11 de Fevereiro
Jantar de Assobio
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Fulano apostou com Beltrano que havia de conseguir jantar naquele restaurante, ali da esquina, sem pagar cheta .
O caso passou-se assim. Fulano sentou-se a uma mesa e veio o empregado informar:
- Temos sopa de agriões. Deseja sopa?
O nosso amigo Fulano limitou-se a soltar duas assobiadelas, que o criado interpretou à sua maneira, trazendo-lhe um prato de sopa.
A seguir, o criado perguntou ao silencioso cliente se queria provar uma dobrada à moda do Porto, acabadinha de fazer. Mais duas assobiadelas de resposta.
Veio a dobrada.
E assim sucessivamente, o vinho, a fruta, o doce. Por fim, a conta.
Aqui chegado, Fulano rejeitou o papelinho com a despesa do jantar. E pela primeira vez falou:
- Não pago.
Chamado pelo criado aflito, veio o dono do restaurante, que ouviu esta explicação de Fulano, muito seguro das suas razões:
- Eu nunca pedi nada. O empregado vinha e perguntava se eu queria isto e aquilo. Eu assobiava e ele trazia a comida. O que é dado, nunca se recusa. Mas como nunca pedi, não devo nada.
E Fulano saiu do restaurante, todo emproado , de palito na boca, perante o pasmo do patrão e do criado.
Beltrano, que o esperava cá fora e a tudo assistira, através da montra do restaurante, teve de dar-se por vencido. Fulano ganhara a aposta e um jantar de graça.
Mas Beltrano não se conformou e, à sua conta, resolveu, no dia seguinte, fazer o mesmo que Fulano fizera.
Encontrou Cicrano e perguntou-lhe:
- Queres apostar em como eu vou ali àquele restaurante jantar sem gastar um tostão?
Cicrano encolheu os ombros, mas apostou.
Quando Beltrano se sentou a uma mesa e o criado veio com a terrina da sopa, as duas assobiadelas do freguês puseram o empregado de sobreaviso.
Foi a correr, lá dentro, avisar o patrão:
- Está cá outro com a mesma história dos assobios. O que é que eu faço?
- Pergunta-lhe se ele quer mais sopa - disse o patrão, arregaçando as mangas da camisa.
Aos dois assobios, criado e patrão agarraram em Beltrano e correram-no do restaurante, a pontapés.
Há receitas que resultam uma vez, mas à segunda mais vale não experimentar. O Beltrano aprova o que aqui fica dito, soltando dois tristes assobios.
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
Ilustração original ainda não recuperada.
Fulano apostou com Beltrano que havia de conseguir jantar naquele restaurante, ali da esquina, sem pagar cheta .
O caso passou-se assim. Fulano sentou-se a uma mesa e veio o empregado informar:
- Temos sopa de agriões. Deseja sopa?
O nosso amigo Fulano limitou-se a soltar duas assobiadelas, que o criado interpretou à sua maneira, trazendo-lhe um prato de sopa.
A seguir, o criado perguntou ao silencioso cliente se queria provar uma dobrada à moda do Porto, acabadinha de fazer. Mais duas assobiadelas de resposta.
Veio a dobrada.
E assim sucessivamente, o vinho, a fruta, o doce. Por fim, a conta.
Aqui chegado, Fulano rejeitou o papelinho com a despesa do jantar. E pela primeira vez falou:
- Não pago.
Chamado pelo criado aflito, veio o dono do restaurante, que ouviu esta explicação de Fulano, muito seguro das suas razões:
- Eu nunca pedi nada. O empregado vinha e perguntava se eu queria isto e aquilo. Eu assobiava e ele trazia a comida. O que é dado, nunca se recusa. Mas como nunca pedi, não devo nada.
E Fulano saiu do restaurante, todo emproado , de palito na boca, perante o pasmo do patrão e do criado.
Beltrano, que o esperava cá fora e a tudo assistira, através da montra do restaurante, teve de dar-se por vencido. Fulano ganhara a aposta e um jantar de graça.
Mas Beltrano não se conformou e, à sua conta, resolveu, no dia seguinte, fazer o mesmo que Fulano fizera.
Encontrou Cicrano e perguntou-lhe:
- Queres apostar em como eu vou ali àquele restaurante jantar sem gastar um tostão?
Cicrano encolheu os ombros, mas apostou.
Quando Beltrano se sentou a uma mesa e o criado veio com a terrina da sopa, as duas assobiadelas do freguês puseram o empregado de sobreaviso.
Foi a correr, lá dentro, avisar o patrão:
- Está cá outro com a mesma história dos assobios. O que é que eu faço?
- Pergunta-lhe se ele quer mais sopa - disse o patrão, arregaçando as mangas da camisa.
Aos dois assobios, criado e patrão agarraram em Beltrano e correram-no do restaurante, a pontapés.
Há receitas que resultam uma vez, mas à segunda mais vale não experimentar. O Beltrano aprova o que aqui fica dito, soltando dois tristes assobios.
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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.
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