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Ilustração de abertura da história «Fim feliz ou infeliz?».

21 de Fevereiro

Fim feliz ou infeliz?

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O abutre, no ar, e o chacal, na terra, têm uma grande parecença. Ambos se alimentam de detritos , restos putrefactos que os outros animais, mais destemidos na caça, abandonam, depois de saciados . Este gosto comum por tudo o que mete nojo é que os une.

Mas não lhe queiramos mal.

Estes e outros bichos que tais, como o condor, que é da família do abutre, ou a hiena, parente próxima do chacal, são essenciais à vida. Não fossem eles e a carne em putrefacção ou os animais doentes contaminariam a natureza e provocariam epidemias .

Tudo certo, mas não deixam de ser repugnantes .

Na nossa história, o abutre e o chacal associados acompanhavam o rasto de uma velha zebra combalida . Faziam apostas:

- É para hoje - dizia o chacal.

- É para amanhã - dizia o abutre.

- Em qualquer dos casos, temos banquete para de aqui a um mês - concluia o chacal.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A zebra velha atardava-se e as restantes da manada encurtavam o passo, para se não despegarem dela.

Uma zebrinha, neta da zebra doente, animava-a.

- Coragem, avó. Já pouco falta até chegarmos ao rio.

- Não chego lá - queixava-se a velha zebra. - Sinto aproximar-se de mim o cheiro nojento do chacal.

Longe, espiando, o chacal avisou o abutre:

- A velha está a falar de mim.

- E o que diz? Diz bem? - quis saber o passaroco.

- O melhor possível - respondeu o chacal, com um riso maldoso.

A zebra encostou a cabeça à terra, pronta para tudo. Relançou um olhar resignado à volta, como que a despedir-se.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Nisto reparou num pequeno cacto, encimado por uma flor roxa de pétalas carnudas. Chamou a neta:

- Vai colher-me aquela flor, mas, cuidado, não te piques.

A zebrinha trouxe-lhe a flor na boca.

- Abençoada flor - disse a velha zebra, mastigando-a, demoradamente, e deglutindo-a, depois, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo focinho.

- Está a chorar porquê, avó?

- afligiu-se a neta.

- De felicidade - respondeu a zebra.

E explicou, então, que aquela flor era muito rara e tinha propriedades maravilhosas. Dava nova vida aos moribundos , força aos fracos, saúde aos doentes. Providencialmente , encontrara-a, quando já estava disposta a morrer.

A velha zebra saltou como nova.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Cabriolou, trotou, galopou e tanto correu que a zebrinha teve dificuldade em acompanhá-la.

- Estás a ver o que eu estou a ver? - abismou-se o chacal que, de longe, a tudo assistira.

- Estou e não acredito - disse o abutre. - Fomos enganados. Esta história não devia acabar assim.

Talvez não, mas quem a escreveu teve de tomar partido.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um fim feliz para zebras e zebrinhas não pode ser um fim feliz para chacais e abutres.

É sempre assim, na vida.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

O abutre, no ar, e o chacal, na terra, têm uma grande parecença. Ambos se alimentam de detritos , restos putrefactos que os outros animais, mais destemidos na caça, abandonam, depois de saciados . Este gosto comum por tudo o que mete nojo é que os une.

Mas não lhe queiramos mal.

Estes e outros bichos que tais, como o condor, que é da família do abutre, ou a hiena, parente próxima do chacal, são essenciais à vida. Não fossem eles e a carne em putrefacção ou os animais doentes contaminariam a natureza e provocariam epidemias .

Tudo certo, mas não deixam de ser repugnantes .

Na nossa história, o abutre e o chacal associados acompanhavam o rasto de uma velha zebra combalida . Faziam apostas:

- É para hoje - dizia o chacal.

- É para amanhã - dizia o abutre.

- Em qualquer dos casos, temos banquete para de aqui a um mês - concluia o chacal.

A zebra velha atardava-se e as restantes da manada encurtavam o passo, para se não despegarem dela.

Uma zebrinha, neta da zebra doente, animava-a.

- Coragem, avó. Já pouco falta até chegarmos ao rio.

- Não chego lá - queixava-se a velha zebra. - Sinto aproximar-se de mim o cheiro nojento do chacal.

Longe, espiando, o chacal avisou o abutre:

- A velha está a falar de mim.

- E o que diz? Diz bem? - quis saber o passaroco.

- O melhor possível - respondeu o chacal, com um riso maldoso.

A zebra encostou a cabeça à terra, pronta para tudo. Relançou um olhar resignado à volta, como que a despedir-se.

Nisto reparou num pequeno cacto, encimado por uma flor roxa de pétalas carnudas. Chamou a neta:

- Vai colher-me aquela flor, mas, cuidado, não te piques.

A zebrinha trouxe-lhe a flor na boca.

- Abençoada flor - disse a velha zebra, mastigando-a, demoradamente, e deglutindo-a, depois, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo focinho.

- Está a chorar porquê, avó?

- afligiu-se a neta.

- De felicidade - respondeu a zebra.

E explicou, então, que aquela flor era muito rara e tinha propriedades maravilhosas. Dava nova vida aos moribundos , força aos fracos, saúde aos doentes. Providencialmente , encontrara-a, quando já estava disposta a morrer.

A velha zebra saltou como nova.

Cabriolou, trotou, galopou e tanto correu que a zebrinha teve dificuldade em acompanhá-la.

- Estás a ver o que eu estou a ver? - abismou-se o chacal que, de longe, a tudo assistira.

- Estou e não acredito - disse o abutre. - Fomos enganados. Esta história não devia acabar assim.

Talvez não, mas quem a escreveu teve de tomar partido.

Um fim feliz para zebras e zebrinhas não pode ser um fim feliz para chacais e abutres.

É sempre assim, na vida.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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