| |
|
| Os quatro irmãos António Torrado Cristina Malaquias | |
| | |
| Era uma vez um rei chamado Sol. Todos o conhecem. Todos o estimam.
Poderoso, os seus raios são espadas. Majestoso, os seus raios são de ouro e mais do que todo o ouro valem. Generoso, os seus raios são fios de vida. | |
| | |
| Poderoso, majestoso e generoso era este rei, mas tinha um grande desgosto - os seus quatro filhos davam-se muito mal uns com os outros.
Chamavam-se os quatro irmãos, por ordem de idade, a começar pelo mais novo: Primavera, Verão, Outono e Inverno. | |
| | |
| Bulhavam constantemente, porque todos queriam, à uma, governar a Terra. Ora isto não podia ser.
Assim pensando, o rei Sol decidiu que cada um deles governasse por sua vez, durante um certo tempo. As ordens de um pai, para mais rei, e ainda por cima Sol, têm de se cumprir.
O Outono não gostava desta partilha. Queixava-se de que lhe não davam tempo... | |
| | |
| Ainda estava ele a arrumar e a alindar a casa, pintando tudo da cor da púrpura, em tons e meios tons amarelos doirados, e já o Inverno lhe batia à porta. Então o Outono tinha uma birra e arrancava as folhas das árvores, algumas ainda por pintar...
Saía o Outono com lágrimas nos olhos e entrava o Inverno.
-- Em que desordem isto está - exclamava ele, irritado. | |
| | |
| E punha-se a varrer. Varria com tanta força que fazia vento. Depois lavava, em grandes bátegas de água, caídas do céu... As sementes e os grãozinhos, que o Outono deitara à terra, assustavam-se:
- Iremos nós também na cheia? - perguntavam uns para os outros. | |
| | |
| O Inverno ouvia-os e dizia-lhes:
- Sosseguem! Durmam descansados. Vai tudo dormir um longo sono. Assim tem de ser.
E tão carinhoso ele era que cobria os lugares mais desprotegidos da terra com um manto branco de neve.
Lá fora, a Primavera impacientava-se. | |
| | |
| Não tinha feitio para suportar os vagares do irmão. Às vezes, não se continha que não perguntasse pela frincha da porta:
- Já posso?
Ainda era cedo, mas só de lhe ouvirem a voz, as primeiras flores rompiam a terra.
Então, quando ela chegava, era uma festa. | |
| | |
| Corria a Primavera de lés a lés e não havia ervinha, folha, haste, flor que não quisesse dançar com ela. Era uma enorme roda de alegria.
Mas a folgança não podia continuar sempre. Cansada do bailarico, a Primavera dava de bom grado o seu lugar ao Verão.
- Vamos trabalhar - dizia ele, assim que chegava.
E trabalhava-se, pois então! | |
| | |
| Os grãos e os frutos amadureciam. As flores arrecadavam tesouros. Nas tocas, nos ninhos, nos cortiços e por toda a parte, as palavras de ordem eram: trabalhar, colher, guardar.
Enquanto, nas praias, uns gozavam as férias, outros, no campo, não tinham descanso.
- O essencial fica feito. | |
| | |
| Deixo os retoques ao cuidado do meu irmão Outono - dizia o Verão, à despedida.
Lá vinha o Outono, com pincel e tintas apurar as cores. Achava sempre que merecia mais tempo. São tantas as tonalidades, do verde-escuro ao castanho, do laranja ao vermelho... Não se pode fazer obra asseada quando se sente os passos do Inverno a aproximar-se. Que nervos! | |
| | |
| Sorrindo no seu trono, o Sol acompanhava a obra dos seus quatro filhos. Descansa. Eles estão a dar muito boa conta de si.
E o Sol, risonho, ainda mais resplandece.
| |
| | |
| Copyright
© 2003 APENA, APDD Cofinanciado pelo POSI e pela Presidência do Conselho de Ministros |