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| Duas Margens António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Eram duas margens, com um rio a separá-las. Que tolice! Se não houvesse um rio entre elas, como poderiam ser duas margens?
A margem de lá dizia para a margem de cá:
- És mesmo feia. Quanto mais olho para ti, mais me admiro que possa haver terra tão sem graça.
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| - Vira-me as costas - respondia-lhe a margem de cá. - Até me fazias um favor, porque escusava de ver a tua cara horrível.
Passavam o tempo nisto. Insultavam-se constantemente, enquanto o rio, sem lhes ligar, corria a seus pés. | |
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| Barcos e barquinhos atravessavam-no de uma para a outra margem, indiferentes ao despique interminável. Para os barcos e para as pessoas que neles viajavam, as margens não eram bonitas nem feias, mas pontos de chegada ou de partida. | |
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| Só uma vez por outra, um turista as retratava na sua máquina fotográfica, comentando:
- Bela paisagem ribeirinha...
Qualquer uma das margens que ouvisse diria que, certamente, era dela que o turista falava. Duas presunçosas, afinal. | |
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| Até que foi projectada uma ponte para ligar as duas margens. Os trabalhos começaram e já iam bastante adiantados quando uma das margens disse para a outra:
- Andam a levantar esta ponte para chegarem mais perto de mim.
A outra enxofrou-se:
- Qual quê?!
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| A ponte é para dar acesso ao meu lado.
- Não é!
- É!
- Não é!
Farto das discussões, o rio interpôs-se e disse, na sua voz pausada de rio de águas mansas:
- Esta ponte destina-se, como todas as outras pontes, a juntar as duas margens.
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| Vocês vão ficar mais perto uma da outra, vejam se se entendem.
Elas calaram-se. A ponte crescia a olhos vistos. Era uma grande e bela ponte.
No dia em que foi inaugurada, houve foguetes, música, discursos.
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