegue-se às boas, mansamente, o que não se consegue a mal, à força, de repelão. A melodia de uma flauta abre mais janelas do que uma trovoada.

Vou exemplificar.

O Senhor Vento e o Senhor Sol, lá do seu miradoiro, observam o que se passa cá em baixo. Os dois dispensam binóculos.

Estavam eles entretidos, na sua quadrilhice de varanda, quando viram um romeiro, daqueles que percorrem a pé os caminhos que vão dar à galega Compostela.

Ia de chapeirão e larga capa, que o cobria até aos pés.

Nodoso cajado de ajudar às subidas, um saquitel ao ombro e a cabaça à cintura, para o vinho que aquece, eis o quadro completo do devoto de São Tiago, o Apóstolo, com catedral famosa na cidade de Compostela.

- Aquele, ali, todo embiocado , que nem se percebe quem será, se é velho, se é novo, se é loiro, se moreno, está a irritar-me - disse o Senhor Vento, muito dado a caprichos.

- Aposto que é novo e moreno - disse o Senhor Sol, por desfastio .

- Pois eu acho o contrário. O homem é velho e branco de cabelo, que já foi loiro - apostou o Senhor Vento. Mas já vamos ver isso. Eu sopro com toda a força e descubro-o.

- Aposto que não resulta - contrapôs o Senhor Sol, divertido com o passatempo.

Levantou-se uma ventania de dobrar as árvores. O romeiro fincou-se ao cajado, puxou o chapéu para a cara e apertou a capa. Por mais que o Senhor Vento soprasse não houve meio de derrotar o viandante .

- Primeira aposta perdida - riu-se o Senhor Sol.

Ele a rir e seus raios a brilharem com mais alegria e calor. O Senhor Sol arredou umas nuvenzitas e concentrou toda a sua atenção sobre o romeiro, que seguia estrada fora, no passo firme de quem não pode faltar ao encontro. Santiago esperava-o. Mas andar à torreira do sol cansa. O romeiro começou por abrir a capa, depois dispensou-a e dobrada pô-la ao ombro.

O Senhor Sol não o largava.

À beira de uma fonte, o caminheiro parou. Desfez-se do chapeirão, que poisou com a capa e o cajado no rebordo do fontanário, despiu a camisa e, de tronco nu, refrescou rosto e corpo, na água que corria. Deliciado.

Era loiro e jovem.

- Desta vez não ganhou ninguém - concluiu o Senhor Vento.

- Ganhou ele - disse o Senhor Sol, apontando o moço, que passava um lenço a escorrer água pela cara e pelos ombros. - E, embora tenha apostado que ele era moreno, eu acho que também já ganhei o dia.

E, com todos os seus costumados vagares, o Sol começou a preparar as cores do entardecer.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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