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| O gato gatarrão come tudo à mão António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma vez um gato e era uma vez um papagaio.
Encontraram-se os dois nesta história e falaram assim:
- Queres vir jantar comigo? Sou eu que ofereço - convidou o papagaio.
- Só se o jantar valer a pena... - respondeu o gato, que era bastante malcriado.
O papagaio sabia receber. | |
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| Preparou uma rica mesa de paparicos que lhe deram imenso trabalho a cozinhar. Peixe, perna de vitela, fruta, chá e bolos, quinhentos bolos redondinhos, acabados de sair do forno, muito loirinhos e saborosos. Uma delícia! | |
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| Empilhou quatrocentos e noventa e oito bolos numa bandeja, diante do lugar em que o gato ia sentar-se, e guardou dois bolos para ele, papagaio bem-educado e amigo de brindar as visitas. | |
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| O gato chegou, comeu o peixe e a vitela, esvaziou o cesto da fruta, bebeu o chá e engoliu, um a um, os quatrocentos e noventa e oito bolos que lhe estavam destinados.
- Estou com fome. Não há mais nada que se coma? - perguntou o gato, limpando os bigodes. | |
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| - Estão aqui dois bolos - respondeu o papagaio, que, de tão admirado que ficara com o apetite do gato, nem se lembrara de os comer.
- Venham eles! - exclamou o gatarrão.
Engoliu-os num abrir de olhos e, depois, disse:
- Ainda fiquei com mais fome. E agora? | |
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| - Agora... agora só se me comeres a mim - respondeu o papagaio, um bocado aborrecido.
- Boa ideia - aprovou o gato.
E sem mais aquelas, glip-glip, glop-glop, tragou o papagaio.
Uma velhinha que os servira, ao ver isto, repreendeu-o:
- Que vergonha e que falta de respeito! | |
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| Então foi comer o seu amigo papagaio?
- E mais comia, porque continuo com fome - respondeu-lhe o gato. - Estou mesmo a pensar comê-la a si...
E glip-glip, glop-glop, engoliu a velha.
Depois, desceu à rua para se estirar um bocado ao sol. Nesse momento, ia a passar um homem com um burro carregado de feno. | |
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| - Passa de lado, gato, porque estou com pressa e o meu burro pode pisar-te - avisou-o o homem.
- Não é um burro que me mete medo. Já comi quinhentos bolos, uma papagaio e uma velhota. Ainda cá cabe um homem mais o burro... | |
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| E glip-glip, glop-glop, engoliu o homem e engoliu o burro.
Continuou o seu caminho, muito empertigado, até que encontrou pela frente um cortejo real. O rei dava o braço à rainha, atrás deles vinham os soldados e atrás dos soldados uma quantidade de elefantes, alinhados dois a dois. | |
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| Era um cortejo histórico, muito colorido e florido. O rei, que tinha acordado bem-disposto, vendo o gato gatarrão disse-lhe:
- Encosta-te à parede, gato, senão os meus elefantes esmagam-te.
- Esmagar-me, a mim? Deixa-me rir. Já comi quinhentos bolos, um papagaio, uma velhota, um homem e um burro. | |
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| Porque não hei-de comer também um insignificante rei e toda a sua comitiva?
E glip-glip, glop-glop, engoliu o rei e a rainha, os soldados e os elefantes. Começava a sentir um certo peso no estômago. No entanto, prosseguiu o seu caminho, sempre muito empertigado. | |
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| Dois caranguejos cinzentos trotavam em sentido contrário, naquele jeito de andar de lado que não tem emenda.
- Muda de passeio, gato - gritaram-lhe eles, de longe.
- Era o que faltava! - respondeu-lhes o gato, enfrentando-os. | |
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| - Já comi quinhentos bolos, um papagaio, uma velhota, um homem e um burro, um rei, uma rainha, um exército e uma manada de elefantes. Querem ver como ainda sou capaz de comer dois caranguejos?
E não lhes deu tempo. Glip-glip, glop-glop, engoliu-os em menos de um ai. | |
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| Assim que os caranguejos chegaram ao fim da viagem, olharam em volta e não viram nada. Estava às escuras a barriga do gato. Mas, a pouco e pouco, foram dando conta dos que tinham chegado antes deles. A um canto, estava o rei muito abatido, com a coroa à banda. Nos seus braços desmaiara a rainha. | |
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| Os soldados andavam de um lado para o outro, sem saberem o que fazer, bastante envergonhados. Pelo seu lado, os elefantes tentavam pôr-se em ordem, em filas de dois, mas faltava o espaço. A velhota estava a conversar com o velho, dono do burro, que adormecera em pé, apesar do peso da carga. | |
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| Sobre uma enorme pilha de bolos, empoleirava-se o papagaio, de penas eriçadas.
- Mano, este sítio não nos serve - comentou um dos caranguejos.
- Também me parece, mano - concordou o outro caranguejo. - Vamos ver se nos safamos.
Com muita paciência e teimosia, começaram a cavar um buraquinho na barriga do gato. | |
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| As pinças deles trabalhavam ligeiras, de modo que, em pouco tempo, tinham aberto um buraco por onde puderam passar, de lado. Depois deles, saíram, pé ante pé, o rei, a rainha, os soldados, os elefantes a dois e dois, o homem e o burro, a velha e, no fim de todos, os papagaio, com um bolo em cada mão, os únicos que tinha guardado para o seu jantar. | |
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| Foi assim que o gato teve de passar o resto do dia a coser o buraco que os caranguejos tinham aberto. Talvez, depois disto, aprenda a não ser glutão.
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