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| Os doze de Inglaterra António Torrado Cristina Malaquias | |
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| A história que vou contar será bom que, de aqui a alguns anos, a leiam em livro, para confirmarem se a contei como deve ser. Tenho as minhas dúvidas... | |
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| Por enquanto talvez seja cedo, mas, em chegando o tempo certo, procurem-na n' Os Lusíadas, livro de muitas aventuras, que Luís de Camões escreveu em versos grandiosos e resplandecentes, onde sobressaem o orgulho de ser português e a voz "nua e pura" de um grande poeta. | |
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| Desculpem-me este começo solene, tão fora da minha maneira de contar, mas prometo que, de ora em diante, a história vai ganhar velocidade e galopar a toda a brida. | |
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| A expressão "correr ou galopar a toda a brida", que é a rédea do cavalo pegada ao freio, tem a ver com correrias à desfilada por estradas poeirentas, quando outro não era o meio de transporte de quem pretendia fazer longas viagens. | |
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| Nessas épocas remotas, em que ainda não havia aviões nem automóveis nem comboios, os viajantes por terra tinham de saber andar a cavalo ou nunca iriam longe.
E, mesmo que fossem bons cavaleiros, muitos perigos defrontavam durante o caminho, além de que corriam o risco de se atrasarem e de não chegarem a tempo. | |
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| Veja-se o caso do Magriço, nome por que era conhecido Álvaro Gonçalves Coutinho, destemido cavaleiro da corte do nosso rei D. João I, não sei se estão a par.
Como tudo isto se passou há cerca de 600 anos, é natural que não se lembrem. Mas cá estou eu, à conta do Luís Vaz de Camões, para vos trazer alguns pormenores mais. | |
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| Deu-se o caso que doze damas da corte inglesa, de saias a arrastar e chapéus pontiagudos de fada, se sentiram ofendidas por uns grosseirões duns nobres, de má catadura e pior educação. Uns "holigans" do tempo, não sei se estão a imaginar. | |
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| Como eles eram de força e elas fracas, procuraram quem as substituísse e desse aos brutamontes a lição merecida. O pior é que a má reputação dos alarves cavaleiros assustava e não houve um único inglês (e já eram bastantes milhões!) capaz de defender as damas. | |
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| Inconsoláveis, as meninas de chapéus de fada foram chorar-se ao velho Duque de Lencastre, que também já não estava em idade de valer-lhes. Mas o Duque recordava-se da coragem dos portugueses por, noutros tempos, ao lado deles ter batalhado. | |
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| Vai daí recomendou-lhes:
- Quem pode salvar a vossa honra ofendida e fazer frente aos marmanjos ingleses são aqueles bravos rapazes lá de baixo. Escrevam-lhes a pedir socorro.
Foi o que elas fizeram, na mais elegante das caligrafias e com as mais sedutoras e doces palavras. | |
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| Candidatos portugueses não faltaram, mas só podiam ir doze a Inglaterra, senão despovoava-se o reino.
Embarcaram os jovens portugueses na foz do Douro com seus aprestos e cavalos. Todos menos um, o tal Magriço, que preferiu viajar, montado no seu cavalo e já de lança e armadura, como se Inglaterra fosse ali adiante. | |
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| - Olha que não chegas a tempo - lembraram-lhe os companheiros. - Vê no que te metes!
Mas o Magriço fez de conta que enjoava a viagem por mar e enfiou pela terra adiante. Um estirão. | |
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| Os onze cavaleiros portugueses atravessaram de barco o Mar do Norte e desembarcaram em Inglaterra, onde foram muito amimados pelas damas ofendidas. Só uma estava triste, a que, em sorte, iria ser defendida pelo pouco pontual Magriço. | |
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| Contra os doze ingleses se apresentaram os onze portugueses. Aquilo não era um desafio de futebol, mas torneio em campo aberto, com elmos, grevas e arneses e lanças e espadões. Um caso sério.
Na tribuna das damas, a menina Magriça (chamemos-lhe assim, por comodidade...) chorava a sua solidão. | |
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| Mastigam os cavalos os freios, escumando e raspando o chão, empunham os soldados as trombetas, para dar começo à liça, refulgem ao Sol as lanças de aço e as armaduras de ferro e, onze contra doze, vai começar a luta de vida ou de morte.
Repentinamente, levanta-se nas tribunas o povo, em grande alvoroço. | |
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| Todos viram o rosto, à procura da causa do reboliço. É Magriço, pronto para o combate, que chega, envolto numa nuvem de pó.
A Magriça inglesa sustem as lágrimas e sorri como um arco-íris, depois da tempestade.
Ao som das tubas, largam rédeas, esporeiam os cavalos, baixam lanças e "fere a terra fogo". | |
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| Dos cavalos o estrépito parece
Que faz que o chão debaixo todo treme;
O coração no peito que estremece,
De quem os olha, se alvoroça e teme. | |
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| Qual do cavalo voa, que não dece;
Qual, com cavalo em terra dando, geme;
Qual vermelhas as armas faz de brancas;
Qual com os penachos do elmo açoute as ancas. | |
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| E os doze valentes portugueses derribaram os doze brutos ingleses. Para os nossos a palma da vitória e as damas vencedoras e com glória.
Depois, já se vê, houve festa da rija, nos paços do Duque de Lencastre. | |
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| Recolhe o Duque os doze vencedores
Nos seus paços, com festa e alegria;
Cozinheiros ocupa e caçadores,
Das damas a formosa companhia, | |
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| Que querem dar aos seus libertadores
Banquetes mil, cada hora e cada dia,
Enquanto se detêm em Inglaterra,
Até tornar à doce e querida terra. | |
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| Parece que o Magriço se demorou mais uns tempos e não regressou com os companheiros. Já era mania...
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