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| O cavalo sem cabeça António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma vez um cavalo sem cabeça. Um cavalo de brincar, um cavalo de balancé.
Onde tinha ido parar a cabeça, ele não sabia. Estava velho, todo estragado e também muito esquecido. Sem cabeça, não admira.
Desconfio que os meninos que o tinham montado não estariam menos velhos do que ele. | |
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| Quando os nossos brinquedos envelhecem, nós, mais tarde ou mais cedo, acabamos por fazer-lhes companhia. Por ficar parecidos com os nossos velhos brinquedos. Ou vice-versa.
- Olha um cavalo sem cabeça - disse alguém, que andava a arrumar a arrecadação.
- Guarda-se cada coisa mais inútil - disse outro alguém. | |
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| Eram dois homens, que estavam incumbidos da limpeza daquela casa de arrumos, para transformá-la num quarto ou noutra divisão qualquer. Iam abrir janelas, pintar paredes, assoalhar o chão. Mas primeiro tinham de desfazer-se do que não prestasse. | |
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| As tralhas retiradas da arrecadação amontoaram-se num terreno, ao sol. Mais pareciam sobras de um naufrágio.
Eram malas que não fechavam. Maples sem braços. Cadeiras sem pernas. Guarda-chuvas sem pano. E tudo meio podre, bolorento, cheio de pó e teias de aranha. | |
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| - Guarda-se cada coisa mais inútil - voltou a dizer o homem, que não devia saber dizer outra coisa.
No cimo do monte de tarecos, o cavalicoque sem cabeça. Se tivesse cabeça, devia apreciar o destaque.
- Deita-se-lhes fogo - propôs um dos homens.
Assim fizeram. | |
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| As labaredas roeram de baixo para cima o que havia a roer. Caíram destroços de coisas, sobre coisas em destroços. Fumo. Lume. Cinzas.
Anoitecia. O cardume de fogo assarapantou a noite. Era uma fogueira majestosa.
Estilhaçadas e afundadas pelas labaredas, as coisas deixavam de ser o que eram. | |
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| Só o cavalo sem cabeça resistiu, no seu pedestal de lume.
Mas uma espadanada de fogo chamou-o a si. O cavalinho ardeu. Estalaram os restos de pintura. Fendeu-se a madeira apodrecida. Soltaram-se os pregos que o prendiam ao arco do balanço. | |
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| Foi então que um ímpeto de chamas desassossegadas se desprendeu do incêndio e um impaciente cavalo saltou do alto da fogueira, voou sobre o fumo e desapareceu, no escuro do firmamento. Tinha cabeça, crinas e pescoço de labaredas, o corpo em brasa viva. Era ágil e rápido como um grito. Desvaneceu-se no azul da noite. | |
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| Logo após a fogueira ruiu, esbarrondou-se em faúlhas e torresmos incandescentes.
Mas o cavalo de fogo eu vi. Ia a passar por acaso e vi, de relance, como um relâmpago, o cavalo em chamas galgar tudo o que se desfazia em cinzas e pular para o caminho das estrelas.
Garanto que vi. | |
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