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| O guarda-redes medroso António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era um guarda-redes muito medroso. Quanto mais medo tinha, à frente da baliza, mais bolas deixava entrar.
- Este guarda-redes não presta para nada. É um frangueiro e a baliza, que ele devia guardar, uma capoeira - disse o treinador. - Não o quero na equipa, nem para suplente do suplente do suplente. Fora com ele. | |
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| E o guarda-redes medroso foi despedido. Que havia ele de fazer? Como já estava habituado a guardar, embora mal, foi para guarda-portão ou porteiro de um grande banco. Podia ser pior, sei lá: guarda-loiça, guarda-vestidos, guarda-vento...
Mas não teve êxito, no novo emprego. | |
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| Ganhou tanto medo que o banco, um dia, pudesse ser assaltado e ele responsabilizado por não ter feito frente aos assaltantes, que passava o tempo a tremer.
- Está com febre ou está com medo? - perguntou-lhe o director do banco. - Em qualquer dos casos, a sua fraca presença à porta não dá segurança aos depositantes. Vá para casa. | |
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| E o guarda-portão, que tinha sido guarda-redes, foi despedido. Que havia ele de fazer? Como já estava habituado a guardar, embora mal, foi para guarda-freio, que é nome que dão aos condutores dos carros-eléctricos. Podia ser pior, sei lá: guarda-comidas, guarda-jóias, guarda-chuva...
Mas foi um fiasco. | |
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| Tinha tanto medo que o carro-eléctrico, nas curvas, derrapasse e descarrilasse, que nunca conseguia sair do mesmo sítio. Os passageiros protestavam, os outros carros-eléctricos, que vinham atrás, tilintavam e todo o trânsito interrompido, empanturrado de automóveis e de autocarros, apitava, buzinava, trombeteava, num desespero. | |
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| - Saia do seu lugar, sua azémola, que é para não dizer cavalgadura - berrou-lhe aos ouvidos um polícia, tomando conta da ocorrência e dos freios do carro-eléctrico. - Saia e nunca mais volte a pôr os pés num transporte público. Só não lhe digo ponha-se na rua, porque você nunca devia ter saído de casa. | |
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| E o guarda-freio, que tinha sido guarda-portão e guarda-redes, foi despedido. Que havia ele de fazer? Como já estava habituado a guardar, com os resultados que se sabe, foi para guarda florestal. Podia ser pior, sei lá: guarda-roupa, guarda-sol, guarda-lamas... | |
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| A princípio, todo aquele isolamento, no meio da floresta, o aterrorizava. Qualquer bicada de pica-pau num tronco, qualquer esvoaçar de melro, ao cimo das árvores, e o guarda florestal ficava com os cabelos tão em pé que até o boné lhe subia uns centímetros acima da testa. Sem exagero. | |
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| Um dia, sabe-se lá porquê, desencadeou-se um fogo na floresta que o guarda florestal guardava. Quando o sentiu e quando o viu crescer em labaredas altas, o guarda florestal apanhou tal susto que desatou a correr, a correr, a correr que só parou de encontro ao muro do fundo do quartel dos bombeiros, porque já não havia mais chão para correr. | |
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| - Fogo! Fogo! - tentava ele gritar, sem fôlego.
Os bombeiros acudiram e o fogo foi apagado a tempo.
- Se o guarda florestal não tivesse vindo avisar com urgência, se ele não tivesse sido tão rápido, se não fosse a sua energia e o seu destemor, tinha acontecido uma grande desgraça - comentou o chefe dos bombeiros. | |
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| Elogiado, homenageado, condecorado, o guarda florestal sentia-se outro. Nunca mais teve medo de andar, sozinho, na floresta. Ele tinha sido um valente guarda florestal, toda a gente o dizia e ele próprio também achava.
Tanto assim que está a pensar mudar de profissão. | |
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| Hesita. Ser guarda-nocturno tenta-o. Ou guarda-costas. Ou guarda republicano. Até talvez, um dia, experimente, de novo, o lugar de guarda-redes. Já nada lhe mete medo.
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