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| O Bicho das Sete Cabeças António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Hoje vou falar do bicho de sete cabeças.
Desde menino que este bicho me persegue. Desde menino, eu e não ele, que deve ser mais velho do que a Sé de Braga. Suspeito até que será mais velho do que os dinossauros. Quase de certeza.
- Estás há que tempos às voltas com os atacadores e não atas nem desatas - dizia-me a minha mãe. | |
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| - Não tens vergonha de fazeres um bicho de sete cabeças de uma coisa tão simples?
Mais tarde, era a professora:
- Quando é que resolves esse problema que não tem dificuldade nenhuma? Um bicho de sete cabeças por uma coisa de nada... Parece impossível! | |
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| Ou então um enfermeiro, de uma vez que fui ao hospital com a cabeça partida:
- A chorar por um golpezinho sem importância? Nem que fosse um bicho de sete cabeças!
Isto tudo, na infância. Podia supor que, em crescendo, o bicho de sete cabeças me largasse. É o largas! | |
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| - Nunca mais te decides com a gravata, francamente - dizia-me a minha mulher. - Estamos quase a sair para o jantar e tu, diante do espelho, a pôr e a tirar gravatas, numa hesitação que até faz nervos. Calcule-se: um bicho de sete cabeças por causa de uma gravata! | |
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| No emprego:
- Pronto. Desapareceu o relatório. A tua secretária não sabe dele. Ninguém o encontra. Paciência. Manda imprimir outra cópia. Não é nenhuma tragédia nem vale a pena estares a fazer um bicho de sete cabeças por causa de um relatório, que desapareceu. | |
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| Quem me dera a mim encontrar o bicho de sete cabeças. Para quê? Não julguem que era para, qual São Jorge frente ao dragão, puxar de uma espada e corta-lhe as cabeças, uma a uma. Que horror! Eu nem sei manejar a espada. Eu, que desde que parti a minha estimável cabeça, ao cair da bicicleta, que tenho horror a sangue. | |
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| Eu queria encontrá-lo, para conhecê-lo, para tirar um retrato, ao lado dele, com a minha máquina automática. As oito cabeças (sete mais uma) a rirem-se, para a objectiva, e eu, daí em diante, a poder provar, a quem quer que seja, que mantenho as melhores relações com o meu bicho das sete cabeças. | |
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| Andei a matutar no caso, que tempos. Quando um pensamento anda connosco, dias a fio, acaba por sobrar para a noite e para os nossos sonhos. Foi o que aconteceu.
Sonhei, ontem à noite, com o bicho das sete cabeças. Nada de assustador, podem crer. Uma espécie de lagartixa mas com sete cabeças, tão banal como se tivesse três, cinco, cartoze ou mesmo vinte e oito cabeças. | |
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| Por acaso que era até um bicho muito conveniente. Quando uma das cabeças falava, as outras aprovavam, com ar de grande sensatez colectiva.
A que primeiro se me dirigiu explicou-me assim:
- Somos o teu bicho das sete cabeças. Embora possas estranhar, tu é que nos fizeste. Cada uma de nós tem um nome, que vamos apresentar-te. | |
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| E, apontando com o focinho, começou as apresentações:
- Esta é a Cólera despropositada e inútil. Quando te encolerizas sem razão, quando perdes a cabeça por uma coisa de nada, é esta cabeça que se levanta.
- Muito prazer em conhecê-la - disse eu, um pouco embaraçado.
- Esta, agora, é a Atrapalhação sem motivo. | |
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| Quando te afliges por um acaso insignificante, levanta-se esta cabeça. A outra, ao lado, é a Falta de Confiança em ti. Quando, diante de um problema, julgas, logo à partida, que não és capaz de resolvê-lo, levanta-se esta cabeça.
Eu estava com medo de não conseguir decorar os nomes delas todas. | |
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| Por isso peguei num lápis e num bloco-de-notas, que trago sempre no bolso, mesmo nos sonhos, e pus-me a assentar o que ela anunciava:
- A cabeça dos Medos Ridículos, a cabeça do Acanhamento Paralisante, a cabeça do Desnorte, quando te metes por atalhos mais compridos e meandrosos do que se fosses, a direito, pela estrada...
- E vão seis - contei eu. - Falta uma. | |
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| - Falto eu - disse a cabeça que me falava. - Eu sou a associação das outras, a porta-voz das restantes, uma espécie de soma dos desperdícios de energia, que tu gastas, com o que não merece a pena.
- Como te chamas? - perguntei.
- Sou o Tempo Perdido e nunca recuperado com o que não vale um rabo de lagartixa, sem lagartixa. | |
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