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| O Tesouro da Vila António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Andava o senhor Firmino a vender lotaria nas ruas de Vila Nova, ao começo deste estranho caso.
Era cauteleiro o senhor Firmino.
- Quem quer a sorte? O Firmino dá sorte! Quem quer os últimos para amanhã? - apregoava ele. | |
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| De boné à banda, com um cacho de cautelas penduradas do braço, o senhor Firmino percorria a vila. Tinha a cara queimada do sol e do vento, que lhe baralhava os bilhetes inteiros e as listas dos prémios.
- Anda amanhã a roda para os números do Firmino - prometia. | |
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| - Ainda tenho um bilhete quase inteiro com o meu palpite...
Era muito popular na vila o senhor Firmino. Houve, por isso, um grande sobressalto quando se soube o que tinha sucedido ao senhor Firmino. | |
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| Calculem que... O melhor será dar-lhe a palavra, porque ele sabe contar melhor do que eu:
- Já há tempos que não ia para os lados do Outeiro, lá no fim da vila. O sítio é mau para vender jogo. Tem pouco movimento, mas, junto à bomba da gasolina, às vezes, consigo arranjar freguês. Ia com o sentido nisso, porque queria despachar jogo. | |
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| Na bomba, já uma vez me ficaram com um bilhete...
- E desta arranjou fregueses novos... - interrompeu alguém.
O senhor Firmino zangou-se:
- Não brinque com a minha pouca sorte, homem! Podia eu lá calcular que me ia suceder uma daquelas?! Eu ia para lá, e cruzei-me com um rebanho de cabras, tocadas por um garoto, que é afilhado do Bolota. | |
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| Estava uma ventania dos diabos. Para proteger os bilhetes, ajeitei-os debaixo do casaco e segui caminho. Passei pelo meio do rebanho e, de facto, reparei que uma das cabras engraçara comigo e se pusera a seguir-me, com o focinho a roçar-me as pernas. Achei simpático o bicho e até me virei para lhe fazer uma festa, calculem! | |
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| Nessa altura, a cabra fugiu e foi quando eu vi que ela levava nos dentes um bocado de papel cor-de-rosa. Tive um pressentimento, fui ver o jogo e faltava-me um bilhete, um dos que tinha ficado fora do casaco. A cabra papara um bilhete, parte do qual levava ainda na boca. | |
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| Corri atrás dela, corremos os dois, eu e o pastor ou os três, eu, o garoto e a cabra, que corria mais do que nós dois juntos. Claro que, quando a apanhámos, já tinha engolido o resto. Disse-me o rapaz que ela, no outro dia, comeu uma toalha e um lençol. Que esperam dum bicho destes?
- E agora? - perguntaram.
- Agora é esperar. | |
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| Fui ter com o Anselmo Bolota, que é o dono das cabras, e ele, depois de grande questão, resolveu pagar parte dos prejuízos, ou seja, ficou com três décimos do bilhete que a cabra comeu.
- Então o resto?
- Quem vai arriscar-se a comprar cautelas que estão na barriga de uma cabra? | |
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| Com o resto fico eu ou a cabra, a única, afinal, que já ganhou. O número é o 17029. Depois de amanhã anda a roda!
Foram dois dias ansiosamente vividos por todos os de Vila Nova e arredores. Não se falava de outra coisa. E se o 17029 ganhava a Sorte Grande? Era uma pipa de massa, pois então! A dividir por quem? | |
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| Pelo Firmino e pelo senhor Bolota, que só comprara três décimos, mas era o dono do animal! Por ninguém, visto que não havia bilhete que comprovasse, depois, aos balcões da Santa Casa, o direito ao prémio? Mas que grande complicação! | |
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| No Café Central, na Leitaria Sevilhana, no Jardim da Guia, no largo da Igreja, no pátio da escola, nas lojas da Rua dos Alecrins, o único tema era o tesouro, o possível mas obscuro tesouro, guardado e bem guardado na barriga de uma cabra de seu nome Rabisca.
E essa, sim, a Rabisca, como se comportava ela? Ora! | |
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| Continuava a mastigar o que lhe vinha ao dente, sem ligar a mínima importância à balbúrdia que tinha provocado.
"Ai, se saísse a sorte grande no 17029!...", pensava o senhor Firmino, o senhor Bolota e toda a vila, em peso. | |
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| Andou a roda, saltitaram as bolinhas dos números, mas o 17029 ficou-se no meio dos outros, dos que não saíram pela porta mágica da fortuna.
Quando a vila soube que o 17029 não tinha sido premiado, respirou finalmente, aliviada. | |
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| O senhor Firmino queixou-se da sua sorte e prometeu nunca mais comer queijo de cabra, mas com o tempo, o bom cauteleiro acabou por levar o caso para a brincadeira. | |
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