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| O Destino da Música António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma vez uma música, uma melodia. Andou pelos ouvidos das pessoas.
Alguns cantarolavam-na. Outros assobiavam-na. Fosse em lá-lá-lá, no céu da boca, ou em tri-ti-ti, na ponta dos lábios, sabia sempre bem. | |
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| Quando era tocada no coreto da praça, as pessoas paravam de conversar e aproximavam-se pé ante pé, meneando a cabeça ao som da música. E, quando a música acabava, batiam palmas entusiasmadas, que tanto se destinavam à música como à banda que apuradamente a tocara. E pediam "Bis! Bis!". | |
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| Às vezes, o maestro fazia-lhes a vontade. Nova sessão do encantamento e, no fim, mais uma grande revoada de palmas.
Acontecia as pessoas acordarem, de manhã, com a música a rodopiar nos ouvidos. Era bom. | |
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| Acontecia as pessoas adormecerem, à noite, com a música a rodopiar nos ouvidos. Também era bom. | |
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| E, durante o dia, os carpinteiros, a serrarem, assobiavam-na, as lavadeiras, a lavarem, cantavam-na, e toda a gente, quer estivesse a trabalhar quer fosse dar um passeio solitário pelo campo, espalhava-a pelos ares, dando mais vida à música que serpenteava, feliz, em direcção às nuvens. | |
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| Mas a banda deu a conhecer outras melodias. Era seu dever valorizar-se e renovar o repertório. Não podia estar só a tocar as mesmas músicas de antigamente.
Porque é que não voltam a tocar aquela que começa assim: Lá-lá-lá...? - perguntava alguém, com saudades da velha música. | |
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| Não havia quem soubesse responder.
A pouco e pouco, a música foi-se apagando das memórias.
Para onde vão as melodias que nunca mais são tocadas?
Eu sei, isto é, julgo saber. Os sons sobem. | |
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| Seja de flauta, de harpa ou de voz, o som solta-se donde é emitido e como leve coluna de fumo busca o ar transparente, onde vogam as andorinhas. Cada vez mais alto, o som atravessa as nuvens... | |
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| Quando chove e as gotas de chuva tilintam nas águas dos rios e dos lagos, os sons que subiram regressam à Terra. Todos juntos, em grande confusão, escorrem pelas correntes de água, em caudais de música, em ondas, em cascatas, e vão ter ao mar. | |
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| Os sons mais pesados vão para o fundo. Os outros permanecem à superfície e, levados pelo balanço das ondas, navegam, de mistura com algas, penas de gaivotas, bocadinhos de luz e de prata, roubados ao Sol. | |
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| Estava eu na praia, a contemplar um pôr de Sol (sou coleccionador de pores de Sol, não sei se sabem), quando uma musiquinha suave me trespassou os ouvidos. | |
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| Os óculos já embaciados da poalha da maresia ficaram ainda mais embaciados, porque, de repente, me lembrei de que tinha ouvido aquela música à beira de um coreto pela mão do meu avô Domingos. Portanto, há muito e muito tempo...
Não estava a inventar. | |
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| Para ter a certeza, aflorei a música aos lábios, num sussurro de um assobio, que voou em direcção às nuvens rosadas do entardecer.
Foi então que resolvi escrever esta história.
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