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| O barrete emplumado do embaixador enfatuado António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era um enfatuado.
No tempo em que esta história aconteceu, havia luxuosas carruagens, fidalgos empertigados que nelas se passeavam, grandes chapéus emplumados, fatos rendados e folhudos, cabeleiras com muitos caracóis... Eram uns tempos também muito enfatuados. | |
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| Por isso os sujeitos enfatuados que viviam nesses tempos enfatuados ainda pareciam mais enfatuados do que se vivessem em tempos menos enfatuados. Estão a acompanhar-me?
O protagonista da nossa história era, portanto, um indivíduo muito enfatuado. O nome? Não sei. | |
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| Já ninguém se lembra.
Embaixador de um grande país, representava os interesses do rei ou imperador desse reino grandioso noutros reinos, quase sempre mais pequenos, mais pobres, mais acanhados. Estou a fazer-me entender? | |
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| Como este embaixador era um presunçoso, estava sempre a ostentar a sua origem e a opulência fabulosa do reino, donde provinha. A ostentar e a comparar.
No capítulo das comparações é que a emproada personagem era de uma arrogância de meter raiva aos mais pacientes.
- O quê? | |
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| O vosso palácio real tem só quarenta salas e salões? - espantava-se, com espalhafato, o espaventoso espanador, perdão!, embaixador. - Pois fiquem sabendo que o mais modesto dos palácios do meu real senhor tem mais de quatrocentos salões. Vejam a diferença. | |
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| Fosse verdade ou mentira, o que saltava à vista era a empáfia e a embófia (duas divertidas palavras diferentes que querem dizer o mesmo...), a enorme empáfia e a enorme embófia da personagem.
Tudo lhe servia para desdenhar. | |
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| Os banquetes, no país dele, eram mais requintados, as cerimónias mais cerimoniosas, os bailes mais iluminados, as damas mais elegantes, as jóias mais preciosas... Tudo, no reino dele, tinha mais brilho e mais pompa. | |
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| Quem o ouvia tinha de aturá-lo, pois ele representava um reino poderoso e não parecia prudente entrar em hostilidades com o seu embaixador, tanto mais que ele próprio estava sempre a dizer:
- O nosso exército é invencível.
Fosse ou não fosse, ninguém queria tirar isso a limpo. | |
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| Estou a ser claro?
De uma vez em que o perliquiteto embaixador estava de serviço num pequeno reino - bastante pequeno, mas muito arrumadinho - foi convidado para uma caçada real.
Enjoado, como convinha, o embaixador compareceu, vestido a rigor. | |
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| Em vez de chapéu, trazia na cabeça, como de costume, um barrete, enfeitado com uma enorme pluma de falcão. Parece que era moda, lá na terra dele.
Logo, por sinal, a caçada era com falcão. | |
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| Assim que a trompa soou o sinal de caça e o falcoeiro desencarapuçou a ave de rapina, o que se viu demorou menos tempo a acontecer do que demora a contar.
A ave disparou pelo ar fora. Ia despenhar-se de bico em riste sobre a presa. | |
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| Mas, desta vez, diante do séquito atónito, a caça visada pelo falcão foi outra. Qual? O barrete do embaixador fedúncio.
Teria implicado com a pena? Não se chegou a saber. O falcão arrebatou o barrete e ergueu-o nos ares, tão veloz como descera. | |
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| O embaixador barafustou, de cabeça perdida, como se o falcão lhe tivesse tirado a dita cabeça. À sua roda tudo ria a bom rir.
Passadas umas voltas pelo céu, o falcão terá reconsiderado e, aparentemente arrependido do desaforo, regressou à comitiva. | |
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| De barrete no bico, voltejou à roda dos ombros do atordoado embaixador e, mais diplomata do que o cavalheiro nunca fora, restituiu o cogumelo aonde ele pertencia. Ficou o barrete um pouco à banda, mas, depois de tanta habilidade, não se pode exigir mais perícia a um falcão.
De seguida, voou de novo, colhendo no ar o eco dos aplausos do séquito real. | |
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| Um nunca mais acabar de vivas e risos.
O rei daquele pequeno, mas arrumadinho, reino, que era dotado de uma personalidade afável de grande senhor, acercou-se da vítima do falcão e comentou:
- Aquilo a que assistimos, meu caro embaixador, parece uma fábula. | |
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| O falcão tanto podia ter arrancado a minha coroa como o seu barrete. Que nenhum sinal de dignidade e de grandeza se julgue eterno! A importância dos reinos e dos impérios é um vai-e-vem. Qualquer golpe de asa e... vão ao ar!
O embaixador alisava, exasperado, a pena do barrete. Nunca sofrera um vexame assim. Mas fazer queixa de quem? | |
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| De quê? De um falcão? Era ridículo.
Tão furioso estava que nem deu por uma maliciosa piscadela de olho do rei dirigida ao falcoeiro, que retribuiu, dentes a brilhar de riso. Não viu o embaixador nem mais ninguém, mas eu estou em condições de assegurar que foi assim, tal e qual. | |
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