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Ilustração de abertura da história «O cavalo mecânico».

3 de Março

O cavalo mecânico

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Há quem diga que o meu amigo Alípio é um grande mentiroso. Eu não acredito.

Grande mentiroso não é. Quanto muito, será um pequeno mentiroso, o que faz a sua diferença.

A última história que ele me contou, diz ele que lhe aconteceu na estrada.

Ia a guiar o calhambeque, quando o motor deu um estrondo e parou.

- Estou bem aviado - disse o Alípio, que não percebia nada de mecânica. - Uma avaria destas, no meio do campo, numa estrada sem trânsito...

Pelo sim, pelo não, levantou o capot e pôs-se a espreitar para dentro do motor enfumarado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Que intriga! Olhou em volta. Ninguém que lhe valesse.

Só um cavalo branco, ali perto, a pastar, em sossego. O cavalo relinchou, amigavelmente, e aproximou-se do Alípio e do motor do automóvel. Ao lado do desanimado Alípio, o cavalo debruçou-se para a caixa das geringonças e disse:

- É do carburador.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O Alípio esbugalhou os olhos. Um cavalo a falar? Podia lá ser! Devia ter sido impressão, assobio do vento, sussurro de ramagens... Tudo menos voz de cavalo.

- Já lhe disse que é do carburador - insistiu o cavalo.

Alto, que o caso era grave! O pobre Alípio sentiu-se doido. Ou estaria num sonho?

- O carburador está entupido - sentenciou o cavalo. - Não é coisa grave.

O Alípio desesperou-se e enxotou o cavalo, que meneou a cabeça, resignado. Antes de voltar ao seu pastar pachorrento, o cavalo branco ainda disse:

- Eu bem o avisei que a avaria era do carburador. Se não quer ouvir, é consigo...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Alucinado, o Alípio desarmou o carburador, espreitou lá para dentro e confirmou. Efectivamente, o carburador estava entupido. Limpou-o o melhor que soube e, assim que voltou a pôr o motor em marcha, a carripana pegou, como se fosse nova. Seguiu viagem e nem sequer agradeceu ao cavalo.

- Que disparate! - dizia o Alípio de si para si, enquanto gritava. - Isto não faz sentido. Foi tudo uma coincidência. Os cavalos não falam. Os cavalos não falam. Os cavalos não falam.

Quando parou, pouco depois, junto a uma bomba de gasolina, ainda repetia o mesmo, vezes sem conta...

- O que é que o senhor está a dizer? - perguntou-lhe o empregado da bomba de gasolina.

Meio atordoado e com imensa vontade de desabafar, Alípio contou ao homem o que acabara de suceder-lhe.

- Era um cavalo branco? - perguntou o empregado.

- Era. Era - respondeu o Alípio.

- Então, teve sorte - disse-lhe o homem.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Porque também anda por aí um cavalo castanho que não percebe nada de mecânica.

Alípio arrancou logo com o carro, sem sequer meter gasolina. Veio a toda a pressa e, assim que chegou a casa, contou-me esta história tal e qual eu aqui a conto. Se é mentira, peçam-lhe responsabilidades a ele.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O cavalo mecânico
Ilustração original recuperada

Há quem diga que o meu amigo Alípio é um grande mentiroso. Eu não acredito.

Grande mentiroso não é. Quanto muito, será um pequeno mentiroso, o que faz a sua diferença.

A última história que ele me contou, diz ele que lhe aconteceu na estrada.

Ia a guiar o calhambeque, quando o motor deu um estrondo e parou.

- Estou bem aviado - disse o Alípio, que não percebia nada de mecânica. - Uma avaria destas, no meio do campo, numa estrada sem trânsito...

Pelo sim, pelo não, levantou o capot e pôs-se a espreitar para dentro do motor enfumarado.

Que intriga! Olhou em volta. Ninguém que lhe valesse.

Só um cavalo branco, ali perto, a pastar, em sossego. O cavalo relinchou, amigavelmente, e aproximou-se do Alípio e do motor do automóvel. Ao lado do desanimado Alípio, o cavalo debruçou-se para a caixa das geringonças e disse:

- É do carburador.

O Alípio esbugalhou os olhos. Um cavalo a falar? Podia lá ser! Devia ter sido impressão, assobio do vento, sussurro de ramagens... Tudo menos voz de cavalo.

- Já lhe disse que é do carburador - insistiu o cavalo.

Alto, que o caso era grave! O pobre Alípio sentiu-se doido. Ou estaria num sonho?

- O carburador está entupido - sentenciou o cavalo. - Não é coisa grave.

O Alípio desesperou-se e enxotou o cavalo, que meneou a cabeça, resignado. Antes de voltar ao seu pastar pachorrento, o cavalo branco ainda disse:

- Eu bem o avisei que a avaria era do carburador. Se não quer ouvir, é consigo...

Alucinado, o Alípio desarmou o carburador, espreitou lá para dentro e confirmou. Efectivamente, o carburador estava entupido. Limpou-o o melhor que soube e, assim que voltou a pôr o motor em marcha, a carripana pegou, como se fosse nova. Seguiu viagem e nem sequer agradeceu ao cavalo.

- Que disparate! - dizia o Alípio de si para si, enquanto gritava. - Isto não faz sentido. Foi tudo uma coincidência. Os cavalos não falam. Os cavalos não falam. Os cavalos não falam.

Quando parou, pouco depois, junto a uma bomba de gasolina, ainda repetia o mesmo, vezes sem conta...

- O que é que o senhor está a dizer? - perguntou-lhe o empregado da bomba de gasolina.

Meio atordoado e com imensa vontade de desabafar, Alípio contou ao homem o que acabara de suceder-lhe.

- Era um cavalo branco? - perguntou o empregado.

- Era. Era - respondeu o Alípio.

- Então, teve sorte - disse-lhe o homem.

- Porque também anda por aí um cavalo castanho que não percebe nada de mecânica.

Alípio arrancou logo com o carro, sem sequer meter gasolina. Veio a toda a pressa e, assim que chegou a casa, contou-me esta história tal e qual eu aqui a conto. Se é mentira, peçam-lhe responsabilidades a ele.

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