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| Lenda da Cova da Moura António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Tantas lendas de mouras que há e eu ainda não contei nenhuma. Esta soube-a, quando andava a passear na Serra da Penha, para as bandas de Portalegre.
Cada cidade tem muitas histórias para contar. Falam as pedras, murmuram as árvores, segredam as fontes o que as pessoas não vêem nem sabem. | |
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| Esta lenda da Cova da Moura mergulha as suas raízes mais fundas nas encostas da Serra da Penha. Vamos conhecê-la.
Dantes, muito antes de haver Portugal, os mouros ocupavam aqueles lugares. Mas raramente viviam em paz. | |
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| Quando as disputas entre eles gritavam mais alto do que o bom senso e a cortesia, que deve regular sempre as relações entre vizinhos, quando das ameaças passavam aos actos, rompia a guerra e faiscavam as cimitarras. | |
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| Um chefe mouro, reconhecendo que não tinha tropas que chegassem para enfrentar um aguerrido exército invasor dos seus domínios, abandonou o amuralhado da cidade e refugiou-se com a família e a corte nos brejos da serra. | |
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| Carregadas por escravos iam, no meio do apressado cortejo em fuga, as arcas cheias de tesouros, para serem depostas em lugar seguro, longe da cobiça dos agressores.
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| Ouvindo o grito da soldadesca que, de lanças e alfanges em punho, trepava as faldas da montanha, o chefe dos sitiados percebeu que ele e os seus não podiam esperar clemência. Chamou de parte a sua filha, linda menina moura, e disse-lhe, contendo as lágrimas:
- Tu és a jóia mais preciosa dos meus tesouros. | |
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| Junto deles vou encantar-te, para que nenhumas mãos impuras aflijam a tua inocência.
E assim fez. Ele, que tinha poderes mágicos, transformou a filha e as arcas carregadas de riquezas em pedras de uma gruta. Depois, ainda tentou usar da mesma magia para ele próprio e os seus mais próximos, mas já não foi a tempo. | |
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| Uma lança interceptou-lhe as palavras mágicas que ia proferir.
Contam os mais velhos que aquele sítio se chama Cova da Moura, porque, em noites de luar, ainda há quem veja a menina vestida de branco, a andar sem rumo pelo alto da serra. Ouvem-na lamentar-se em língua estranha e chorar os pais e a felicidade que perdeu. | |
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| Impressão será ou o sussurro do vento pelo meio da folhagem dos castanheiros... Seja do que for, os mais velhos acreditam que a moura encantada da Serra da Penha guarda arcas e arcas de tesouros por desencantar. | |
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| Vale a pena ir lá de propósito, em passeio, que mais não seja porque do alto da colina, onde a meio da encosta, alveja uma ermidinha, se abrange todo o casario da cidade de Portalegre, o perfil do Castelo, as torres da Sé e, longe, a Serra de S. Mamede e a imensa planura alentejana. É outra forma de encantamento.
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