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Ilustração de abertura da história «São Flores».

8 de Janeiro

São Flores

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Estava uma flor bordada num saco de guardanapo a olhar para uma flor pintada numa jarra de porcelana. E vice-versa.

A flor bordada queria meter conversa com a flor pintada. E vice-versa.

Entretanto, a flor bordada pensava: "Sou mais bonita do que ela." E vice-versa.

Até que a flor bordada resolveu dizer precisamente o contrário do que pensava:

- Nunca vi flor mais bonita do que tu.

A flor da jarra retorquiu, no mesmo tom:

- Tu, sim, és a mais bonita. Uma perfeita imitação.

Neste ponto, a conversa estragou-se.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Imitação?

- estranhou a flor do saco de guardanapo. - Imitação de quê?

- Imitação de uma flor verdadeira - respondeu a flor pintada na jarra.

- Ora essa! Eu sou uma flor incomparável, uma flor bordada, verdadeiramente bordada com toda a verdade da arte.

Agora, enfim, estava a dizer o que pensava.

Não lhe ficou atrás a outra flor:

- Verdadeira obra de arte sou eu. Não há flor pintada mais autêntica, pode crer.

Argumentaram, discutiram, zangaram-se. Perderam a elegância do trato. Passaram a dizer mais do que pensavam:

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Você é uma reles imitação - dizia a flor pintada.

- E você é uma falsificação barata - dizia a flor bordada.

Nisto, mãos femininas vieram colocar uma flor na jarra, até então vazia.

- Qual é o tema da discussão? - quis saber a recém-vinda, debruçada da jarra.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Puseram-na a par da disputa e logo a nova flor, que era dotada de um caule esguio, folhagem vaporosa e pétalas gentis, rodopiou na jarra de porcelana, para dizer, num risinho de superioridade:

- Não sejam ridículas e olhem para mim. Haverá flor mais encantadora e mais verdadeira do que eu?

As duas outras calaram-se.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Afinal, a flor de folhas frágeis, que qualquer corrente de ar agitava, a flor de longa haste, mergulhada na jarra, é que tinha razão.

Aqui para nós e em segredo, diremos que também não tinha razão nenhuma. Pois se ela era apenas uma simples flor de papel...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para São Flores
Ilustração original recuperada

Estava uma flor bordada num saco de guardanapo a olhar para uma flor pintada numa jarra de porcelana. E vice-versa.

A flor bordada queria meter conversa com a flor pintada. E vice-versa.

Entretanto, a flor bordada pensava: "Sou mais bonita do que ela." E vice-versa.

Até que a flor bordada resolveu dizer precisamente o contrário do que pensava:

- Nunca vi flor mais bonita do que tu.

A flor da jarra retorquiu, no mesmo tom:

- Tu, sim, és a mais bonita. Uma perfeita imitação.

Neste ponto, a conversa estragou-se.

- Imitação?

- estranhou a flor do saco de guardanapo. - Imitação de quê?

- Imitação de uma flor verdadeira - respondeu a flor pintada na jarra.

- Ora essa! Eu sou uma flor incomparável, uma flor bordada, verdadeiramente bordada com toda a verdade da arte.

Agora, enfim, estava a dizer o que pensava.

Não lhe ficou atrás a outra flor:

- Verdadeira obra de arte sou eu. Não há flor pintada mais autêntica, pode crer.

Argumentaram, discutiram, zangaram-se. Perderam a elegância do trato. Passaram a dizer mais do que pensavam:

- Você é uma reles imitação - dizia a flor pintada.

- E você é uma falsificação barata - dizia a flor bordada.

Nisto, mãos femininas vieram colocar uma flor na jarra, até então vazia.

- Qual é o tema da discussão? - quis saber a recém-vinda, debruçada da jarra.

Puseram-na a par da disputa e logo a nova flor, que era dotada de um caule esguio, folhagem vaporosa e pétalas gentis, rodopiou na jarra de porcelana, para dizer, num risinho de superioridade:

- Não sejam ridículas e olhem para mim. Haverá flor mais encantadora e mais verdadeira do que eu?

As duas outras calaram-se.

Afinal, a flor de folhas frágeis, que qualquer corrente de ar agitava, a flor de longa haste, mergulhada na jarra, é que tinha razão.

Aqui para nós e em segredo, diremos que também não tinha razão nenhuma. Pois se ela era apenas uma simples flor de papel...

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