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Ilustração de abertura da história «Fechem essa janela».

6 de Fevereiro

Fechem essa janela

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Dantes os homens usavam cabeleiras. Eram as perucas. Já se vê que nem todos os homens usavam cabeleiras. Apenas os grandes fidalgos, os reis, os nobres da corte. E só em determinadas épocas da História. Noutras, usavam o cabelo ou comprido ou curto, mas deles, sem disfarce.

Luís XIV, um grande rei francês, mas também muito vaidoso, tinha ao seu serviço quarenta cabeleireiros de perucas, que só trabalhavam para ele. Os nobres da corte ultrapassavam-se em presunção, para ostentarem as mais belas cabeleiras, umas frisadas, outras escorridas, quase todas empoadas e algumas com lacinhos e laçadas coloridas.

Cavaleiros, generais, espadachins, mosqueteiros usavam perucas e, no intervalo das guerras, penteavam-nas sobre os joelhos.

Uma vez, perguntaram-nos se o Marquês de Pombal usava o cabelo caído para os ombros, como vemos nas gravuras que o representam. Não há a certeza, mas, segundo consta, o Marquês de Pombal até era careca...

Ora o rei da nossa história, o rei Olindo - rei de um reino qualquer, lá para algures ou mais longe ainda -, também tinha em muita estima os seus caracóis.

Vivia ele num palácio admirável, num palácio de sonho, mas não de todos os sonhos, num palácio de alto lá com ele, não fossem as correntes de ar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Como o palácio tinha muitas janelas - 365 janelas, mais precisamente - e muitas portas e muitos criados, que iam e vinham e abriam portas e fechavam portas, as salas do palácio eram mais desconfortáveis do que uma praça pública, em dia de vendaval...

Pois era.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

As correntes de ar é que estragavam tudo, até as audiências em que o rei Olindo tinha de receber, por dever de oficio, os seus súbditos mais humildes.

- Estejam descansados. Vou tentar resolver o vosso caso - assim respondia a todos os pedidos, para despachar.

Estava o rei a dizer isto mesmo, quando uma janela se abriu por si e ... o resto está à vista ou imagina-se.

- Onde se teria metido a minha cabeleira? Onde se teria metido? - balbuciava , de gatas, o rei Olindo, um pouco menos lindo do que era costume.

Quando a encontraram, o rei deu por finda a audiência.

Que desastre!

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Daí em diante, só passou a aparecer em público com uma pesada coroa por cima da cabeleira, espécie de pisa-papéis, isto é de pisa-cabeleiras. A coroa de muito peso fazia-lhe dores de cabeça. Que remédio! Sujeitar-se a outra desfeita do vento é que não.

Os sacrifícios que um rei tem de fazer para conservar a cabeleira... E o reino.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Fechem essa janela
Ilustração original recuperada

Dantes os homens usavam cabeleiras. Eram as perucas. Já se vê que nem todos os homens usavam cabeleiras. Apenas os grandes fidalgos, os reis, os nobres da corte. E só em determinadas épocas da História. Noutras, usavam o cabelo ou comprido ou curto, mas deles, sem disfarce.

Luís XIV, um grande rei francês, mas também muito vaidoso, tinha ao seu serviço quarenta cabeleireiros de perucas, que só trabalhavam para ele. Os nobres da corte ultrapassavam-se em presunção, para ostentarem as mais belas cabeleiras, umas frisadas, outras escorridas, quase todas empoadas e algumas com lacinhos e laçadas coloridas.

Cavaleiros, generais, espadachins, mosqueteiros usavam perucas e, no intervalo das guerras, penteavam-nas sobre os joelhos.

Uma vez, perguntaram-nos se o Marquês de Pombal usava o cabelo caído para os ombros, como vemos nas gravuras que o representam. Não há a certeza, mas, segundo consta, o Marquês de Pombal até era careca...

Ora o rei da nossa história, o rei Olindo - rei de um reino qualquer, lá para algures ou mais longe ainda -, também tinha em muita estima os seus caracóis.

Vivia ele num palácio admirável, num palácio de sonho, mas não de todos os sonhos, num palácio de alto lá com ele, não fossem as correntes de ar.

Como o palácio tinha muitas janelas - 365 janelas, mais precisamente - e muitas portas e muitos criados, que iam e vinham e abriam portas e fechavam portas, as salas do palácio eram mais desconfortáveis do que uma praça pública, em dia de vendaval...

Pois era.

As correntes de ar é que estragavam tudo, até as audiências em que o rei Olindo tinha de receber, por dever de oficio, os seus súbditos mais humildes.

- Estejam descansados. Vou tentar resolver o vosso caso - assim respondia a todos os pedidos, para despachar.

Estava o rei a dizer isto mesmo, quando uma janela se abriu por si e ... o resto está à vista ou imagina-se.

- Onde se teria metido a minha cabeleira? Onde se teria metido? - balbuciava , de gatas, o rei Olindo, um pouco menos lindo do que era costume.

Quando a encontraram, o rei deu por finda a audiência.

Que desastre!

Daí em diante, só passou a aparecer em público com uma pesada coroa por cima da cabeleira, espécie de pisa-papéis, isto é de pisa-cabeleiras. A coroa de muito peso fazia-lhe dores de cabeça. Que remédio! Sujeitar-se a outra desfeita do vento é que não.

Os sacrifícios que um rei tem de fazer para conservar a cabeleira... E o reino.

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