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| A boneca da madrinha António Torrado Cristina Malaquias | |
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| A boneca da madrinha era a mais linda de todas. Nem as das lojas de brinquedos, nem as daquele museu, onde havia bonecas de princesas ao colo de princesas bonecas.
Ai, a boneca da madrinha, poisada no toucador, multiplicada pelos espelhos em centenas de bonecas iguais! Tinha caracóis louros, de cabelos de verdade. | |
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| Usava chapelinho à banda, com friso de redezinha. O vestido era de seda tão azul como os olhos dela. A saia de baixo engomada levantava-lhe o vestido. As meias de renda branca, as botas de pelica fina, botas de pôr e tirar, tudo uma maravilha.
Descalça, os pezinhos rechonchudos eram tal e qual os de um bebé. | |
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| Ai, quem dera à Mariana a boneca da madrinha! Poder brincar com ela, podia, sobre a larga cama com colcha de cetim, mas só um bocadinho, porque a madrinha ou a mãe da madrinha ou a irmã da madrinha estavam sempre a dizer-lhe:
- Cuidado, Mariana, que a boneca é de loiça e parte-se.
Ela sabia. | |
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| Então não havia de saber? Mais cuidadosa do que ela ninguém no mundo. A Mariana era capaz de oferecer a sua própria vida para que a boneca nunca as partisse.
Tocava-lhe ao de leve. Calçava-a e descalçava-a, vezes sem conto. Dava-lhe beijos nas bochechas e nos olhos pestanudos. | |
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| Nunca sequer se atrevera a penteá-la, para não lhe desmanchar os caracóis loiros.
O que a Mariana mais gostava era de vê-la, passear-lhe os olhos do chapelinho à ponta dos botins, reter tudo, sem que escapasse um único pormenor, para se lembrar, depois, quando voltasse a casa. | |
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| As visitas à madrinha só aconteciam, de longe em longe, mas eram sempre uma festa antecipada.
- Hoje vamos a casa da madrinha, Mariana - dizia-lhe a mãe.
Que bom! Que bom, por causa da boneca. Não que a madrinha não fosse uma senhora simpática. | |
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| Chamava-se Mariana, não tinha filhos, mas, em compensação, muitas afilhadas, todas Marianas como ela.
- Eu não sei se elas vêm cá para visitar a madrinha ou para brincar com a boneca da madrinha... - dizia a D. Mariana, a sorrir.
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| Não era um grande sorriso o de D. Mariana, mas um sorrisinho frisado, miudinho, que lhe apertava os olhos e enrugava o queixo. "Um sorriso para dentro", pensava a afilhada Mariana. Nada que se parecesse com o sorriso da boneca, quase a estalar em riso, quando via mais aquela afilhada (dela? de D. Mariana?) aproximar-se do toucador, de olhos a brilhar... | |
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| - Mariana, são horas de nos irmos embora - chamava-a a mãe. - Despede-te da madrinha.
E ela, com um grande beijo de saudade, despedia-se primeiro da boneca...
Mariana vai fazer sete anos e a madrinha avisou que, desta vez, também ia à festa.
- Caso para admirar... | |
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| Merece foguetes - comentou o pai da Mariana.
- É porque tem uma rica prenda para a afilhada e quer ser ela a dá-la - explicou a mãe, com ar misterioso.
"Uma rica prenda?", interrogou-se a Mariana. Seria a boneca? A boneca de chapeuzinho à banda e botas de pôr e tirar? A sua boneca? Podia lá ser outra coisa! | |
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| Enquanto a Mariana desembrulhava a grande caixa, que guardava uma qualquer coisa pesada, que balançava lá dentro, o coração bateu-lhe no peito que nem tambor em batuque. À volta, as pessoas crescidas, entre as quais a madrinha, sorriam, embevecidas. | |
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| Ela a destapar a caixa e uma morena vistosa, de saia encarnada e laçarote à cintura, a olhar para ela. Boneca e menina fitaram-se, surpreendidas. Afinal não era a boneca da madrinha.
- Gostas? - perguntou D. Mariana a Mariana.
- Gosto, sim, madrinha. Obrigada, madrinha. | |
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| E a menina abalou para o seu quartinho, com a caixa, a boneca e o papel do embrulho a arrastar. No segredo do quarto, chorou lágrimas sentidas, agarrada à boneca que não era dos seus sonhos.
Entretanto, a boneca gemeu. Era das que choram, quando se lhes carrega na barriga. Um mecanismo como outro qualquer. | |
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| Mariana, só um bocadinho interessada por esta habilidade da sua nova boneca, olhou pela primeira vez para ela, com olhos de ver. Olhou e abismou-se.
A boneca chorava de verdade. Duas grossas lágrimas corriam-lhe pela face. Estava visivelmente triste, muito triste por ter desgostado a menina. | |
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| Ela que apenas queria agradar e dar prazer, trouxera desilusão. Por isso chorava.
Mariana enterneceu-se e limpou as lágrimas da boneca e as suas próprias lágrimas. Ou as lágrimas da boneca também eram da menina? Pouco importa. Esta história tem mais que se lhe diga. | |
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| - Não chores, que gosto muito de ti - disse a menina, apertando a boneca nos braços.
E ficaram para sempre muito amigas.
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