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| A Vida António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma vez um belo cabelo levado pelo vento. Loiro. Vinha uma corrente de ar e soprava-o para um lado. Vinha outra corrente de ar e soprava-o para o outro. E o cabelo rodopiava, solto à luz do Sol, que com qualquer coisa se maravilha. Até um singelo grão de pó, tocado pelo Sol, fica como se fosse de prata... | |
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| Cabelo de anjo seria? Cabelo de fada? Cabelo de menina que pela primeira vez se penteia?
- Esta história tem um cabelo - disse alguém, fazendo uma careta, como se dissesse "Esta sopa tem um cabelo" e a pusesse de lado.
Pois tem. E depois? Um cabelo não merece história?
Então, continuemos. | |
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| O cabelo encontrou-se no ar com uma pena, uma pequeníssima pena, tão leve como ele. De pavão? De pintassilgo? De canário? Tanto faz. Há muito tempo que sabia voar sozinha.
Cabelo e pena são agora dois. Junta-se-lhes um fiapo de algodão, tão sem destino como eles. Já são três. E a história complica-se. | |
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| Para complicá-la mais, veio ter com eles um fio de seda, sabe-se lá donde... Talvez de uma bordadeira que sacudiu a saia. Ou de uma fita a enfeitar cartas, que o tempo esqueceu...
São coisas sem nada, sem peso, sem destino, mas com muita história por contar. | |
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| Uma semente, depois, agarra-se à pena, ao cabelo, ao fiapo, ao fio de seda, e todos juntos dançam a moda que o vento quer.
Ah, mas a semente é pesada e a dança termina cedo. Cai, arrastando consigo na queda as asas a que se juntara.
Logo a seguir veio a chuva. | |
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| A semente afunda-se, um niquinho só, mais o rolo de coisas sem futuro, que caíram com ela.
E pronto.
Para a próxima Primavera, daquela semente vai nascer uma erva, com uma flor ao cimo. Uma flor branca, como o fiapo de algodão, de pétalas frágeis como penas. | |
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| Há-de vir o vento arrebatá-la da haste e levá-la com ele, como um fio de seda, um cabelo, eu sei lá que mais...
É a vida. | |
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