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| A lição do peixe António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Num colégio de órfãos de antigamente, para onde iam os meninos que a família não podia sustentar, passava-se muita miséria. Miséria é modo de dizer... fomenica, larica, galga e outros nomes que a fome tem, mas que não disfarçam a penúria nem aconchegam o estômago. | |
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| As refeições, na enorme cantina enregelada, eram um fazer sofrer e um fazer de conta. Só o regente do colégio - o prefeito -, à cabeceira da mesa, comia a seu gosto. Dizia ele que era por ser grande, grosso e grave e que os pequenos, por serem pequenos, não precisavam de comer tanto. Mentiras. Desculpas. | |
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| Num almoço, puseram em cada prato dos pensionistas um peixinho de nada com a pouca companhia de uma concha de arroz.
Um dos órfãos, em vez de lançar o garfo faminto à refeição, encostou a boca à borda do prato e pôs-se a falar baixinho, como quem reza. | |
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| Os colegas estranharam e, lá do fundo, o prefeito quis saber o porquê daquela extravagância.
- Estou a conversar com o peixe, senhor - esclareceu o mocinho. - Como o meu pai, que era pescador, morreu no mar, estou a perguntar-lhe se ele chegou a conhecê-lo.
- E que te respondeu ele? - indagou o prefeito, divertido, entre duas garfadas. | |
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