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Ilustração de abertura da história «Moleiros e Carvoeiros».

1 de Janeiro

Moleiros e Carvoeiros

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

No tempo em que as velas dos moinhos rodavam ao vento, um moleiro, todo enfarinhado de carregar com sacas de farinha, cruzou-se, na estrada, com um carvoeiro todo enfarruscado de carregar com sacas de carvão.

Esquecemo-nos de dizer que ao lado do moleiro ia o filho do moleiro e ao lado do carvoeiro, o filho do carvoeiro. Nesse tempo também, os filhos dos moleiros não tinham outro destino senão ser moleiros e os filhos dos carvoeiros não podiam ambicionar outra vida senão ser carvoeiros.

- Ó pai, já viste aqueles dois tão sujos que ali vão? - disse o filho do moleiro para o moleiro.

O filho do carvoeiro ouviu o comentário e não gostou. Aliás, o pai também não gostou.

- Sujos vão eles - lançou o garoto do carvoeiro.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Carvoeiros e moleiros pararam na estrada, enfrentando-se com ar de poucos amigos. Quem está sujo, quem não está sujo, o certo é que, depois de algumas más palavras trocadas em despique, os dois miúdos engalfinharam-se à zaragata. E os pais atrás deles.

Mãos que ameaçam, murros que se cruzam, joelhadas que fervem, e os que estavam brancos ficaram manchados de preto e os que estavam pretos ficaram manchados de branco. De mistura com o pó da estrada, uma nuvem cinzenta - cinzenta de carvão e farinha - rodeou os contendores.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Correu gente dos campos próximos a apartá-los. Não foi sem custo que os separaram, magoando-se tanto os que pediam paz como os que faziam guerra. Então um velho de respeitáveis barbas, que com os outros camponeses acudira à contenda, falou assim:

- Tão tolos são os filhos como os pais. Vejam-se agora, reparem nos nossos fatos e digam se não estão mais sujos do que estavam?

Realmente já se não distinguia qual o moleiro e qual o carvoeiro.

- Se tivessem dado um abraço, em vez de bulharem, o resultado teria sido o mesmo - continuou o velho. - E, realmente, porque se não hão-de abraçar estes trabalhadores honrados, orgulhosos da profissão que escolheram e dos fatos de trabalho que envergam? Vá, dêem um abraço, rapazes!

Os garotos, um pouco reticentes, abraçaram-se. Os homens, um pouco contravontade, abraçaram-se.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Ena, que sujo que eu estou! - riu-se o filho do carvoeiro.

- Não estás menos do que eu - riu-se o filho do moleiro.

Riram-se os filhos. Riram-se os pais. Toda a gente riu com gosto e a história acaba aqui. E bem.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

FIM

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Moleiros e Carvoeiros
Ilustração original recuperada

No tempo em que as velas dos moinhos rodavam ao vento, um moleiro, todo enfarinhado de carregar com sacas de farinha, cruzou-se, na estrada, com um carvoeiro todo enfarruscado de carregar com sacas de carvão.

Esquecemo-nos de dizer que ao lado do moleiro ia o filho do moleiro e ao lado do carvoeiro, o filho do carvoeiro. Nesse tempo também, os filhos dos moleiros não tinham outro destino senão ser moleiros e os filhos dos carvoeiros não podiam ambicionar outra vida senão ser carvoeiros.

- Ó pai, já viste aqueles dois tão sujos que ali vão? - disse o filho do moleiro para o moleiro.

O filho do carvoeiro ouviu o comentário e não gostou. Aliás, o pai também não gostou.

- Sujos vão eles - lançou o garoto do carvoeiro.

Carvoeiros e moleiros pararam na estrada, enfrentando-se com ar de poucos amigos. Quem está sujo, quem não está sujo, o certo é que, depois de algumas más palavras trocadas em despique, os dois miúdos engalfinharam-se à zaragata. E os pais atrás deles.

Mãos que ameaçam, murros que se cruzam, joelhadas que fervem, e os que estavam brancos ficaram manchados de preto e os que estavam pretos ficaram manchados de branco. De mistura com o pó da estrada, uma nuvem cinzenta - cinzenta de carvão e farinha - rodeou os contendores.

Correu gente dos campos próximos a apartá-los. Não foi sem custo que os separaram, magoando-se tanto os que pediam paz como os que faziam guerra. Então um velho de respeitáveis barbas, que com os outros camponeses acudira à contenda, falou assim:

- Tão tolos são os filhos como os pais. Vejam-se agora, reparem nos nossos fatos e digam se não estão mais sujos do que estavam?

Realmente já se não distinguia qual o moleiro e qual o carvoeiro.

- Se tivessem dado um abraço, em vez de bulharem, o resultado teria sido o mesmo - continuou o velho. - E, realmente, porque se não hão-de abraçar estes trabalhadores honrados, orgulhosos da profissão que escolheram e dos fatos de trabalho que envergam? Vá, dêem um abraço, rapazes!

Os garotos, um pouco reticentes, abraçaram-se. Os homens, um pouco contravontade, abraçaram-se.

- Ena, que sujo que eu estou! - riu-se o filho do carvoeiro.

- Não estás menos do que eu - riu-se o filho do moleiro.

Riram-se os filhos. Riram-se os pais. Toda a gente riu com gosto e a história acaba aqui. E bem.

FIM

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Palavras da história

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Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

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