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| Ciúmes Reais António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma vez um rei muito ciumento. A rainha era mulher de grande beleza, que o rei queria ser o único homem a contemplar. Por isso mantinha-a fechada a sete chaves no palácio.
Mas a rainha, que não aturava esta prisão, terá descoberto as tais sete chaves e, muito secretamente, muito pezinhos de lã, veio até cá fora passear. Só para espairecer. | |
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| Só por um bocadinho.
Respirou o ar livre do parque real e foi para a margem de um riozinho pentear os cabelos. Um leve novelo soltou-se do pente, as águas do rio cobiçaram-no e levaram o novelinho loiro, rio abaixo.
Logo aconteceu que, mais adiante, estavam umas lavadeiras, na margem do rio, a lavar as camisas do rei. | |
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| O perfume dos cabelos da rainha comunicou-se às águas do rio e impregnou a roupa.
Depois de secas e engomadas, as camisas voltaram para o palácio. O rei vestiu uma e disse:
- Esta camisa cheira ao perfume dos cabelos da rainha. Como é possível?
Tinha, realmente, um nariz muito sensível este rei ciumento. | |
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| Como é possível? Como não é possível? A rainha não sabia explicar.
- Tu saíste, na minha ausência? - perguntou o rei, quase a zangar-se.
Que havia a rainha de responder? Contou a verdade, que bem simples era. | |
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| O rei barafustou muito e arranjou sete vezes sete chaves para fechar a rainha. Estava desesperado.
Mas a rainha lá descobriu as quarenta e nove chaves, se as minhas contas não erram, e foi, uma noite, dar um passeio pelo parque. Só para espairecer. Só um bocadinho. | |
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| Estava tão aliviada e contente que cantou, baixinho, uma canção a seu gosto. No dia seguinte, todos os passarinhos dos jardins reais assobiavam a mesma canção. O rei, ao abrir, de manhã, as janelas do quarto, ouviu a cantiguinha e assanhou-se:
- Tu saíste, na minha ausência? - perguntou, zangadíssimo. | |
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| A rainha respondeu que sim e com um ar tão doce e tão inocente que o rei nem achou palavras com que zangar-se. Ele amava-a muito e, lá no íntimo, achava que aqueles seus ciúmes eram uma doença. Ora as doenças tratam-se. Mas, nesse ponto, o rei ainda não estava preparado para tratar-se. | |
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| Pelo sim, pelo não, fechou a rainha com tantas chaves que perdi a conta. Assim já não podia sair do palácio. Estava mesmo e definitivamente prisioneira dos ciúmes do marido.
Não saía a rainha, mas saiu, sem ela nem ninguém dar por isso, a sombra da rainha. | |
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| Quando o rei viu que tinha fugido a sombra à rainha ficou muito aflito. Sentiu-se responsável pela perda. Sentiu-se um abominável carcereiro. Sentiu-se muito mal.
Foi ele à procura da sombra da fugitiva pelo meio do parque. Para ajudá-lo nas buscas, levou a seu lado a própria rainha. | |
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| Acabou por ser a sombra do rei a encontrar a sombra da rainha. As duas sombras entrelaçaram-se, diante dos olhos espantados do par real.
A própria sombra do rei, contrariando o silêncio das sombras, falou pela própria voz e pediu desculpa à sombra da rainha pelo cerco ciumento em que a apertara. | |
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