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Ilustração de abertura da história «Colares de Pérolas».

2 de Fevereiro

Colares de Pérolas

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Joanina e Lionídia eram duas jovens que se preparavam para o primeiro baile.

Vestiam vestidos de seda branca com muita goma e roda, todos enfeitados de lacinhos azuis e cor-de-rosa.

Não haverá hoje raparigas que consintam em usar vestidos destes, mas isto passou-se há muito tempo.

Diante do toucador , ajeitaram ao espelho os caracóis e canudos de cabelo, que as faziam parecer bonecas de porcelana. Sentiam-se lindas. E, efectivamente, sinceramente, estavam.

Chegou a altura dos últimos adornos. Brincos, anéis, pulseiras e um diadema no toucado. Até o espelho pestanejou com tanto brilho.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Falta o colar - lembrou a Lionídia, enquanto procurava, na sua caixinha de guarda-jóias, o ornamento essencial à perfeição do quadro.

Já Joanina tinha tirado do respectivo guarda-jóias e posto com todo o cuidado ao espelho o seu colar de pérolas, sorrindo, feliz, porque era a primeira vez que o punha.

Sentia-se uma senhora, uma dama, um modelo para um retrato a óleo.

Lionídia tinha um colar igual. Ou quase.

- O teu colar é de pérolas falsas - disse Lionídia, olhando de esguelha para o colar de Joanina.

- Como é que tu sabes? - indignou-se ela.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Este colar está na nossa família há várias gerações e sempre foi tomado como verdadeiro.

- É falso. Digo e torno a dizer, porque as tuas pérolas não têm a perfeição nem a transparência leitosa, nacarada, aveludada das minhas.

Isto dito por Lionídia era uma afronta para Joanina.

- E se for ao contrário? - ripostou ela.

- Está-me a parecer que as tuas pérolas é que são uma perfeita imitação das minhas.

Enervaram-se. Zangaram-se. Descompuseram-se. Brigaram.

Não fosse estarem tão alinhadas para a festa e, quase de certeza, ainda acabariam por se agarrar aos caracóis uma da outra e espatifar os vestidos brancos, engomados e rodados, com lacinhos azuis e cor-de-rosa...

Uma réstia de boa educação e de bom senso conteve-as. Para decidirem de uma vez para sempre qual tinha razão lembrou-se uma delas.

- Só há uma prova a fazer. O vinagre!

Quem não souber que aprenda que o vinagre desfaz as pérolas naturais, as legítimas, as fabricadas com sossego e demora, dentro da concha paciente das ostras.

Muito exaltadas e avinagradas , foram buscar à cozinha uma tigela de vinagre.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Queres ver que o teu colar pelintra não se desfaz - disse a Joanina à Lionídia.

- A porcaria do teu colar é que não vai desfazer-se - disse Lionídia à Joanina.

O resto está-se mesmo a ver. Dissolveram-se no banho de vinagre as pérolas de ambos os colares. Dissolveram-se no banho de vinagre as pérolas de ambos os colares.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Só sobraram para amostra fios e fechos, tão valiosos como duas espinhas de peixe.

E as duas jovens, depois de chorarem muitas lágrimas, abraçadas uma à outra, lá tiveram de ir para o baile sem os seus preciosos colares.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Pobres das ostras que tanto trabalharam a acrescentar, a arredondar e a aprimorar as suas maravilhosas pérolas, para que assim se perdesse o labor de tantos anos num bochecho de vinagre. Dá que pensar.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Colares de Pérolas
Ilustração original recuperada

Joanina e Lionídia eram duas jovens que se preparavam para o primeiro baile.

Vestiam vestidos de seda branca com muita goma e roda, todos enfeitados de lacinhos azuis e cor-de-rosa.

Não haverá hoje raparigas que consintam em usar vestidos destes, mas isto passou-se há muito tempo.

Diante do toucador , ajeitaram ao espelho os caracóis e canudos de cabelo, que as faziam parecer bonecas de porcelana. Sentiam-se lindas. E, efectivamente, sinceramente, estavam.

Chegou a altura dos últimos adornos. Brincos, anéis, pulseiras e um diadema no toucado. Até o espelho pestanejou com tanto brilho.

- Falta o colar - lembrou a Lionídia, enquanto procurava, na sua caixinha de guarda-jóias, o ornamento essencial à perfeição do quadro.

Já Joanina tinha tirado do respectivo guarda-jóias e posto com todo o cuidado ao espelho o seu colar de pérolas, sorrindo, feliz, porque era a primeira vez que o punha.

Sentia-se uma senhora, uma dama, um modelo para um retrato a óleo.

Lionídia tinha um colar igual. Ou quase.

- O teu colar é de pérolas falsas - disse Lionídia, olhando de esguelha para o colar de Joanina.

- Como é que tu sabes? - indignou-se ela.

- Este colar está na nossa família há várias gerações e sempre foi tomado como verdadeiro.

- É falso. Digo e torno a dizer, porque as tuas pérolas não têm a perfeição nem a transparência leitosa, nacarada, aveludada das minhas.

Isto dito por Lionídia era uma afronta para Joanina.

- E se for ao contrário? - ripostou ela.

- Está-me a parecer que as tuas pérolas é que são uma perfeita imitação das minhas.

Enervaram-se. Zangaram-se. Descompuseram-se. Brigaram.

Não fosse estarem tão alinhadas para a festa e, quase de certeza, ainda acabariam por se agarrar aos caracóis uma da outra e espatifar os vestidos brancos, engomados e rodados, com lacinhos azuis e cor-de-rosa...

Uma réstia de boa educação e de bom senso conteve-as. Para decidirem de uma vez para sempre qual tinha razão lembrou-se uma delas.

- Só há uma prova a fazer. O vinagre!

Quem não souber que aprenda que o vinagre desfaz as pérolas naturais, as legítimas, as fabricadas com sossego e demora, dentro da concha paciente das ostras.

Muito exaltadas e avinagradas , foram buscar à cozinha uma tigela de vinagre.

- Queres ver que o teu colar pelintra não se desfaz - disse a Joanina à Lionídia.

- A porcaria do teu colar é que não vai desfazer-se - disse Lionídia à Joanina.

O resto está-se mesmo a ver. Dissolveram-se no banho de vinagre as pérolas de ambos os colares. Dissolveram-se no banho de vinagre as pérolas de ambos os colares.

Só sobraram para amostra fios e fechos, tão valiosos como duas espinhas de peixe.

E as duas jovens, depois de chorarem muitas lágrimas, abraçadas uma à outra, lá tiveram de ir para o baile sem os seus preciosos colares.

Pobres das ostras que tanto trabalharam a acrescentar, a arredondar e a aprimorar as suas maravilhosas pérolas, para que assim se perdesse o labor de tantos anos num bochecho de vinagre. Dá que pensar.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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